Denúncia

Ex-policial dilacera rosto de capinador gay e vítima denuncia preconceito contra homossexuais na PB

Num vídeo divulgado nas redes sociais, a vítima parece denunciando as agressões que sofreu

Valdir levou 30 pontos no rosto após ter sido agredidoValdir levou 30 pontos no rosto após ter sido agredido - Foto: Reprodução

“Ele disse que não gosta de gay e me deu um soco na boca”. Assim Valdir Cunha de Maceno, de 50 anos, começa a contar a cena de horror que viveu após ser vítima de homofobia em Rio Tinto, município da Região Metropolitana da Paraíba. Num vídeo divulgado nas redes sociais, ele aparece denunciando as agressões que sofreu no último sábado (4) e que, por retratar o drama da violência contra homosexuais sobretudo no Nordeste, mobilizou milhares de brasileiros.

"Ele é homofóbico e eu sou homossexual. Eu não aparento, mas sou, assumido, minha família sabe", diz o carpinteiro, que nas imagens, gravadas por um amigo, está com a boca dilacerada e a camisa branca coberta de sangue. Valdir acusa o ex-policial Paulo Roberto Paiva do crime. O acusado não foi localizado para comentar a acusação e a vítima aguarda o retono das atividades da delegacia da região para registrar um boletim de ocorrência.

De acordo com Valdir, que está desempregado, mas faz bicos como capinador e carregando água para moradores da cidade, na tarde do último sábado ele foi até uma mercearia, que pertence a um parente, para descontrair e encontrou o ex-policial. Assim que o agressor o viu no local, mandou que ele se retirasse porque nao gostava de gay ou lhe daria um "soco ou tiro". Valdir conta ter respondido que ele não era "Deus para mandar no mundo", mas logo em seguida foi agredido. "Ele me deu um murro, estourou o meu rosto". 

"Foi tudo muito rápido. Eu estava calmo, só dei essa resposta e ele ficou bravo porque disse que não gostava de gente como eu. Ele não estava com nada na mão, mas o soco dele rasgou todo meu lábio superior", relata Valdir.
 

Antes de ir para o hospital, Valdir registrou o estado em que ficou após os golpes que recebeu para reunir provas contra seu agressor. O soco foi tão forte, que ligamentos da boca da vítima se romperam e ele levou mais de 30 pontos.

"Eu fui correndo para o hospital aqui de Rio Tinto, mas era grave e me mandaram para a capital. Cheguei lá às 18 horas e só sai no domingo. Os médicos só me atenderam às duas horas da manhã, porque eu já tinha perdido muito sangue e estava começando a ficar inconsciente", diz a vítima.

O caso foi denunciado na delegacia de Mamanguape porque, segundo a irmã de Valdir, Ivoneide Cunha, o departamento policial (DP) de Rio Tinto deve ficar a semana toda fechada devido a um feriado local determinado pela prefeitura. Segundo ela, o delegado solicitou exame de corpo de delito, mas orientou que o boletim de ocorrência só poderá ser aberto na unidade policial de Rio Tinto.

"Vamos ter que, provavelmente, esperar até segunda para dar prosseguimento, infelizmente. Tudo isso é sofrido demais. Já sofro de transtorno de ansiedade, eu quase desmaiei quando vi o vídeo dele todo machucado. A gente vem lutando contra outras agressões que ele sofreu e nem remédio tem feito mais efeito para que eu consiga  lidar com tudo isso", relata a irmã, emocionada.

Ainda de acordo com Ivoneide, nesta terça-feira, após saber que o caso estava repercutindo, o agressor do irmão mandou um homem entregar R$ 300 a Valdir. Paulo Roberto pediu para dizer ainda que está arrependido e que deseja que Ivoneide e o esposo o encontrem para conversar. Apesar de não aceitarem o dinheiro e afirmarem que vão seguir com a denúncia, Ivoneide e Valdir têm medo de que o caso fique impune porque o acusado é influente e dono de vários imóveis na cidade.

"Ele com certeza mandou o dinheiro para a gente não seguir com a denúncia, mas não teve nem a capacidade de vir aqui pessoalmente entregar e pedir desculpas. R$ 300 não vai limpar o que ele fez. Meu irmão não aceitou o dinheiro e a gente só quer justiça", diz.

Nas redes sociais, milhares de pessoas se mobilizaram com o caso. Em uma das publicações feita por internautas, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) se dispôs a ajudar no caso.

Valdir se assumiu gay há 10 anos. No início, ele conta sofreu muito preconceito, inclusive da família, mas parentes e amigos hoje o apoiam e aceitam. Após ter vivido 40 anos sem poder ser quem é de verdade, ele diz que não vai se esconder apesar das agressões.

"Na minha adolescência eu tinha muito medo de represália. Mas eu me aceitei e as pessoas têm que me aceitar. Eu decidi que não ia mais viver a vida que os outros queriam para mim e vou continuar assim".

Mesmo tomando remédio controlado para dor, Valdir tem atendido a imprensa e pessoas que se dispuseram a ajudar, pois diz que não quer que essa nova agressão também fique impune. No ano passado, ele foi estuprado e torturado por dois homens em um canavial próximo à sua residência. Ele só sobreviveu porque duas pessoas o encontraram desmaiado e pediram socorro. O caso aconteceu em março de 2020 e até hoje segue sem investigação.

Segundo Valdir, um dos homens que o torturou era conhecido pelas pessoas da cidade e o levou até o local dizendo que iriam para uma festa. Ao chegarem no meio do mato, os criminosos também disseram que "odiavam gays" e o jogaram no chão, deram chutes, o estupraram e amarraram um fio no seu braço esquerdo e começaram a arrastá-lo pelo canavial.

"Eles tinham preconceito. Eu quase morri, fiquei com o ouvido cheio de terras por um tempo, porque me arrastaram e fizeram de tudo comigo. Eu conhecia um, mas não sabia o nome do outro. Fiz a denúncia, mas a polícia nunca chamou ninguém para depor", afirma a vítima.

Ivoneide conta que toda a família se mobilizou para denunciar. O irmão chegou a apresentar duas testemunhas que o viram saindo com os agressores. Mas através de conversas que circulam pela cidade pequena, ela soube que o tio de um dos criminosos pagou fiança e os rapazes foram liberados.

"Nunca a polícia deu um parecer oficial para nós. Os caras estão por aí. O Valdir só não morreu porque trabalhadores da usina o encontraram", relata.

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