Especialistas indicam que não há grupo invulnerável ao novo coronavírus

Com o aumento gradual de mortes provocadas pela Covid-19 no Estado, o perfil das vítimas fica cada vez mais difuso

Pessoas de todas as idades são vulneráveis ao Sars-Cov-2Pessoas de todas as idades são vulneráveis ao Sars-Cov-2 - Foto: Folha de Pernambuco

Estatisticamente, vários estudos apontam que pessoas acima de 60 anos e com doenças preexistentes são as que mais morrem em decorrência do novo coronavírus em todo o mundo. Em Pernambuco, dos 352 óbitos por Covid-19 registrados até esta sexta-feira, 252 se encaixam neste perfil, o que representa 71,5% do total, segundo o boletim divulgado pela Secretaria Estadual de Saúde (SES). No entanto, cada vez mais são registrados casos de jovens, alguns até sem comorbidades, morrendo por complicações desta doença. Intrigando não apenas a população em geral, mas até mesmo cientistas, que buscam respostas para este fenômeno.

Recentemente, uma adolescente 17 anos morreu depois de ficar 20 dias internada na UTI de um hospital na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. A jovem não tinha doenças preexistentes e deu entrada no hospital com sua mãe, de 43 anos, também diagnosticada com Covid-19, mas sem gravidade. Também no Rio de Janeiro, um menino de 12 anos morreu nesta semana por complicações do coronavírus. Sem histórico de comorbidades associadas, ele deu entrada na unidade de saúde após sofrer uma queda e ficar com lesões na perna, mas o quadro evoluiu para uma infecção bacteriana e, em pouco tempo, houve uma piora e ele não resistiu.

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Casos como este fazem especialistas alertarem que ninguém deve se sentir invulnerável ao vírus. De acordo com o chefe do setor de Infectologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), Demetrius Montenegro, é preciso desconstruir a ideia de que jovens sadios não podem morrer por Covid-19. “O novo coronavírus tem vários padrões. Isso que assusta porque é tipo uma loteria, uma caixa de surpresas. É muito diferente da H1N1 que tem complicações mais previsíveis e é mais real quando a gente diz que idosos, crianças e gestantes estão mais sujeitos a agravamentos. Os casos fora dessa curva eram mais raros realmente, mas não é o que a gente vê agora na Covid-19. A gente vê com uma frequência maior as exceções”, comentou.

Montenegro ressalta que vem chamando atenção o fato de muitos casos de mortes de jovens estarem relacionados à obesidade. “Isso tem relação com o processo inflamatório que o Sars-Cov-2 pode causar. Está sendo observado não só aqui no Brasil, mas em outros países também. Acredita-se que a replicação do vírus no tecido gorduroso pode contribuir para o processo inflamatório causado por ele mesmo. E é justamente essa inflamação exacerbada que pode levar às complicações maiores e ao óbito”, falou o médico, que atua no hospital referência para casos de Covid-19 em Pernambuco.

O chefe da Triagem de Doenças Infecciosas do Hugo, o infectologista Filipe Prohaska, ratifica essa observação feita pelos médicos em torno dos jovens obesos e destaca que se trata de um fenômeno visto no Brasil e nos Estados Unidos, diferentemente do que ocorreu em países europeus. “Muita gente tem ideia de que um paciente desnutrido tem que estar magrinho, quando na verdade o obeso também é desnutrido. Ele tem uma oferta calórica muito alta com baixa carga de proteína. Então, a desnutrição seja para menos ou para mais é um fator de risco para a doença”, explicou o especialista.

Contato com o vírus
Em meio a corrida em busca por respostas, o novo ministro da Saúde do Brasil, Nelson Teich, afirmou nesta semana que 70% da população precisa entrar em contato com o novo coronavírus para que a comunidade adquira imunidade. Para ele, o isolamento social "é uma medida natural e lógica na largada, mas não pode não estar acompanhado de um programa de saída.

