Drogas: caminhos tortuosos da ciência

Polêmica jurídica à parte, o fato é que a ayahuasca, usada desde os tempos incas em rituais religiosos, desperta interesse entre os adeptos das terapias holísticas

Patrícia de Raposo, editora chefe da Folha de PernambucoPatrícia de Raposo, editora chefe da Folha de Pernambuco - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

As drogas sempre acompanharam a humanidade. Pesquisas arqueológicas já comprovaram que o uso de substâncias psicoativas vem dos tempos pré-históricos. As drogas sintéticas estão hoje disseminadas na sociedade, causando profundos estragos e alimentando as veias do tráfico, da corrupção e da violência.

Não é segredo que Sigmund Freud era usuário de cocaína e não só a receitou a seus pacientes, como também a defendeu arduamente até início do século XX, quando deixou de ser sintetizada por laboratórios como Merck e Parke-Davis, para tratamento do vício da morfina. Freud destruiu seus documentos em defesa da droga quando a medicina reconheceu sua nocividade.

As primeiras e efetivas pesquisas com alucinógenos datam dos anos 50 e envolveram milhares de pessoas. Segundo a Scientific American Brasil, alguns desses estudos sugeriam que os alucinógenos poderiam ajudar a tratar a dependência química e aliviar o sofrimento psicológico das doenças terminais.

Esse tipo de estudo gerou muita controvérsia nos anos 60, principalmente após a demissão dos professores pesquisadores Timothy Leary e Richard Alpert da Harvard University em 1963. Eles investigavam os efeitos do LSD e houve denúncias de que Alpert chegou a oferecer psilocibina a um estudante. As pesquisas em todo mundo foram interrompidas no início dos anos 70, quando o uso recreativo dos alucinógenos se espalhou pela sociedade.

Esta semana, o chá de ayahuasca, também conhecido como Santo Daime, voltou à mídia com a notícia do regresso do pesquisador Eduardo Chianca ao Brasil, após dois anos preso da Rússia. Engenheiro eletrônico, ele abandonou a carreira para se dedicar a terapias holísticas e chegou a desenvolver uma técnica de diagnósticos a partir da leitura e equilíbrio dos chacras. A chamada Frequência de Luz, criada por ele em 2006, lhe deu reconhecimento internacional.

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Em 2016 ele foi convidado por cientistas e estudiosos para dar palestras em alguns países, entre eles a Rússia, e acabou detido com o chá, pois as autoridades russas consideram a ayahuasca um narcótico.

Não é o entendimento do Conselho Internacional de Narcótico da ONU, nem da Convenção Europeia de Direitos Humanos. Para ambos, a ayahuasca não pode sofrer restrições porque seu uso é religioso. No Brasil, Anvisa considera que a dimetiltriptamina (DMT) tem efeitos psicodélicos. A DMT é o princípio ativo da ayahuasca, mas seu uso em cultos é permitido aqui pelo Conselho Nacional de Políticas sobre Droga.

Polêmica jurídica à parte, o fato é que a ayahuasca, usada desde os tempos incas em rituais religiosos, desperta interesse entre os adeptos das terapias holísticas. Num mundo cada vez mais opressivo, elas têm sido a válvula de escape para muita gente, que as enxergam como um caminho para o autoconhecimento e realização. Mas não é só isso. Um estudo publicado em 2014 pela Revista Brasileira de Psiquiatria mostrou que o líquido pode ser um potencial tratamento para depressão.

O limite entre o místico e a medicina é tênue. Em 2006, a Johns Hopkins University School of Medicine publicou um dos primeiros estudos com drogas alucinógenas nos EUA em mais de três décadas. Sandy Lundahl, educadora em saúde, 50 anos, foi uma das 36 voluntárias. Ela, que nunca havia tomado um alucinógeno antes, mais de um ano depois, disse que continuava a pensar na experiência de forma positiva diariamente e – o mais notável – que ela a considerava o evento mais pessoal e espiritualmente significativo de sua vida. A ciência, efetivamente, nos impõe fronteiras repletas de polêmicas.

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