Estudos sobre hidroxicloroquina que nortearam decisões usaram dados suspeitos, diz jornal britânico

A hidroxicloroquina tem sido alvo de controvérsias desde os primeiros estudos publicados sobre o uso do remédio para combater a infecção pelo novo coronavírus

HidroxicloroquinaHidroxicloroquina - Foto: Divulgação/MS

Dados hospitalares de uma empresa americana usados em artigos sobre o uso da hidroxicloroquina contra a Covid-19 foram colocados sob suspeita a partir de uma investigação do jornal britânico The Guardian publicada nesta quarta-feira (3).

Os estudos disponíveis em duas das mais prestigiosas revistas científicas médicas, The Lancet e The New England Journal of Medicine, lançaram mão de informações hospitalares fornecidas pela Surgisphere, companhia desconhecida norte-americana que conta com pessoas sem formação em dados ou ciência no seu quadro de funcionários.

Segundo o jornal, um escritor de ficção científica e uma modelo de conteúdo adulto estariam entre os empregados da Surgisphere. Os artigos publicados com esses dados serviram de base para governos e a Organização Mundial da Saúde mudarem diretrizes com relação ao uso da hidroxicloroquina e encerrarem estudos com o medicamento que estavam em andamento.

Leia também:

ANS suspende a venda de sete planos de saúde
OMS vai retomar estudos com hidroxicloroquina após avaliação de segurança


A empresa diz ter obtido legitimamente informações de milhares de hospitais, mas não explica seus dados nem sua metodologia, aponta o jornal. O diretor-executivo da firma, o médico-cirurgião Sapan Desai, assina os artigos como um dos autores.
Uma comissão foi montada com os outros autores dos estudos que não são ligados à empresa para fazer uma auditoria da validade dos dados.

Após a publicação de um artigo na Lancet, no dia 22 de maio, o jornal já havia apontado inconsistência nos dados usados. No texto, o número de mortes causadas pela doença na Austrália até o dia 21 de maio era de 73; as fontes oficiais, porém, registravam 67 óbitos até aquele dia.

A revista Lancet chegou a publicar uma correção no artigo, mas afirmou que os resultados permaneciam os mesmos. O estudo, feito com informações de quase 100 mil pacientes, apontou que a hidroxicloroquina aumentava o risco de morte nessas pessoas.

A hidroxicloroquina tem sido alvo de controvérsias desde os primeiros estudos publicados sobre o uso do remédio para combater a infecção pelo novo coronavírus.Após uma série de estudos mais robustos publicados não terem encontrado benefícios significativos do uso da medicação nos pacientes internados com a doença, governos decidiram se afastar da hidroxicloroquina.

O presidente americano Donald Trump foi um dos primeiros entusiastas do remédio –e segue em sua defesa. No final de maio, os Estados Unidos enviaram 2 milhões de doses de hidroxicloroquina para o Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro também é um defensor do uso da droga para o tratamento da Covid-19. Ainda em março, Bolsonaro colocou o Exército na produção de doses do medicamento, mesmo sem resultados que comprovem sua eficácia para tratar a doença.

A hidroxicloroquina é usada no tratamento da malária. A corrida pelo medicamento durante a pandemia chegou a fazer com que pacientes da doença corressem o risco de ficar sem o remédio.

Acompanhe a cobertura em tempo real da pandemia de coronavírus

 

Veja também

Cai árvore centenária do Imip por causa das fortes chuvas
Chuvas

Cai árvore centenária do Imip por causa das fortes chuvas

Apac renova alerta de chuvas no Recife pelas próximas 24 horas
precipitação

Apac renova alerta de chuvas no Recife pelas próximas 24 horas