Opinião

Entre Bangu e Capitólio: disfarce e soberba são meras armas

Delírios populistas e autoritários são condutas conhecidas na história da política brasileira. No entanto, o que se tem percebido no atual contexto republicano é um abuso frequente de disfarces e soberbas. Servem como armas para simples reforço de falsos conceitos de liberdade e democracia, que só fazem sentido no nicho ideológico.

Na realidade nua e crua, tudo isso ocorre mesmo, seja em gestos e/ou ações, como cenas flagrantes de populismo autoritário. Afinal, o que tem prevalecido são os ataques aos alicerces de instituições, justo aquelas que dão credibilidade e sustentação ao estado democrático de direito.

Recorro aqui a duas demonstrações de desfavorecimento do regime democrático, para simples compreensão dessa tradição histórica de exercício populista e autoritário. Em ambos, disfarce e soberba se abraçam de modo dialético. No "fake marketing" de se colocar perante a sociedade como paladinos da democracia e liberdade, tais "justiceiros" desfazem essas teses, porque são, nas suas essências, autoritários em quaisquer atitudes e cerceadores em quaisquer direitos individuais. O tratamento reservado aos adversários, em nome de vários argumentos de pseuda supremacia ideológica, corrobora muito bem a tese contrária à prática. 

Independente de quem seja o adversário politico, tratá-lo como Bangu (o clube, embora possa ter aí uma sutil mensagem que lembre o presídio), além da associação entre o disfarce e a soberba, representa também puro preconceito. Esse gesto caractaristicamente supremacista, tem o disfarce do popular ao usar a retórica do futebol, mas carrega consigo uma empáfia natural do populismo autoritário, no sentido de dizer que, no jogo (aqui, o eleitoral) "eu sou Flamengo até morrer". Só que essa aparente demonstração do "ser superior", de embutir também um certo grau de preconceito, é um ensaio de ignorância. Afinal, o enredo atual desconhece que o Bangu teve seus momentos de glória. Que o digam o "maracanaço" da  histórica conquista de 1966. Mesmo que tenha cabido a Almir "Pernambuquinho", um legítimo "paraíba" (aqui citado como reforço do preconceito estrutural que alguns se referem aos nordestinos em terras fluminenses), a defesa veemente e agressiva pela conquista não alcançada.

Este recurso de eufemismo registrado no episódio do Bangu representa um, entre outros tantos exemplos. No fundo, todos reforçam aquela disposição supremacista de querer prevalecer um corpo de ideias extremas, doa onde possa doer. Ou seja, com armas de retórica, ou até  mesmo de fogo, o estímulo agressivo está posto. Muito além do equilíbrio necessário, da engenharia política que se constrói em torno do contraditório e do marco civilizatório que cabe numa sociedade harmoniosa.

A negativa que se dá a tudo isso, resulta num contexto que caracteriza os comportamentos tipicos do fanatismo, um perigoso desvio de conduta pessoal e social. Dai, pode estar o desejo de se reproduzir aqui no Brasil, o que se viu no dia 06 de janeiro de 2021, lá nos EUA. As péssimas lições democráticas de Trump, não obstante a idolatria que alguns desses fanáticos nutrem por ele e seus maus exemplos, estão subliminarmente nos corações dos acólitos brasileiros. A simbologia do Capitólio, infelizmente, parece-me factivel aqui, na porção maior do lado de baixo do Equador. Onde o pecado existe e não tem o menor juízo. 

Como bem reportaram em livro Levitsky & Ziblatt, as democracias de hoje, por mais sólidas que estejam, estão sujeitas à morte. Prefiro amenizar o quadro e dele extrair uma percepção menos drástica, à moda do cientista político Diamond: "o mundo vive tempos de recessão democrática". Por aqui, Bangu e Capitólio são "insights" que dão lucidez aos arroubos de uma autocracia em construção. Contra isso, fortaleçam-se as instituições que dão lucidez aos instintos democráticos. Ainda há tempo.



*Economista e colunista da Folha de Pernambuco


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