Estudo recente sobre a cloroquina tem novas críticas

Relatório foi apresentado ao presidente francês, Emmanuel Macron. A possibilidade de expandir o uso da hidroxicloroquina tornou-se parte do debate global.

Medicamento hidroxicloroquina Medicamento hidroxicloroquina  - Foto: Marcello Casal/Agência Brasil

A equipe do médico francês Didier Raoult, defensor fervoroso da hidroxicloroquina no tratamento do COVID-19, apresentou um novo estudo destacando as vantagens do medicamento, mas a metodologia utilizada foi novamente criticada pela comunidade científica nesta sexta-feira (10).

A hidroxicloroquina, um derivado da cloroquina usada no tratamento da malária, "associada" ao antibiótico azitromicina e "administrada imediatamente após o diagnóstico, é um tratamento seguro e eficaz contra a COVID-19", conclui o resumo deste novo estudo.

O relatório foi apresentado na quinta-feira ao presidente francês, Emmanuel Macron, que fez uma visita surpresa em Marselha (sudeste) ao já famoso médico Raoult, especialista em doenças infecciosas.

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Atualmente, não há vacina ou tratamento contra a COVID-19 e a comunidade científica mundial trabalha contra o relógio para encontrar um produto que contenha a pandemia.

A possibilidade de expandir o uso da hidroxicloroquina tornou-se parte do debate global.

No último estudo de Raoult, 1.061 pacientes que apresentaram resultado positivo para o novo coronavírus receberam o tratamento proposto por "pelo menos três dias".

Após dez dias, nove em cada dez tinham carga viral zero, ou seja, nenhum sinal da doença. Cinco pacientes (0,5%), entre 74 e 95 anos, morreram.

Essa porcentagem é "significativamente menor" do que entre os "pacientes tratados por outros métodos", afirma o resumo, acrescentando que "nenhuma toxicidade cardíaca foi observada".

O estudo completo ainda não foi publicado.

Raoult já havia publicado estudos sobre a eficácia da hidroxicloroquina, mas muitos de seus colegas o criticaram por trabalhar com um pequeno número de pacientes. Nesta ocasião, muitos cientistas elogiaram o tamanho da amostra, mas afirmaram que a metodologia não permite concluir que o tratamento "evita o agravamento dos sintomas, a persistência do vírus e o grau de contágio na maioria dos casos", como sustentam suas conclusões.

"Infelizmente, na ausência de um grupo comparativo" que receberia um placebo", é extremamente difícil saber se o tratamento é ou não eficaz", explicou Arnaud Fontanet, epidemiologista do prestigioso Instituto Pasteur e membro do Conselho Científico sobre a COVID-19 da França.

"Esses resultados são nulos e sem efeitos, não nos ensinam nada sobre a eficácia do tratamento", lamenta a epidemiologista Catherine Hill, que também destaca que pelo menos 85% dos pacientes curam espontaneamente a doença, sem nenhum tratamento.

Paralelamente, a Agência Francesa de Medicamentos alertou nesta sexta-feira que os efeitos indesejáveis do ponto de vista cardíaco detectados entre os pacientes com COVID-19 tratados com hidroxicloroquina eram um "sinal de vigilância significativo".

"Os pacientes com COVID são mais frágeis do ponto de vista cardiovascular e, portanto, são mais suscetíveis do que outras pessoas a ter problemas com medicamentos prejudiciais ao coração", como a hidroxicloroquina, disse à AFP Dominique Martin, diretor-geral da Agência.

Alguns países já apostam na hidroxicloroquina: no Senegal, foi prescrita à metade dos pacientes hospitalizados, a Grécia reiniciou sua produção, o Marrocos quer usá-la para "casos confirmados" e a Argélia para "casos graves".

Na França, duas petições reuniram, cada uma, mais de 300.000 assinaturas a favor da ampliação de sua prescrição.

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