Ex-gari ganha título de mestrado

Estudante teve passado difícil em Pernambuco e em Rondônia, mas juntou salário para entrar na faculdade. Agora, teve dissertação aprovada e terminou curso de pós-graduação no Centro de Informática da UFPE . Meta é fazer doutorado

Milton (esq.) fez sua última apresentação de trabalho ontem, com êxito. “Vou seguir em frente”Milton (esq.) fez sua última apresentação de trabalho ontem, com êxito. “Vou seguir em frente” - Foto: Henrique Genecy

O lugar comum existe para ser desafiado. E foi isso que fez o recifense Milton. Ou melhor, mestre Milton Vinícius Morais de Lima. Ele deixou de ser gari, uma profissão pouco associada ao conhecimento acadêmico, e decidiu trabalhar na área de tecnologia.

Ontem, sua dissertação de mestrado foi defendida no Centro de Informática da UFPE e aprovada. Desde que resolveu se dedicar aos livros, não parou mais. Inicia o doutorado em segurança de dados no próximo mês. O registro de "gari caçamba" na carteira de trabalho ficando cada vez mais antigo.

Para chegar aonde está, foi preciso andar muito, no sentido literal. Num dia de greve de ônibus no Recife, o futuro mestre tinha uma reunião com seu orientador do mestrado, na UFPE. Arrumou carona, chegou ao local e apresentou uma ideia promissora, mas Milton não tinha dinheiro nem carona de volta. Para conseguir se inscrever no curso, teve que caminhar a pé da UFPE, na Várzea, até o Derby, na região central, atrás dos documentos necessários. Deu um jeito. Certo dia, foi chamado de “gênio” por um professor e refutou. “Eu não sou gênio. Só lembrei de Cafu (ex-jogador e ex-capitão da Seleção Brasileira de Futebol), quando o chamaram de craque. Ele respondeu que era um grande perna de pau reprovado em nove peneirões, mas que treinou e treinou”. Cafu fez-se craque; Milton fez-se mestre.

Em Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, teve experiências que, hoje, são pura história. Passou aperto almoçando farinha com açúcar misturados numa caneca, aos dez anos. Ficou órfão aos 20; chegou em casa e recebeu a notícia que sua mãe falecera. "O mundo podia acabar que eu já estava no lucro. Foi muita dor", relembra. Botou o pé na rua e foi para Rondônia, no Norte do País, desempregado; chegou a uma agência e a única coisa que recebeu foi o tal emprego do "gari caçamba". Recolheu lixo, entulho, bicho morto, limpou esgoto.

"O mais difícil era correr atrás do caminhão e os riscos do lixão. É ladrão, traficante, tudo o que você imaginar", lembra. Mas juntou tudo que podia, o suficiente para seis meses de mensalidade, deixou o emprego e entrou na faculdade.

Sem dar ares de sobrenatural às conquistas, Milton não gosta de supervalorizar feitos acadêmicos, mesmo sabendo como é adverso o meio para quem é pobre e egresso do ensino público. Ele só se apega ao esforço pelo resultado: foi firme, não teve bolsa de estudos, jamais reprovou, vivendo um dia de cada vez e criando as próprias oportunidades. Após apresentar sua dissertação, Milton se sentiu um pouco estranho. Agora é mestre e a sensação é a de alívio e de dever cumprido.

É professor e se prepara para continuar a ser: gosta de ensinar. Quer continuar a estudar, fazer um concurso. Porém, enxerga o horizonte de forma muito diferente de outrora.

“Hoje eu consigo parar, sentar e analisar o que eu tenho pela frente e o que tenho que escolher.” A meta continua ser superar cada novidade dia após dia.

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