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Encontro de líderes de Israel e da Arábia Saudita marca nova etapa no Oriente Médio

Único legado real de Trump, negociação entre rivais do Irã deixa palestinos para segundo plano

O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e o príncipe saudita Mohammed bin SalmanO primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e o príncipe saudita Mohammed bin Salman - Foto: Maya Alleruzzo e Bandar al-Jaloud/AFP

Os líderes de Israel e da Arábia Saudita realizaram uma reunião secreta no domingo (22) à noite, o primeiro encontro do tipo entre os países rivais, segundo a mídia israelense.

Apesar da natureza sigilosa, dado que ambas as nações não têm relações diplomáticas, o encontro entre o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman foi desenhado para ser visto por todos na região –em especial o inimigo que os une, o Irã.

Bibi, como o premiê é conhecido, voou para Neom, a cidade futurista que MbS, como o governante de fato do reino saudita é apelidado, está construindo na costa do mar Vermelho. O itinerário foi facilmente reportado em sites de acompanhamento de voos.

Ele decolou às 19h30 (14h30 em Brasília), e seu avião desapareceu do radar perto do território saudita, reaparecendo em Tel Aviv por volta da meia-noite. Ao mesmo tempo, pousava em Neom o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, que por lá ficou das 20h30 às 23h30.

MbS havia acabado de ser o anfitrião virtual do encontro do G20, grupo de economias mais desenvolvidas. O encontro foi vazado por diversos órgãos de mídia estatais israelenses, inclusive a Rádio do Exército, e previsivelmente negado pelo Ministério das Relações Exteriores saudita nesta segunda (23).

Tal publicidade não é gratuita. Durante anos, autoridades de ambos os países mantêm encontros discretos, geralmente em território neutro. Uma reunião Bibi-MbS, se ocorreu como tudo indica, altera o patamar da relação, abrindo o caminho para que ambos os países estabeleçam laços.

A presença de Pompeo também não é trivial. Estrela radical de um governo derrotado nas urnas, ele está numa frenética atividade de fim de mandato. E sabe que o Oriente Médio é o lugar em que Donald Trump deixará seu principal legado.

Nem todo mundo está feliz com ele, claro, a começar pelos palestinos. O grupo, que já não negocia a paz com seus vizinhos israelenses há alguns anos, foi colocado de lado naquilo que Trump disse ser o plano definitivo para estabilizar a região.

Na prática, Washington cedeu aos desígnios de Tel Aviv, permitindo um maior controle territorial por parte do Estado judeu de áreas árabes e efetivamente esterilizando o arremedo de governo comandado na Cisjordânia pela Autoridade Nacional Palestina e, em Gaza, pelo grupo extremista Hamas.

Em troca, foi estabelecido um diálogo inédito no mundo árabe, e dois países do golfo Pérsico aliados de Riad, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, entraram em acordo com Israel.

Logo depois, o Sudão assinou um tratado de normalização com Tel Aviv –com grande simbolismo, dado que o país havia lutado contra os judeus nas guerras árabe-israelenses, ao contrário das nações do golfo.

A decorrência lógica seria a aproximação com a Arábia Saudita, monarquia absolutista que é o centro do ramo majoritário do muçulmanismo, o sunismo. Ambos os países percebem o Irã, nação líder do grupo minoritário da religião, o xiismo, como adversário existencial.

Recentemente, o governo saudita inclusive especulou publicamente a possibilidade de adquirir armas nucleares, algo que Israel possui, caso o regime dos aiatolás em Teerã vá em frente e desenvolva a bomba. Trump fez da pressão sobre os iranianos uma política oficial.

Para Bibi, uma perspectiva de paz com Riad vem em boa hora: ele enfrenta novas acusações de corrupção na compra de submarinos alemães e tem o maior rival, Benny Gantz, instalado como ministro da Defesa no governo de coalizão, de olho em sua cadeira.

Já MbS busca uma reabilitação no Ocidente, embora tenha de ser cauteloso devido ao humor das ruas acerca do tratamento dispensado aos palestinos. O jovem príncipe de 35 anos, visto inicialmente como dinâmico e modernizador, teve sua reputação arrasada com a violenta guerra que patrocina contra rebeldes pró-Irã no Iêmen e com o assassinato a sangue frio de um jornalista saudita na Turquia.

Ele também enfrenta oposição interna na família real, resolvida à moda saudita por ora, com prisões e expurgos. Por fim, há o desafio da queda do preço do petróleo, vital para o país, devido à pandemia.

Mas é o Irã que liga, ao fundo, os dois. Há poucas dúvidas de que o governo de Joe Biden continuará a estimular tal aproximação, e para o democrata seria um belo gol de começo de mandato se tivesse Bibi e MbS nos jardins da Casa Branca.

Há alguns óbices, a começar pela forma como tratar Teerã. Trump radicalizou a relação, que havia sido azeitada com o acordo nuclear promovido pelo antecessor, Barack Obama, de quem Biden foi vice. É de se especular que ele poderá buscar reduzir a tensão atual.

E o seu partido tem tradição, que remonta à primeira paz entre Israel e um país árabe, o Egito em 1979, de buscar representatividade para os palestinos. Afinal, foi o democrata Bill Clinton que entrou para a história em 1993 com o estabelecimento das áreas autônomas palestinas e o reconhecimento mútuo.

Só que esse processo de paz, originado nas negociações de Oslo nos anos 1990, está morto. Se Biden tentar revivê-lo, terá de lidar com o fato de que o mundo árabe, a começar por sua potência líder, rifou os palestinos no caminho.

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