Estilizadas, quadrilhas juninas buscam manter tradição

Entre o tradicional e a inovação, as quadrilhas juninas trazem temáticas importantes para a brincadeira e lutam para ter de volta seus espaços nos bairros da Região Metropolitana do Recife

Quadrilha JuninaQuadrilha Junina - Foto: Brenda Alcântara

Empoderamento feminino, desigualdade social, valorização da cultura popular. São apenas alguns dos temas sociais incorporados à tradição das quadrilhas juninas. A cada ano, os grupos surgem com propostas ousadas seja no enredo, no figurino e nas músicas apresentadas. Mas há quem prefira o tradicional, a quadrilha do chapéu de palha; do xadrez; das bandeirinhas e do bom arrasta-pé. Paralela a toda essa modernização dos grupos de quadrilhas, necessária principalmente para quem almeja os concursos, tem o fato da proximidade com as comunidades, algo que vem se perdendo ao longo dos anos.

Leia também: 
Do pé de serra ao pop: roteiro de festas neste fim de semana de São João

Quadrilheiros antigos trazem na memória as apresentações nos palhoções em diversos pontos dos bairros da Região Metropolitana do Recife (RMR). As ruas eram mais enfeitadas para a celebração do São João. “O Ibura sempre foi considerado o celeiro das quadrilhas, mas infelizmente com o tempo isso foi diminuindo, os arraiais também foram deixando de ser montados. Nós temos um polo cultural muito diversificado, mas há falta de incentivo financeiro, pois para manter um grupo de quadrilha, por exemplo, o custo é alto”, comenta o diretor do conselho fiscal da Liga Independente de Quadrilhas Juninas do Recife, Paulo Henrique de Oliveira. Há 40 anos, ele participa com dedicação dos festejos de São João e desde 2015 está na direção da quadrilha Arrocha o Nó.

“Estamos sempre conversando com as pessoas da nossa comunidade, com outros grupos culturais. Como os polos não são mais descentralizados, houve uma quebra dessa tradição nos bairros”, enfatiza. Para o presidente da Federação das Quadrilhas Juninas de Pernambuco, Antônio Amorim, mesmo com a falta de aporte financeiro - as grandes quadrilhas têm um gasto entre R$ 100 a R$ 120 mil - e das questões ligadas à segurança e estrutura, que contribuíram para que as festas diminuíssem em várias localidades RMR, existe uma preocupação de quem faz do São João a sua vida: o resgate aos costumes do passado.

“Na década de 80 as quadrilhas eram de rua. Depois, já nos anos 90, elas passaram a ficar mais competitivas e surgiram os festivais. Com a profissionalização dos grupos, eles passaram a ensaiar em lugares fechados e se distanciaram do público de rua, de bairro”, afirma. “Um dos papéis da federação é justamente fomentar essa cultura e incentivar a integração dos grupos. Estamos sempre em busca de valorizar nossos associados sem deixar as tradições de lado”, completa Amorim.

“Olha pro céu”
Com sua história enraizada no Morro da Conceição, há 24 anos, a Origem Nordestina tem 140 integrantes. Um dos principais mandamentos para motivar o grupo, segundo o presidente Eurico Josuano Ferreira, é: brincar e viver o São João. “É muito emocionante ver a arquibancada cheia e o brilho no olhar dos nossos brincantes. Não queremos perder isso. Eles se entregam muito”, declara. A ideia da Origem Nordestina de reviver a cultura nos bairros é fazer ensaios nos espaços públicos. “Neste ano, sentimos que, em termos de número de apresentações melhorou muito, parece que estamos há um mês na rua, esperamos que ano que vem isso ganhe mais corpo.” Um passo para esse contato mais perto da comunidade foi a divulgação do tema. “Nós divulgamos em agosto que o tema deste ano seria ‘Rainha, O casamento de Oxum’, e ano que vem queremos levar um pouco dos nossos ensaios para as ruas. Queremos utilizar ao máximo os espaços públicos e trazer as pessoas de volta para dentro da quadrilha”, declara Eurico.

Para a costureira e artesã Avila Janine, moradora da UR-05, no Ibura, no São João de outrora, o encantamento pela data vinha desde enfeitar a rua até acender a fogueira e ver as apresentações das quadrilhas. “Essa época é maravilhosa, e traz muita diversão além do seu papel social em muitos bairros. Muitos meninos que poderiam estar nas ruas fazendo algo errado, se envolvem nas quadrilhas, participam dos ensaios.” Ela lamenta que não tenha mais a estrutura dos palhoções na região, e nem das quermesses. “É uma pena não termos mais isso por aqui. Muitas pessoas gostariam de ir ver a Arrocha o Nó, mas, às vezes, é complicado ir até o Sítio da Trindade, por exemplo”, diz a artesã.

Ciclo Junino

A descentralização do Ciclo Junino na Região Metropolitana do Recife (RMR) se tornou um pleito tanto dos quadrilheiros quanto da população. De acordo com o secretário-executivo de Cultura do Recife, Eduardo Vasconcelos, na capital pernambucana, a promoção das festividades nos mais diversos polos já começou a ser praticada.

“O nosso São João é 100% pernambucano e valorizamos as tradições. Nos concentramos nos polos menores trazendo de volta a animação na vida das pessoas”, disse. Neste fim de semana (23 e 24 de junho) os bairros do Barro, Bongi, Campo Grande, Cordeiro, Ibura, Lagoa do Araçá e Totó vão receber uma programação especial.

