Edcléa Santos: referência em feminismo e em direito à cidade

Edcléa protestou sem descanso em frente aos prédios de governo pela maioria dos serviços que o bairro hoje tem. Da linha de ônibus que cruza o bairro à iluminação.

Edicléia SantosEdicléia Santos - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

O bairro do Passarinho nasceu do Morro da Conceição. Sua área, antes de mata fechada, foi loteada e cedida pelo Governo do Estado para que moradores de áreas de risco do Morro pudessem ocupar nos anos 1990. Depois de muita luta dos movimento por direito à moradia local. E, entre as pessoas que brigavam naquela época, estava Edcléa Santos, 61. Neste ano, ela se destacou ao conseguir realizar todos os eventos prometidos pelo grupo que criou e intensificou a briga para tornar a Vila Esperança, uma área dentro do Passarinho, em Zona Especial de Interesse Social (Zeis).

Ela é fundadora do Espaço Mulher, grupo de conscientização de mulheres sobre, entre várias questões, a violência doméstica e o empoderamento feminino. Criou o movimento Ocupe Passarinho, responsável pela permanência de 27 mil famílias na Vila Esperança, dentro do bairro. Produz o projeto Beleza Negra, evento de estímulo à beleza e a saúde da mulher negra. Protestou sem descanso em frente aos prédios de governo pela maioria dos serviços que o bairro hoje tem. Da linha de ônibus que cruza o bairro à iluminação.

Edicléia Santos

Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Hoje, ela é referência em feminismo e em direito à cidade. E sabe exatamente o momento em que deixou de ser uma dona de casa que não conhecia vida sem o marido e se tornou um sujeito político. “Morava no Morro e passava o dia lavando roupas para fora e cuidando da casa. Fui me cadastrar no Conselho de Moradores para receber o tíquete leite em 1984. Uma conhecida estava lá e me chamou para participar de uma reunião. Dali para sair pela primeira vez sem minha família foi um pulo”, lembra.

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Mudou-se para o Passarinho em 1997. “Eu era doméstica e pegava uma kombi para o trabalho, como quase todo mundo daqui, já que não tinha ônibus disponível. Na kombi iam dez mulheres, comigo, e todos os dias discutíamos pautas feministas ou de protesto. Um dia em que reclamávamos de uma conhecida que tinha sido agredida, um rapaz reclamou que só falávamos disso. Perguntou: ‘porque vocês não fazem um grupo de mulheres?’”.

Edicléia Santos

Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Decidiram criar o grupo “kombeiras”. Ela odiava o nome e conseguiu mudar para Espaço Mulher no ano seguinte, depois de criarem o primeiro projeto, com ajuda do SOS Corpo. “Eram dois dias com oficinas sobre saúde da mulher na Associação de Moradores”, lembra. Os projetos cresceram. Das dez “kombeiras”, só duas restam. Mas outras várias participam das reuniões semanais. “Tem pessoas de 15 a 74 anos. Elas deixaram de dizer que são pardas, ou moreninhas, e passaram a entender que são negras. E perceber que isso muda muita coisa. Não ter vergonha do que são. Maitê, de 5 anos, é filha de uma de nossos membros e já diz que é menina negra”, contou.

No começo do grupo, os homens da área o viam com desconfiança. As mulheres que entravam deixavam de ser “empregadas” da casa. Deixavam de se submeter. “Depois, começaram a valorizar, nós protestávamos de verdade e obtínhamos vitórias. A Vila Esperança tinha ordem de desocupação e nós ocupamos o bairro com vários eventos e trouxemos o juiz para ver como viviam as famílias no local. No dia para o qual o despejo estava marcado, ele cancelou tudo. Estamos lutando agora para transformar a Vila em Zeis.”

Edicléia Santos

Edcléa Santos na Comunidade do Passarinho - Foto: Ed Machado/Folha de Pernambuco

Confira momentos marcantes da vida de Edcléa (Começando na foto superior esquerda, em sentido horário):

1. Edcléa nasceu e viveu no Morro da Conceição. Durante toda infância e adolescência, não sabia ainda que tinha a vocação para ser uma líder comunitária. Vivia para o lar e para trabalhar lavando roupas para fora.

2. Nos anos 1980, ainda no Morro da Conceição, participava de reuniões no Conselho de Moradores, depois de ser chamada para uma palestra por acaso. Nunca mais deixou de lutar pelo direito à cidade.

3. Participou de um grupo de teatro de rua feminista chamado “As loucas da Pedra Lilás”, com o qual viajou pela América do Sul representando e improvisando, falando sobre temas ligados aos direitos das mulheres.

4. Criou o movimento Ocupe Passarinho, para tentar impedir a desocupação de uma comunidade dentro do bairro. Hoje ele ainda ocorre todo ano, trazendo vida ao Passarinho.

6. Fundou o Espaço Mulher com as amigas e realiza, desde então, diversos eventos. Um dos primeiros foi com brincadeiras que levaram as famílias às ruas.

 

Edicléia Santos - momentos marcantes

 

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