Por outro lado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que esse passaporte de imunidade é inviável e eleva risco de replicação do Sars-Cov-2. De acordo com a encarregada do setor de Emergências da seção europeia da OMS, Catherine Smallwood, disse que governantes devem "monitorar com muito cuidado" o risco de uma segunda onda de infecções quando medidas de isolamento começarem a ser relaxadas. Para Smallwood, apostar em uma estratégia como a dos certificados de imunidade eleva esse risco.

O infectologista Filipe Prohaska pondera que toda ação tem uma reação. “Eu concordo com ele que a população entrando em contato com o vírus terá uma imunização natural e vai ter um menor impacto no futuro. Isso funciona muito bem em países que têm uma estrutura hospitalar e capacidade de absorver o impacto de vários pacientes doentes nessa situação”, falou. O médico citou como exemplo a Alemanha. “Lá foram montados hospitais de campanha e uma mega estrutura para absorver o impacto populacional. Uma estrutura magnífica que fez não ter tanto óbitos e provocou esse tipo de discurso que o ministro está fazendo”, falou.

Contudo, para Prohaska, a teoria é correta, mas não se aplicaria à realidade do Brasil por falta de estrutura hospitalar no SUS, responsável pelo atendimento de maior parte da população. “Hospitais de campanha estão sendo montados no País. Para essa população, que não tem plano de saúde, essas estruturas vão ser suficientes para absorver esse tipo de impacto? Acredito que em uma situação de pico de epidemia o SUS possa se tornar insuficiente. A gente não sabe como vai ser a curva do Brasil, principalmente nas próximas semanas ou meses, que vai ter medidas de flexibilização e vai começar a ter pessoas circulando novamente”, acrescenta.

O chefe do setor de Infectologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), Demetrius Montenegro, também se mostrou cauteloso quanto à declaração do ministro da saúde. O infectologista usou a Capital pernambucana como exemplo. “A população do Recife hoje gira em torno de dois milhões. A literatura diz que 5% das pessoas vão ter o quadro grave da Covid-19 e vai precisar de ventilador de UTI. Ou seja, no caso do Recife seria cerca de 100 mil doentes graves, caso o isolamento social fosse encerrado. Qual é a cidade no mundo que vai ter 100 mil ventiladores? Vai morrer muita gente. Então como é que você vai expor, ao mesmo tempo, uma população inteira quando não terá sistema de saúde suficiente.”

Ampliação de leitos
Em pouco mais de um mês, a oferta de leitos de UTI em Pernambuco foi ampliado em 30%, segundo informou o secretário estadual de Saúde, André Longo, durante coletiva de imprensa nesta semana. Atualmente, todo o Estado conta com 673 leitos na rede pública criados exclusivamente para pacientes com suspeita ou confirmação da doença provocada pelo novo coronavírus, mas a ocupação já chega a 91%.

Segundo a Central Estadual de Regulação Hospitalar, em relação aos 327 leitos de UTI, a ocupação é de 98%. Já no que diz respeito aos 346 leitos de enfermaria, a ocupação é de 84%. A expectativa da SES é ter, no total, até o fim do mês de abril, 400 leitos de UTI abertos para assistência a estes pacientes em nosso Estado.

Contudo, para evitar o colapso na saúde e um grande número de pessoas doentes ao mesmo tempo especialistas, médicos e autoridades sanitárias defendem a permanência do isolamento social. “As pessoas precisam entender que infelizmente a Covid-19 é uma doença do 'eu só'. Porque ou você ficar isolado em casa bem de saúde ou fica isolado no hospital longe de sua família. E se você morrer você vai ser enterrado só. Então, é uma doença do isolamento. É triste ficar isolado em casa, mas é muito pior ficar sozinho no hospital sem ter justamente o apoio dos familiares e principalmente o medo da incerteza de como isso vai evoluir”, disse Demétrius Montenegro.

Nesta sexta-feira, Pernambuco apresentou os maiores aumentos diários nos números de casos confirmados e mortes pelo novo coronavírus. Segundo boletim divulgado pela SES, foram confirmadas mais 395 pessoas com Covid-19, totalizando 3.999 no Estado. Além disso, mais 40 óbitos foram acrescentados às estatísticas, totalizando 352 mortes pela doença.


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