“Educação integral está consolidada”

Entrevista > Paulo Dutra secretário executivo de Educação Profissional

Jarbas e Tatiana SoteroJarbas e Tatiana Sotero - Foto: Inês Campelo/Divulgação

As primeiras escolas da rede estadual de ensino público a adotar o ensino em tempo integral surgiram no começo da década de 90. Quando Eduardo Campos assumiu o Governo do Estado, em 2007, havia apenas 20 escolas funcionando nesse regime. O tempo passou e o que antes era considerado “experimental” se transformou em uma política pública.

Hoje, são 335 escolas que oferecem educação em dois turnos, com 45 horas semanais a 45% dos cerca de 320 mil alunos do Ensino Médio. A diferença se reflete no desempenho das Escolas de Referência do Ensino Médio (Erem) nas avaliações externas. As médias das escolas integrais são superiores não apenas à média do Estado, mas do Brasil. Desde 2007, o professor Paulo Dutra, um pernambucano de Timbaúba, de 54 anos, que se define como “um funcionário do Estado, da casa, da Educação”, é o executivo dessa verdadeira revolução, que se transformou numa das principais marcas do novo momento da educação pública estadual. Ele diz que hoje a política pública desenvolvida nos últimos dez anos está estabelecida e tornou-se uma cultura dentro da rede pública estadual.

Como foi esse processo que transformou um modelo de escolas “experimentais”, mais percebidas como uma exceção dentro da rede, em algo que já se torna, de certa forma, comum, conhecido pela maior parte da população e utilizado por cerca de metade dos alunos do Ensino Médio?
Em 2007, tínhamos 20 escolas funcionando com educação em tempo integral em Pernambuco. Neste mesmo ano, o governador Eduardo Campos encomendou um estudo com uma consultoria, na possibilidade de torná-la uma política pública. Eram centros experimentais e ele dizia que pra ele só interessava se pudesse atender ao maior número possível de jovens em todo o estado de Pernambuco. O estudo mostrou que, para ele trabalhar como política pública, era preciso chegar até o final do primeiro Governo dele, em 2010, com no mínimo 160 escolas com educação integral. Foi traçada uma meta pra gente, primeiro, transformá-la em política pública, através da Lei 125/2008. Foi o que fizemos. Juntamente com as experimentais que já haviam, chegamos a 51 Escolas de Referência no Ensino Médio até o fim de 2008. Em 2009 foram mais 52, e outras 57 em 2010, totalizando 160.

As Escolas de Referência logo se tornaram uma marca. Os resultados obtidos nas avaliações externas confirmam isso?
Em 2008 começa o Idepe. Naquela época, onze escolas de referência foram avaliadas e o nosso resultado médio era de 4,5. Se você pegar o Ideb de 2014, Goiás é quem tem a melhor média do Ensino Médio no País, com 3,8. Pernambuco está em 4º lugar, com 3,6. E nas Erem a gente tem uma média de 4,71. É um diferencial. Quando a gente tiver essa rede toda, a gente vai ter um Ideb ainda mais alto. Foi por isso que, quando chegou 2010 e o ex-governador se candidatou novamente, ele fez uma pesquisa de satisfação nas Erem de todo o Estado e a nossa aprovação foi de 76%. Ele fez como promessa chegar em 2014 com 300 escolas, com pelo menos uma em cada município. Atualmente, Pernambuco é o estado que mais tem escolas em tempo integral e estudantes beneficiados. Estamos chegando a mais de 45% dos nossos alunos do Ensino Médio em tempo integral.

O que esse modelo de escola traz de novo? Para muita gente, é só mais tempo para o aluno dentro da escola.
A Erem não chegou só com mais tempo. Ela tem mais tempo, sim, e uma filosofia inovadora, com mudança no conteúdo, no método de como trabalhar e na gestão dessas escolas. Os gestores passam por uma seleção, que também é muito importante. Todos eles são selecionados com currículo, prova e entrevista. Acho que a gratificação para os professores também é um diferencial. O professor passa oito horas na escola por dia, o que cria uma convivência muito rica com o aluno. Ele só trabalha em sala de aula 28 horas por semana. Aumentou a hora de estudo dele, preparação de aula, necessidade de atendimento dos estudantes.

Ainda existem famílias, principalmente nas áreas rurais e entre as famílias com menor poder aquisitivo, nas quais muitas vezes os adolescentes já trabalharam para colaborar com a renda da casa, onde existe uma resistência em relação à educação integral.
A gente vive num país ainda muito pobre, em que esses jovens precisam trabalhar ou pelo menos culturalmente eles trabalham. Mas eu defendo o contrário. Eu acho que esses jovens iam contribuir muito mais se eles estivessem na escola durante o dia todo. Se eles saírem com o Ensino Médio completo, eles vão ajudar muito mais a família lá na frente.

