Opinião

Entre doces e travessuras cabem os sonhos do Saci e do Curupira

Quem disse que numa simples jornada de vovô não há momentos para alguma pitada de reflexão? Com isso em mente, posso até parecer mais piegas com a realidade do mundo, quando deveria estar pleno na fantasia, envolvido pelo prazer de acompanhar os netos nas brincadeiras. Contudo, por mais que Lilice, a primeira dos netos, ache-me um "cara legalzão", confesso que travo, justo para entender as motivações de certas brincadeiras. Aí, submetido ao autoquestionamento, claro que escolho seguir com minha autorrealização de avô comprometido. De qualquer modo, cabe-me expor uma das últimas travadas.

O caso precisa ser contado como exatamente ele foi. Simplesmente, na origem: o halloween. Ou seja, no imaginário de ser uma festa comemorativa pelo dia das bruxas, quando crianças se vestem travessamente como monstros e saem para pedir doces, há uma realidade que se sobrepõe à fantasia. Eis o ponto da minha reflexão: uma manifestação que, em nada conversa com a nossa diversidade cultural. Na complexidade desse contexto, estaria a resposta para uma pergunta instigante de Lilice: "por que tem o halloween, vovô?

Após contar para ela, que quando tinha os mesmos 5 anos, pouco ou nada se sabia a respeito, citei uma história paralela, fruto daquele momento de travada, para efeito de reflexão. Falei para Lilice, que uma pessoa que ajudou em casa com a minha criação, adorava contar histórias. E, num certo dia, ouvi algo que parecia ser um halloween com a cara do Brasil. Uma espécie de crônica infantil, com pegada assustadora. Embora nessa "historinha" houvesse um desejo de criança, o de se fazer presente naquela fantasia. E, claro, poder contar com muitos doces.

O que disse "Dona Maria", minha cuidadora de infância, foi que, na sua juventude, viu lá pelas "bandas de Timbaúba", uma criatura do mato. Era um tal de "Seu Matita", um homem de uma perna só, que brincava de assustar crianças. Às vezes era ele um indígena, tal e qual um certo Curupira do imaginário popular, que corria pra cima da criançada, de arco e flecha nas mãos.

Embora fosse do mato, algo encantador existia naque ser dúbio e misterioso, pois a criança que entendesse a brincadeira de "pega-pega", ele levava até a primeira "vendinha" de alguma esquina. Justo para "comprar tais confeitos", os docinhos mais acessiveis daquele lugar. Neste momento, passado o susto da imaginação de como seria "Seu Matita" (também com cara e jeito de Curupira) vê-lo chegar lá por perto de casa, no velho Pina dos anos 60, virou para mim uma real expectativa. O bom mesmo era saber que não vingaria qualquer resistência para encarar aquele ser exótico, pois essa opção me servia também para encurtar o caminho até à "venda de Seu Amaro". Afinal, ficava apenas a uma esquina, do ladinho da minha casa. Portanto, por que temer aquela criatura estranha, se existia uma chance de ter os confeitos ao alcance das minhas mãos?. Assim, a história se repetia. Somente não conseguia tê-la palpável ou presente. Estava, desse modo, cada vez mais longe dos confeitos sugeridos.

Bem, diante dessa aventura singela e prosaica, do tempo de infância, percebi com o passar do tempo, que essa simples história poderia ir mais além, na forma de resposta para Lilice. A travada que me impôs tamanha reflexão, estava no substituir os "heróis da brincadeira" importada de outra cultura, por uma manifestação bem mais brasileira.

Evidente que não me ponho aqui como um renitente adversário da essência que possui a brincadeira e o festejo associados ao halloween. Apenas me adiciono àqueles defensores da nossa cultura popular, justo por defenderem outros valores de heróis, em situações como essa. Seu Matita é nada mais que o Matitaperê, também conhecido com o inconfundível nome de Saci Pererê. Justo um personagem que revela a força interracial brasileira. Afinal, nele se misturam o indígena protetor da mata, a lenda iorubá do misticismo afro e o branco português, aqui sutilmente expresso pelo gorrinho vermelho do Trasgo, um ser lendário originário do norte de Portugal. Agregou-se à "lenda criada por Dona Maria", o guerreiro Curupira, a referência protetora da nossa floresta.

Claro que não entrei em todos esses detalhes, na resposta para Lilice, pois seus 5 anos ainda são prematuros para tamanho entendimento. Simulei apenas uma resposta genérica, de que é bacana se vestir de bruxa e brincar de saber se as pessoas querem travessuras ou doces. Penso que chegará o tempo para lhe dizer que "essa gente grande" também precisa ser travesso, para dizer que há um jeito brasileiro de comemorar e brincar seu halloween. E que doce mesmo seria ver o Saci e/ou o Curupira com o protagonismo dessa outra história. 

Para mim, o danado agora é encontrar um nome à brasileira, para substituir, quando for o caso, essa importação cultural impregnada como halloween. Lilice e, pelo avançar do tempo, Laleca e Tetteo, hão de esperar. Pois é,  cabe refletir sobre o nome desse novo festejo nacional.

Humildemente, dedico este texto para Leda Alves e Leonardo Dantas. Dois ícones, defensores dos nossos valores e da cultura popular, que partiram para sustentar essas mesmas bandeiras, agora com olhares postos pelas lentes celestiais.



*Economista e colunista da Folha de Pernambuco


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