É frevo, meu bem! Saiba mais sobre a origem do ritmo pernambucano

Pesquisadores mostram como surgiu a manifestação, que teria nascido na metade do século 19, e não em 1907

Frevando, os capoeiras ou brabos abriam alas para passar em meio à foliaFrevando, os capoeiras ou brabos abriam alas para passar em meio à folia - Foto: Pierre Verger

Um manifesto popular marcado por uma história de ocupação das ruas, de resistência e luta das classes menos favorecidas. A trajetória que formou o que hoje é denominado de frevo, no entanto, vai muito além de apenas um estilo musical, que também se traduz em dança de compasso binário e andamento rápido. A palavra remete a um movimento que refletiu, ao longo de mais de um século de sua existência, a situação social vivida nos centros urbanos do Recife e Olinda.

Apesar do movimento ter ganhado consistência no período pós-República, o surgimento do que se tornou o frevo vem desde o período colonial, e está ligado à construção social do País. O parente mais antigo da expressão carnavalesca vem da época da colonização, e era chamado de entrudo, começando de acordo com calendário católico, 40 dias antes da Quaresma.

“Era uma brincadeira que hoje se traduziria por mela-mela. De molhar, jogar pó, fruta. Tanto nas vilas e cidades como no meio rural, com a participação de toda a sociedade, inclusive de padres”, define a pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), especialista em Carnaval, Rita de Cássia Araújo.

A tradição abrangia diversas camadas sociais, se diferenciando entre elas. Enquanto os escravos brincavam nas ruas e nos chafarizes, onde iam pegar água para seus senhores, os patrões e suas famílias ficavam em suas varandas ou dentro das casas. “Como se tratava de uma sociedade extremamente desigual e dividida, as formas diferenciadas de brincar reproduziam as estruturas sociais existentes. Na rua, ficavam escravos e trabalhadores”, destaca Rita.

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A partir de 1822, quando o Brasil fica independente, o entrudo passa a ser considerado um costume bárbaro e primitivo. “O que se buscava era um país civilizado, com um novo padrão de Carnaval, da Itália e da França. Trazendo esse carnaval do corso (agremiações de luxo), da festa de salão, das máscaras e dos bailes”, explica a pesquisadora.

Por essa influência europeia, surgem as fantasias. No começo, mais tradicionais, e sofisticadas, trazidas da Comédia del Arte, como arlequins e pierrots. Os grandes bailes aconteciam em clubes de dança e eram frequentados pelos burgueses. “Passam então a eleger o Carnaval como sendo representado pela mascarada, e isso estimula as troças, o humor, a crítica de costumes”, elucida Rita.

Sempre regidas por bandas marciais tocando tango, música clássica, estas festas passam a sair às ruas com mascarados em troças. Apesar do preconceito, a mistura dos costumes da elite e das classes populares passa a acontecer com a saída dos bailes. “A luta por um espaço no movimento começa aí, inclusive com repressão social, por serem ignorantes e não saberem escrever, mas estarem querendo reproduzir uma cultura até então da elite”, destaca a pesquisadora.

Rebuliço

O historiador especializado em história da arte, mestre em Antropologia, e gerente geral do Paço do Frevo, Eduardo Sarmento explica que a data 9 de fevereiro de 1907, quando o Jornal Pequeno noticia pela primeira vez a palavra frevo, “é um marco que foi apropriado, visto como algo importante, mas o processo de formação do frevo como expressão é muito anterior a isso, sobretudo na segunda parte do século 19. Até então, o Carnaval era dos clubes de alegorias e críticas”.

“Nesse caldeirão de pós-abolição e, em seguida, dos primeiros anos da República que a tensão política, social e urbanística, fazem surgir o ‘ferver’ que dá origem à palavra frevo, se transformando nesse canal de participação, expressão e inserção da nova classe (operária), e ex-escravos, que não participavam do Carnaval“, esclarece o historiador.

Com o rebuliço social do Brasil, o frevo encontra dois elementos mais fundamentais: as bandas marciais, que serviam como grandes animadores dos festejos, tanto religiosos como civis e públicos, mas aí executando o dobrado, o tango, ou a polca, que depois, nessa fusão, vai se constituir no que a gente chama como gênero musical frevo; e os capoeiras, ou brabos, “que eram ex-escravos e operários que tinham uma função muito especifica: primeiro de defender as freguesias dos clubes de alegorias e segundo abrir alas para que pudessem passar, nessa mistura que o frevo vai ser moldado como uma expressão popular. Levando uma bandeira de ativismo, de luta e de reivindicação e ocupação social”, destaca Eduardo.

O gestor do Paço do Frevo contou que o espaço recebe anualmente mais de 300 tipos diferente de frevos. Ele avalia que, conforme a sociedade está mudando, a expressão popular do frevo, e a provocação, que tornaram o movimento tão popular, também estão em mutação. “A história do frevo é um lugar de transgressão, de regressão, e também de transformação. Como se a visão de frevo fosse uma plataforma para você repensar e pensar outros frevos. Não só como uma dança ou uma música do Carnaval, mas como expressão de um sentimento popular”.

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