Entrevista: Juntas, porque assim é melhor!

Carol Vergolino, Jô Cavalcanti, Joelma Carla, Kátia Cunha e Rebeyoncé Lima, do Psol, farão um mandato sobre o qual existe grande expectativa e disposição para contribuir

Juntas convocam para mais uma plenária temáticaJuntas convocam para mais uma plenária temática - Foto: Reprodução Instagram

Em Pernambuco elas inovaram neste formato de candidatura que, apesar de não estar reconhecido legalmente, conta com uma proposta de emenda à constituição, a PEC 379/2017, com este objetivo. Mas, isto é apenas uma formalidade que não impede que as candidaturas se apresentem e sejam vitoriosas, o que foi o caso. Uma proposta que encantou e construiu grande adesão pela determinação democrática anunciada desde a sua origem e na forma proposta de atuação coletiva. Carol Vergolino, Jô Cavalcanti, Joelma Carla, Kátia Cunha e Rebeyoncé Lima, do Psol, farão um mandato sobre o qual existe grande expectativa e disposição para contribuir. Diante do cenário atual, experiências como estas nos chamam para a importância da construção cotidiana da democracia.

Esta coluna agradece a disponibilidade de diálogo, sabendo que este é momento em que todas as energias e militâncias estão voltadas para garantir o resultado das eleições neste domingo. Elas nos falam, abaixo, sobre os desafios que as aguardam na Assembleia Legislativa de Pernambuco.  Leia, comente, compartilhe!

CARLA BATISTA: Como estão avaliando os resultado das últimos eleições para o parlamento estadual e federal, com o qual deverão dialogar? Como estão vendo o aumento da bancada feminina na Câmara Federal?

JUNTAS: Mesmo com o aumento da bancada fundamentalista nas duas instituições, nos animamos principalmente com a bancada do nosso partido no cenário federal. Quase dobramos o número de parlamentares. Na última avaliação do congresso tivemos 06 dos 10 melhores deputados e deputadas, no entanto nossa bancada só possuía 06 vagas, ou seja,100% de aprovação. Agora temos a certeza de que as 10 vagas serão do Psol. De maneira geral, a representação feminina na política saltou dos estagnados 10% para 15%. É uma grande vitória da luta das mulheres.

Leia também: 
Cinco mulheres lançam candidatura coletiva a deputada estadual em Pernambuco


CB: Quais foram as principais dificuldades encontradas, como candidatas, no último período eleitoral? E, o que foi facilitador desta candidatura que traz em si, de forma explícita, um compromisso democrático?

JUNTAS: Tudo o que é novo se apresenta como desafio maior. Tivemos vários, desde conseguir comunicar o que era (é) o nosso projeto coletivo de legislatura, passando por fazer uma campanha com pouco dinheiro para produção de material e seguir pelo estado, além de organizar uma campanha que era diferente em tudo. Todo dia era de aprendizado, de querer fazer diferente. De outro lado, fizemos uma campanha com militância real, pessoas que acreditaram nesse projeto desde o início, tanto da militância que apoiou em diversas ações, além de profissionais que contribuíram gratuitamente com seus talentos e competências para a causa desse projeto democrático. Foi muito bonito. Apesar de todas as dificuldades tínhamos a sensação de não estarmos sozinhas. As pessoas passaram a se reencantar com a política por meio desse projeto e isso é muito inspirador.

CB: Quais são os principais desafios que vislumbram, visto que a candidatura de vocês estava posicionada politicamente com várias questões que são debates contundentes no Brasil atual?

JUNTAS:
Nós temos muitos desafios e eles começaram no dia seguinte à eleição. O primeiro deles é lutar para que haja democracia neste país. O projeto das juntas é um projeto que somente se viabiliza na democracia. Tudo o que o candidato da violência prega é nosso extermínio, enquanto mulheres, trans, lésbicas, ativistas, não normativas. Nosso projeto, nossos corpos, nossas causas são tudo o que essa onda de violência quer silenciar. Além disso temos desafios de pautas, de legitimação do mandato junto à Alepe e em diversas outras instâncias. Essa é uma previsão inicial mas sabemos que diversas dificuldades surgirão cotidianamente. Estamos prontas para enfrentá-las da melhor maneira possível, respeitando nossa lógica feminista, horizontal e popular. Nascemos Juntas assim e essa será nossa forma de fazer política.

CB: Quais são as principais tarefas que se apresentam para as mulheres neste final de campanha para eleição do próximo presidente da república? Quais são os cenários que apresentam para a vitória de um ou outro lado?

JUNTAS: Respondemos um pouco isso na questão anterior. O desafio é para todas as pessoas. Ele é ainda maior para as mulheres, pois somos público alvo de uma violência cotidiana que tende a aumentar ostensivamente se as ameaças nada veladas que vêm sendo ditas se confirmarem, caso ele vença. As mulheres protagonizaram a maior manifestação destas eleições e foi justamente contra o candidato da violência. As mulheres perceberam desde cedo (por suas experiências próprias e diversas de opressão) que especificamente aquele candidato representava um retrocesso ainda maior no que se refere às causas sociais, especialmente a das mulheres, pessoas LGBT, negras e negros, indígenas, etc. Nós acreditamos na virada, na marcha da sensatez nestes últimos dias. Mas se houver uma vitória do outro lado, para responder especificamente a sua pergunta, o cenário será de resistência. Lutaremos dia e noite para a retomada da democracia.

Esta colunista deseja que as eleições ocorram tranquilamente e que tenhamos o que comemorar neste domingo, 28.

*Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

** A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas

Veja também

João Campos autoriza contratação de até 745 profissionais de saúde para vacinação contra Covid-19
Recife

João Campos autoriza contratação de até 745 profissionais de saúde para vacinação contra Covid-19

Professor avalia que tema de redação do Enem é atual, mas alerta estudantes para "casca de banana"
Enem 2020

Professor avalia que tema de redação do Enem é atual, mas alerta estudantes para "casca de banana"