Editorial: Livrarias fecham, mas livros resistem ao digital

Nas últimas décadas, duas perdas marcaram o Recife: a Livro 7 e a Livraria Cultura do Paço Alfândega

Quem gosta de livros sabe o quanto o espaço de convivência de uma boa livraria faz falta para uma cidade. Nas últimas décadas, duas perdas marcaram o Recife: a Livro 7 e a Livraria Cultura do Paço Alfândega. A primeira era grande, sem conforto algum, mas oferecia os melhores títulos e atraía muitas pessoas interessantes. O crescimento dos shoppings e a decadência do centro deixaram a velha livraria da Rua 7 de Setembro desprestigiada.

Confira a reportagem sobre o assunto publicada no Folha Mais deste fim de semana:
Mercado de livros enfrenta fase de mudanças

Anos depois, veio a Livraria Cultura do Shopping Paço Alfândega, também numa área central. Aquele ícone paulista chegava ao Recife com conforto, modernidade, conteúdos inovadores, CDs e DVDs. Logo, tornou-se um ponto de confluência intelectual.

O seu fechamento há poucos dias impactou muita gente, de diferentes gerações, não só pela marca que parece perder força, assolada pela crise econômica nacional e mudanças de hábitos, mas por se constatar a perda de um simbólico espaço para onde convergiam mentes conectadas pelo prazer de ler, vindas de todas as partes do Recife e de cidades vizinhas. Embora outras livrarias tenham surgido em shoppings, nenhuma conseguiu o protagonismo da Cultura do Paço que, por sua vez, ocupou o vácuo da Livro 7 como referência para a cidade.

O curioso é que não foi o desinteresse pelo livro impresso que levou à derrocada da Cultura. O mercado editorial reagiu em 2017, após sofrer quedas sucessivas em anos anteriores.

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Ano passado, o faturamento do setor saltou de R$ 1,6 bilhão para R$ 1,7 bilhão, alta de 3,2%, quando comparado com 2016. O recuo em 2015 foi de -7%. Em 2016, de -9,2%. Os números de vendas também foram positivos, crescendo de 40,5 milhões, em 2016, para 42,3 milhões de exemplares vendidos em 2017, aumento de 4,55%.

O que mais impactou a Cultura, segundo as informações extraoficiais, foi a queda nas vendas de CD e DVDs, que correspondiam a 40% de sua receita. No mundo, as vendas de CDs caíram 7,6% entre 2015 e 2016. No Brasil, a queda foi de 43,2%, não só devido ao crescente interesse pelo digital, mas por anos e anos de pirataria. Dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês) apontam que a venda de CDs gerou 22,8% dos lucros do mercado fonográfico, enquanto downloads e streaming representam 77,2% em 2016. É impactante.

Quando a Amazon abriu sua primeira loja física em 2015, em Seattle, após 20 anos vendendo apenas pela internet, sinalizou ao mercado que os livros impressos seguem bem vivos, embora o setor livreiro tenha acusado a empresa de Jeff Bezos de fechar cada vez mais livrarias com sua agressiva política de preços.

De todo modo, sem estimulo à leitura, as mídias alternativas vão cada vez mais desviar a atenção do leitor. A implantação da Política Nacional do Livro e da Escrita aguarda sanção do presidente Temer e é fundamental para estimular novas gerações a seguirem buscando o conhecimento. E isso tem prazo para acontecer: até o próximo dia 20 de julho. Fiquemos atentos.

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