De acordo com a PCR, a Vila Tamandaré, preferiu celebrar o santo nos dias 22 e 23. Em Brasília Teimosa, a festa será no dia 29, para festejar São Pedro, padroeiro dos pescadores. Além das apresentações das quadrilhas, haverá atrações como Terezinha do Acordeon, Mestre Galo Preto, Caju e Castanha, Forró do Muído, Nádia Maia, Cezzinha, Nena Queiroga, Dudu do Acordeon, Coco dos Pretos, Azulão, Maciel Melo, Pecinho Amorim, Banda de Pau e Corda, Coco de Pareia, Ciranda Dengosa, Balé Popular do Recife e Faringes da Paixão. Em relação a custos, a Prefeitura liberou R$ 250 mil para a subvenção das quadrilhas. “É uma luta antiga do movimento há mais de uma década. Eles têm um custo muito alto com roupas, equipamentos.”

Reduto do Carnaval pernambucano, Olinda terá pela primeira vez uma programação voltada para o São João com direito a cidade cenográfica, fogueira, vários artistas do forró tradicional. “Essa iniciativa surgiu para que as pessoas possam aproveitar mais essa data. Nossa expectativa é receber até 50 mil pessoas por dia”, declara o prefeito Lupércio.

O São João de Olinda é realizado na praça do Carmo, a partir das 17h, até este domingo. Em Camaragibe também há aposta na descentralização dos festejos. Os polos juninos escolhidos são: Alto Santo Antônio, Santa Terezinha, Bondade de Deus, Vera Cruz, Borralho, Alberto Maia, Areeiro, Japão, Vale das Pedreiras, Tabatinga, Santa Mônica, Céu Azul, Santana II, São João e São Paulo e Viana. Entre as atrações, estão DJ Marvin, Alan Salvador, Barão de Melo, Rogério Som, Naldinho de Lima, Banda Pegada e JR3. “Descentralizar é também uma forma de incorporar as comunidades ”, afirma a diretora de eventos da cidade, Prazeres Barros.

Cultura profissionalizada
Com o surgimento dos concursos, as quadrilhas juninas começaram a se profissionalizar e, em virtude da concorrência, trazer algo diferente para conquistar os jurados se tornou o grande foco. Mas até que ponto é necessário manter o equilíbrio entre a tradição junina e a incorporação de temáticas sociais tão pertinentes. “As quadrilhas hoje se importam com o que elas vão falar, e antigamente não era assim. E os concursos vieram com essa demanda do novo. As quadrilhas vinham se apresentando sempre da mesma forma”, ressalta a diretora artística da Junina Zabumba, do município de Camaragibe, Lucrécia Forcioni. “Falar de tradição é muito complicado, porque na cabeça das pessoas a tradição é algo que precisa ser mantido como era sempre. Só que a tradição é levada pelo ser humano e nós estamos em constante processo de ressignificação.”

A Junina Zabumba tem 17 anos de existência e 114 integrantes. Para este ano, o tema escolhido foi o “Triangulo Amoroso”, mas do ponto de vista do empoderamento feminino onde a mulher também tem o direito de se relacionar como bem quiser. Para o roteirista da quadrilha Arrocha o Nó, Francis Oliveira, mesmo com todas as mudanças, o importante é manter a essência da festa: a colheita, os santos, o casamento. “Houve um momento em que o público se distanciou das quadrilhas juninas. E agora com essa reaproximação eles sentem as diferenças, mas é preciso se reinventar”, declarou. Francis foi o responsável pelo tema “Junina Arrocha o Nó, a Top das Galáxias” - a história do casamento de duas estrelas brancas, que inspiradas numa festa junina enviaram um ET a terra com objetivo de abduzir um humano para importar esse festejo para o casamento. “Nós conseguimos mostrar que podemos trazer o junino para qualquer tema”, ressalta o projetista Jorge Otacílio.

Para o público, as opiniões são bem diversas entre o passado e o presente do verdadeiro sentido do São João. Para Vania Lucia de Oliveira, de 51 anos, moradora do Totó, é o xadrez, o chapéu de palha e a história secular do casamento, que mais sente falta. “Quase não vemos apresentações na nossa região, e ainda acredito que as apresentações tradicionais são bem mais interessantes”. A falta de algo menos teatral também é compartilhada por Sevi Gomes, de 65 anos. “Hoje é tudo muito falado, às vezes eles perdem o sentido. Sinto falta das apresentações do passado”, comenta.

No entanto há grupos que preferem não arriscar na fórmula. A Junina Traquejo, do município de Gravatá, no Agreste do Estado, foi aplaudida de pé em sua apresentação no Sítio da Trindade. O enredo trouxe o amor entre a Boneca da Sorte (símbolo típico do artesanato da cidade) e o Mané Gostoso, boneco conhecido em São Joaquim do Monte. “Nós batemos muito forte sobre a valorização da nossa cultura e da nossa tradição. Seja nos figurinos, no roteiro ou na coreografia”, declara o marcador Ricardo Silva.

Veja também

Número de mortes em terremoto na Indonésia sobe para 56
Tremor

Número de mortes em terremoto na Indonésia sobe para 56

Nota de quem erra só uma questão no Enem pode variar até 92 pontos
Enem

Nota de quem erra só uma questão no Enem pode variar até 92 pontos