Qui, 08 de Outubro

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Racismo

Estudante de medicina denuncia racismo no Instagram: "por que um médico favelado incomoda tanto?"

João Lucas, de 24 anos, registrou um boletim de ocorrência contra o autor do comentário nesta sexta-feira (4)

João Lucas foi vítima de um comentário de cunho racista nas redes sociaisJoão Lucas foi vítima de um comentário de cunho racista nas redes sociais - Foto: Foto: Instagram @joaolucasphd/Reprodução

O estudante de medicina João Lucas de Brito Freitas, de 24 anos, denunciou um comentário de cunho racista publicado em uma de suas redes sociais, na última quinta-feira (3). Ele decidiu tornar o caso público após receber o comentário na sua primeira foto usando jaleco, publicada no Instagram no início desta semana.

“Saudades de quando favelado não entrava em med [sic]... bons tempos”, escreveu o autor da mensagem.

Comentário de cunho racista na publicação do estudante | Foto: Instagram @joaolucasphd/Reprodução

Ao denunciar o episódio nas redes sociais, o estudante questionou: “Por que um médico favelado incomoda tanto?”

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Um post compartilhado por João Lucas | rotina & medicina (@joaolucasphd)

Em entrevista à Folha de Pernambuco, João Lucas afirmou que, apesar do teor da mensagem, não ficou surpreso com a existência de pessoas que pensem dessa forma. Segundo ele, não é a primeira vez que enfrenta episódios de racismo, tanto nas redes sociais quanto fora delas.

“Eu vi aquilo dali como uma forma onde finalmente foi documentada uma ação que, muitas vezes, passa despercebida diariamente”, explicou.

Segundo o estudante, o autor do comentário também é médico e mantinha o número do Conselho Regional de Medicina (CRM) na bio do perfil do Instagram. A partir da informação, João conseguiu identificar o homem e registrou um boletim de ocorrência contra ele nesta sexta-feira (4). A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil de Pernambuco, mas até o momento da publicação, não recebeu retorno. 

Mas além da denúncia, o jovem enxergou no episódio uma oportunidade de expor casos de racismo enfrentados por pessoas negras no país diariamente. 

“Eu tinha ali algo que eu finalmente ia dizer: ‘Olha, gente, o que eu percebi. Olha o que eu passo. Agora vocês vão entender o que é que acontece quando o meu corpo acaba ocupando um lugar que a sociedade não esperava’”, afirmou.

João Lucas também fez questão de destacar que ser “favelado” não é, para ele, uma ofensa. Por isso, de acordo com o estudante, a publicação teve o objetivo de denunciar o episódio e, ao mesmo tempo, ressignificar o termo utilizado pelo autor do comentário.

Incentivo 
Criado na Comunidade do Cardoso, no bairro da Madalena, na Zona Oeste do Recife, João Lucas foi um dos primeiros integrantes da família materna a ingressar no ensino superior. Para ele, o incentivo dos familiares foi fundamental para que pudesse se dedicar aos estudos e ser aprovado em um dos cursos mais disputados no país. 

“Eu tive uma criação muito forte por mulheres negras do ambiente da minha comunidade. A minha mãe já trabalhou em diversas profissões para conseguir prover o sustento do lar. Sempre em algum tipo de trabalho que estivesse disponível, porque ela queria, no final, trazer o sustento para o lar e fazer com que a gente tivesse uma realidade diferente da que ela enfrentou”, contou.

A mãe do estudante concluiu o ensino médio quando João ainda era criança, por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade destinada a pessoas que não concluíram os estudos na idade regular. A experiência reforçou, para ela, a importância da educação na vida dos filhos.

João também recebeu o apoio do pai, que trabalhava como auxiliar de coordenação em uma escola particular do Recife. Foi por meio dele que o estudante teve acesso a uma instituição de ensino privada e conseguiu uma bolsa integral.

Outra referência importante na trajetória do estudante é a avó materna, que não concluiu o ensino fundamental porque precisou começar a trabalhar.

“Eu olho para as pessoas da minha família e da minha trajetória como referência, porque eu sei que, em outra época e em outra realidade, talvez eu não tivesse as mesmas oportunidades, mas sim as oportunidades que foram dadas a eles. E eu vejo que os meus familiares conseguiram fazer ‘dos limões uma limonada’”, afirmou.

Medicina
A medicina, segundo João Lucas, não surgiu como um sonho de infância. Para ele, que cresceu em uma comunidade do Recife, a profissão parecia uma possibilidade distante, principalmente pela falta de referências próximas na área. 

A conquista da bolsa integral em uma instituição privada, porém, ampliou as possibilidades e fez com que o estudante passasse a imaginar que poderia ocupar espaços que antes pareciam distantes. No ano do vestibular, João decidiu pela medicina principalmente por sua facilidade de comunicação e pelo interesse em cuidar de outras pessoas.

A ausência de referências de médicos dentro da própria comunidade também pesou na escolha.

“Mas eu imaginei: por que eu não seria o primeiro médico da família? E aí, eu acabei escolhendo não só a área da saúde, como também a medicina.”

Atualmente, João Lucas está finalizando a graduação com bolsa integral do Programa Universidade para Todos (ProUni) na Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), vinculada ao Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), no Recife, e já foi aprovado no doutorado. 

Racismo no Brasil
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados em julho deste ano apontaram que o Brasil registrou 30.743 casos de racismo e 21.443 de injúria racial em 2025. Os números representam aumentos de 13% e 9,2%, respectivamente, em comparação com o ano anterior.

De acordo com a legislação, a injúria racial ocorre quando a ofensa é dirigida a uma pessoa ou a um grupo determinado em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional. Já o crime de racismo está relacionado a condutas discriminatórias que atingem uma coletividade.

Em janeiro de 2023, a Lei nº 14.532 alterou a legislação brasileira e passou a tipificar a injúria racial como crime de racismo. A mudança elevou a pena prevista para a conduta, que passou a ser de dois a cinco anos de reclusão, além de multa, e estabeleceu que o crime é imprescritível.

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