Dois pequenos tesouros de Chimamanda; confira vídeo

Conheça os livros de Chimamanda Ngozi Adichie, nigeriana que vive entre o seu país e os EUA, leituras indicadas para pessoas que têm horror à palavra feminismo

Chimamanda Ngozi Adichie é autora dos livrosChimamanda Ngozi Adichie é autora dos livros - Foto: Reprodução/Facebook

Pequenos por causa do tamanho e da quantidade de páginas, o que permite leitura em pouco tempo. Outro dia vi uma mulher devorando um deles, sentada em um sofá de livraria. Isso me fez pensar em como existem “pontes” entre a Nigéria, os Estados Unidos e o Brasil. Ambos são de Chimamanda Ngozi Adichie, nigeriana que vive entre o seu país e os EUA. “Sejamos todos feministas*” e “Para educar crianças feministas – Um Manifesto” são dois livrinhos deliciosos e provocantes, que já estão há algum tempo circulando por aqui (2015 e 2017).

Leituras indicadas não apenas para pessoas leigas ou para aquelas que têm horror à palavra feminismo e ao que ela lhes remete. Para essas os livros podem ajudar a saber um pouco mais a respeito e, quem sabe, evitar que saiam por aí dizendo tolices que costumam ser repetidas pelo senso comum. Ninguém é obrigada/o a ser feminista ou a simpatizar com o feminismo. Mas, até para criticá-lo é importante ter mais informação a respeito, mesmo que não sejam aquelas mais teóricas e profundas.

Capas dos dois livrinhos recomendados

Capas dos dois livrinhos recomendados - Foto: Reprodução

São leituras também para iniciados/as e militantes. Não tratam, no entanto, dos movimentos feministas ou de mulheres, mas de comportamentos: como ser, como educar... (sabendo que não existe uma forma única ou correta de fazer as duas coisas) e abordam vários dos preconceitos existentes em nossas sociedades.

"Sejamos todos feministas" anuncia questões que vão ser complementadas no outro livrinho, ou vice e versa. Vale conhecer os dois! São livros para serem lidos por homens e mulheres. Em "Sejamos..." aliás, ela dialoga o tempo todo com os homens: com o amigo que a questiona pelo seu feminismo, com a forma com que estes costumam ver as mulheres e reagir a elas: nos hotéis, nos restaurantes, nos locais de trabalho.

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A autora aborda com certo humor vários clichês com os quais se pretende atingir àquelas que não costumam responder às expectativas fundadas em uma imagem tradicional de mulher. Questiona a forma como as meninas costumam ser educadas: para responder e agradar aos outros e não para serem honestas e fiéis a si mesmas, por exemplo. Afirma que “o problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero”. E remete ao que isso demanda para os homens também.

"Para educar crianças feministas" está escrito como uma carta a uma amiga que teve uma filha e lhe pede orientações. Através de 15 sugestões que passam por ensinar a questionar a linguagem porque esta costuma ser o “repositório dos nossos preconceitos”, por não associar a aparência à moral, ou não pensar no casamento como realização. Terminam com explicar o valor da diferença e de atentar para não universalizar critérios pessoais.

Ambos podem ser interessantes para quem tem que lidar com o debate sobre gênero nas escolas, nem bem começou a ser implementado e tem sido tolhido por aqueles que têm medo da liberdade e da democracia. Podem ajudar a desmistificar o que é gênero diante da falsa acusação de uma “ideologia de gênero” a ser imposta por movimentos sociais. Os dois livrinhos podem ser, inclusive, muito úteis como material educativo e/ou de debate sobre educação.

Ao terminar gostaria de dizer que não compartilho de todos os conceitos e ideias defendidas por Chimamanda. Por exemplo: para mim o sujeito do feminismo são as mulheres, o que significa que homens não poderiam ser chamados de feministas – como ela denomina seu irmão. Acho que ela foca muito no aspecto individual. Não investe na organização coletiva pela transformação, caminho o qual acredito mais potente que aquele das mudanças unicamente pessoais, ainda que não possamos abrir mãos dessas. São um/o começo. Quando a autora fala em ensinar sobre o privilégio e a desigualdade, o reconhecimento de outros seres humanos, gostaria que estivesse ali também escrito: “Ensine-a a lutar coletivamente pelas outras pessoas!”. Mas, são poucos os poréns. Não tão significativos diante do que compartilho e da beleza das ideias de Chimamanda Ngozi Adichie. Palavras que precisam ser divulgadas e lidas como algo muito precioso.

*Você pode assistir no YouTube à palestra que deu origem ao livro, confira abaixo: 




* Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas. 

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