As escolas técnicas também passaram por um processo de transformação durante a última década. Quais as mudanças mais significativas?
Até 2009, a educação profissional se encontrava sob a responsabilidade da Secretaria de Ciência e Tecnologia e trabalhava só com os estudantes que haviam terminado o Ensino Médio, era algo subsequente. Em dezembro de 2009, o governador extingue a gerência geral que era ligada ao gabinete dele, cria a secretaria executiva de Educação Integral e traz de volta a competência da educação profissional à Educação. Ele cria sete novas escolas técnicas e começa a política pública de educação profissional do Estado, porque aí nós temos nessa escolas implantadas a educação integral. Hoje, temos um total de 35 escolas técnicas, que têm, durante o dia, o médio integrado, que é pra aquele estudante que terminou o ensino fundamental e vai para o ensino médio; temos o subsequente, à noite, que é aquilo que havia na Ciência e Tecnologia, para aquele aluno que já terminou o Ensino Médio ou que quer voltar para o mercado de trabalho – ele faz o curso em 18 meses –, e temos o concomitante, pois todas essas escolas são polos de Educação à Distância (EAD).

Como você avalia que o aumento na jornada do aluno e o contato com o modelo da educação integral influencia na preparação dos alunos?
Tem muitos que questionam que a escola integral dá mais do mesmo. O aluno do Erem tem mais aulas de Português e Matemática, sem dúvida, mas ele não está sendo formado apenas para fazer bem um Enem ou ter uma nota boa de Idepe ou Ideb. Ele é formado para a vida. A filosofia dessa escola é diferente. A gente trabalha com projeto de vida. É trabalhado com ele um projeto de vida em que ele pode ser um bom professor, um arquiteto, um médico, o que ele descobre ali naqueles três anos. E quando a gente vê como ele chega no primeiro ano e como ele sai, no terceiro, a gente enxerga o trabalho que foi feito. É um diferencial grande, vale à pena.

Houve uma certa resistência por parte de alguns estudiosos e até mesmo de professores quando a educação integral foi disseminada no Estado. E a gente sabe que geralmente os alunos chegam do Ensino Fundamental, onde não existe a educação integral, com um nível inferior. Como vocês lidam com isso?
Quando a gente começou aqui, lembro de umas reuniões com estudiosos que me diziam que nós não íamos melhorar o Ensino Médio, porque só tínhamos três anos. Eu dizia: “mas doutor, você está dizendo isso, mas acha que estamos lidando com gente da nossa idade”. E não é. Eles são muitos jovens. Nós temos mais trabalho. Seria muito bom se eles já chegassem com o nível de conhecimento elevado, mas nós estamos fazendo com que eles consigam.

Você tem a dimensão das transformações que a educação integral irá proporcionar ao estado no futuro, quando esses alunos que estão entrando em uma universidade estiverem formados e voltarem para as suas cidades com mais conhecimento?
Você chegou num ponto chave. Eu sou funcionário do Estado, da casa, da Educação, é por isso que eu brigo tanto. O povo diz que eu só falo em integral, mas desde 2008 que eu só trabalho com isso e acredito que vai ser uma grande transformação. A gente vai começar a ver que nossos alunos serão os nossos professores. Porque do jeito que estão entrando em Medicina, Engenharia... Eu tenho acompanhado. Eu sou de Timbaúba e temos vários que passaram em Medicina e Odontologia, com 17, 18 anos. Recife eu nem falo, porque aqui existem outras oportunidades. Eu listo escolas no estado todo, em Petrolina, Dormentes, é de você sair encantado com os meninos. Isso só vai ter um rebatimento lá no futuro, quando esses meninos estiverem assumindo nossos postos. Porque eles foram formados muito melhor do que a gente. Eu fui aluno de escola pública e eu sei como era.

E o que vem pela frente na educação integral. O que o Estado está preparando como próximo passo?
Quando o Governo cria o programa de Educação Integrada, que começa com 15 municípios com educação integral no Ensino Fundamental, ele responde à grande crítica que a gente escutava, que não ia dar certo porque tinha que começar no Fundamental. E a gente deu resultado! O Educação Integrada começa com 15 municípios, mas outros já estão vendo a proposta e já estão fazendo também no seu município para ter uma primeira escola integral de fundamental. Acho que ninguém segura mais nosso estado. O modelo está consolidado como política pública. Já criamos a cultura. E quando eles vierem a ser os professores, ninguém segura mais, não. Eles aprenderam assim.

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