Esgoto e lixo mancham cartões-postais do litoral pernambucano

Praias nos litorais Norte e Sul do Estado têm esgoto escorrendo em direção ao mar, além de lixo e entulho amontoados

Na Enseada dos Corais, sujeira desagua na praia com banhistasNa Enseada dos Corais, sujeira desagua na praia com banhistas - Foto: Rafael Furtado

Esgoto e lixo vêm pondo em risco quem quer curtir praias fora dos centros urbanos sem se afastar tanto do Recife. Recém-ingressa na Região Metropolitana, Ponta de Pedras, em Goiana, ao norte, tem ruas com entulhos e água suja vazando de canaletas a menos de 100 metros da orla. Em Enseada dos Corais, no Cabo de Santo Agostinho, o mato que toma conta de um canal e sedimentos escuros incrustados na areia chegam bem perto dos banhistas. Em Gaibu, no mesmo município do Litoral Sul, a população diz que ligações clandestinas conduzem dejetos para um duto que só deveria receber água da chuva. Tudo deságua no mar. O descaso mancha cartões-postais que deveriam ser lembrados só pelas belezas.

No distrito de Ponta de Pedras, o problema começa assim que a PE-49 termina e dá acesso à rua da Praia. Poças de lama se acumulam sobre o asfalto. Os moradores dizem que, por conta das chuvas dos últimos dias, a rede local não deu conta. "No Carnaval, foi o povo pulando no meio das fezes que saíam. Sempre que chove, estoura tudo", conta a dona de casa Mariane Pereira, 27 anos, que vive no local desde que nasceu.

Longe do centro, a situação assume contornos dramáticos. Um canal passa sob a via costeira e desemboca na praia. A água rala sem contraste com a areia branca engana os desavisados. Atrás dos bares da região, ela é escura e malcheirosa. "A população não ajuda. Joga o que não presta aí dentro e cai na praia. Mas nunca vi ninguém se queixando quando toma banho aí. Acho que é sorte", relata a dona de casa Maria Betânia Silva, 44.

Na chamada rua do Canal, dezenas de casas têm canos conduzidos até o duto maior. "Era só água de banho que caía. Mas está sem tratamento. Desativaram uma estação de tratamento que a prefeitura tinha. Agora, cai tudo no mar. Quem quer tomar banho de praia tem que tomar lá em cima. Onde o canal sai, não é bom. Quem toma fica se coçando", diz o eletricista Cleisson de Santana, 49, dono de um imóvel a três quadras da areia.

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A antiga estação de tratamento fica no interior do distrito. Sem muros ou cercas, parece um terreno baldio. Tanques e suspiros mal podem ser vistos por conta dos entulhos. Mas dá para ver que há água parada, suja e repleta de larvas em plena rua residencial. "É uma pena que a situação esteja assim. Entra governo, sai governo, e essa sujeira toda vai para lá e ninguém faz nada", desabafa um pescador, pedindo para não ser identificado.



Praias ao sul
No Cabo de Santo Agostinho, canais para águas pluviais que tiveram o uso adulterado ao longo do tempo também causam transtornos. Um deles deságua ao lado da formação rochosa que divide as praias de Calhetas e Gaibu, um dos pontos mais badalados do Litoral Sul. Diferentemente de Ponta de Pedras, o canal tem as margens revestidas e sem mato. A revitalização e a expansão foram feitas em 2012 como parte de um projeto de macrodrenagem na região. Apesar de menos escura, a água que corre por ele cheira mal e também recebe dejetos provenientes de canos que saem de pousadas e restaurantes, de acordo com moradores. Quando chove, garrafas PET e outros entulhos são arrastados até a praia.

"Aqui são necessárias ações integradas de fiscalização, conscientização e ação dos órgãos públicos e de parceiros financeiros", resume Carlos Araújo, 50, ambientalista e comerciante na praia. Ele acrescenta que um problema que contribui para a poluição é a presença desordenada de animais domésticos. "Quando vou começar meu trabalho, saio recolhendo cocô de cachorro da areia, senão o pessoal senta em cima", diz.

