[Entrevista] Silvero Pereira: uma estrela com a cara e a coragem da diversidade

O ator cearense brilhou este ano no cinema, na pele de Lunga, o famoso cangaceiro queer do filme 'Bacurau', e tem planos planos de rodar o Brasil, em 2020, com espetáculo

Silvero Pereira, atorSilvero Pereira, ator - Foto: Jose Britto/Folha de Pernambuco

Durante a apresentação de "Bacurau" no Festival de Cannes, em maio, Silvero Pereira desfilou pelo tapete vermelho vestido de Gisele Almodóvar, seu alter ego feminino. Foi assim, também, em outras pré-estreias do filme, com os holofotes novamente voltados para o ator. Não foi diferente nas telas. Seu personagem no longa-metragem, o cangaceiro queer Lunga, fez sucesso entre os fãs e se tornou uma espécie de símbolo de resistência. O artista cearense abre a série de entrevistas 'Gente que fez 2019', com nomes que se destacaram no ramo da cultura ao longo de 2019. À Folha de Pernambuco, ele falou sobre o trabalho, o reconhecimento do público e os novos projetos.

Você já era conhecido pelo grande público desde a novela “A força do querer”. No entanto, com “Bacurau”, parece ter se aproximado dos espectadores de outra maneira. O que mudou a partir de Lunga?

A televisão me colocou num lugar afetivo. As novelas fazem isso: você entra nas casas das pessoas e passa a fazer parte das vidas delas e, nesse aspecto, a Elis Miranda/Nonato sempre foi abordada com carinho. Já com "Bacurau" existe um lugar de admiração. As pessoas me abordam como se estivessem dando de cara com um herói nacional. Sou parabenizado o tempo todo pelo filme.

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Sem dúvida, Lunga é uma das personagens mais amadas de “Bacurau”. Como você explica essa popularidade entre os espectadores?

Lunga é esse anti-herói que hoje tanto buscamos na nossa sociedade. Existe identificação com sua força e capacidade de enfrentar. Não acho que as pessoas querem ser violentas como Lunga, mas elas compreendem a situação da personagem e torcem por ela.

Nas redes sociais, os fãs já pediram “Bacurau 2” ou até mesmo um spin-off focado em Lunga. Isso pode acontecer? Toparia viver Lunga outras vezes?

Seria uma honra viver Lunga novamente. Acredito numa série de camadas e passado da personagem que seria interessante revisitar. Entretanto, não é da trajetória de Kleber e Juliano produzir continuações. Mas se eles quiserem, contém comigo, com Lunga novamente.

No Festival de Cannes, você surgiu vestida como Gisele Almodóvar. O mesmo aconteceu em outros eventos, como no prêmio Homem do Ano. O que te faz abraçar essa mulher em ocasiões como essas?

Essa figura feminina sempre existiu em mim, mas por medo e preconceito sempre tive vergonha de expor. Hoje, me sinto feliz, livre e com coragem de mostrá-la. Ela nasceu durante a pesquisa para a montagem do meu solo teatral “Uma flor de dama”, em 2002. Surgiu, primeiramente, como uma personagem e hoje é parte de quem sou.

Silvero Pereira em Cannes

Silvero Pereira em Cannes - Crédito: Reprodução/Instagram



Sua presença em “A força do querer” repercutiu bastante na época. Olhando paras as produções televisivas de hoje, você sente que o espaço para as pessoas LGBT’s aumentou?

Aumentou consideravelmente. A TV, sendo bem trabalhada, é um excelente espaço para unir entretenimento, educação e questão político-social. Esse tema é uma demanda social. A sociedade exige falar sobre essas questões e nenhum meio de comunicação, hoje, irá conseguir fugir dessa pauta.

Em 2019, o audiovisual brasileiro vive uma fase muito difícil em relação ao incentivo governamental. Como é para você, sendo artista LGBT, trabalhar nesse cenário?

Por ser artista já é uma dificuldade, principalmente, se você está dentro de questões sociais e de minorias. A cultura é parte do desenvolvimento humano, se ela é destruída, censurada, estaremos entrando num processo de aniquilação do conhecimento e do respeito.

Quais serão os seus trabalhos para 2020?

Em 2020 , tem circulação de meu espetáculo “BR-TRANS” pelo Brasil, a quarta edição do Bloco das Travestidas em Fortaleza, estarei produzindo um solo teatral com estreia para o segundo semestre, além do filme de produção maranhense “De repente drag”, com direção de Rafaela Gonçalves, e de três projetos para o streaming.

Como toda a repercussão de “Bacurau”, ainda consegue dar atenção às atividades do seu coletivo teatral, As Travestidas?

As Travestidas sempre será meu lugar de acolhimento. Esse é meu projeto de vida. Lá estão meus e minhas amigas, meu teatro, meu lugar seguro como profissional. Tenho trabalhado bastante nos últimos anos, mas continuo conectado ao coletivo e colaborando de perto ou de longe.

Lunga, interpretado por Silvero Pereira, no filme 'Bacurau'

Lunga, interpretado por Silvero Pereira, no filme 'Bacurau' - Crédito: Divulgação


 

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