Em Enseada dos Corais, o comerciante Josenildo Maciel, 50, também confirma que a presença de animais e a sujeira dos canais contribuem para o cenário de degradação. "É bonito, atrai gente, trabalho aqui, mas, infelizmente, tem muita desordem", relata. Moradora do Interior do Estado, mas frequentadora assídua das praias do Cabo, a vendedora Elisabeth de Souza Mendes, 31, diz que tem medo de tomar banho de mar perto de onde outro canal deságua. "Quando a praia enche, se mistura com o canal. Quem não conhece fica tomando banho dentro do esgoto e não sabe", afirma.

Ligações clandestinas
Quatro trechos dessas praias estão na lista dos 50 pontos do Litoral de Pernambuco avaliados pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) a cada semana em relatórios de balneabilidade. Os dados científicos mostram que nenhum lugar está condenado a ser sempre impróprio ao banho, ainda que a sujeira oriunda de canais seja despejada todo dia em áreas localizadas. Gaibu, por exemplo, tem um ponto de coleta na avenida Laura Cavalcante. Entre o dia 9 e a última quinta-feira, data de validade do boletim mais recente, a praia estava imprópria. Já a análise em Enseada dos Corais, em frente ao Canal do Boto, apontou que lá os banhistas estavam liberados para entrar no mar. Em semanas anteriores, o resultado deu negativo. Nos dois locais de pesquisa em Ponta de Pedras - em frente ao número 776 e aos chuveiros públicos -, não houve amostras coletadas.

A pesquisa é feita quando a água atinge um metro de profundidade, ponto mais utilizado para recreação. Para dizer quais praias estão próprias ou não para o banho, a agência se baseia na Resolução 274/2000, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). São checadas concentrações de coliformes fecais em amostras de cinco semanas consecutivas ou em cinco amostragens com intervalo de 24 horas. A água do mar não oferece riscos se 80% das amostras apresentar até mil coliformes por 100 mililitros. Se esse índice superar 2,5 mil/100ml, a água é considerada imprópria.

O diretor de Controle de Fontes Poluidoras da CPRH, Ellder Nogueira, diz que quem entra em trechos de praias que não são recomendados com base nas pesquisas de balneabilidade está se arriscando. "O parâmetro principal dessa norma do Conama é a concentração de coliformes fecais ou totais. A pessoa pode ter diarreia se engolir essa água, ou problemas de pele por conta do contato", afirma, explicando as razões de trechos de praias onde canais deságuam não serem, às vezes, incluídos na lista de impróprios. "Essas amostras são coletadas periodicamente, e o mar tem um poder de diluição muito forte. O que vemos é se a própria natureza está conseguindo dar conta dessas situações [poluição]", completa Nogueira.

O gestor ainda explica que casos como os de Ponta de Pedras, Enseada dos Corais e Gaibu refletem uma questão antiga e nacional. "Se a gente for olhar só na Região Metropolitana, todos os municípios têm drenagens pluviais para as praias. A questão é que existem ligações clandestinas de esgoto sanitário no meio desse caminho. Pessoas fazem isso por má-fé ou por acreditarem que aqueles canais são de tratamento. Não é algo que se resolve da noite para o dia. Vejo as ações para melhorar o saneamento, como as que estão sendo feitas no Grande Recife, como saída", analisa.

Em nota, a Prefeitura do Cabo informou que "os dutos de coleta de águas pluviais têm objetivo de drenar a água da chuva e desaguar no mar, porém a população faz ligações de esgoto da própria residência e coloca no local errado". A gestão disse que, por ora, não existe projeto para modificar as instalações dos dutos, mas destacou que faz campanhas de educação ambiental no litoral da cidade. Já a assessoria de imprensa da Prefeitura de Goiana não foi localizada pela reportagem. A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), por fim, esclareceu que os dois municípios fazem parte do programa Cidade Saneada e que as próximas ações para melhoria do saneamento no Grande Recife estão sendo redimensionadas.

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