Febre Amarela preocupa da Capital ao Interior de Pernambuco

Segundo caso suspeito da doença é investigado no Estado. No Recife, dezenas de pessoas estão à procura de vacina enquanto Caruaru realiza bloqueio na Sulanca

No Recife, a procura por vacina de FA fez o estoque mensal acabar em menos de 15 dias e doses extras chegaramNo Recife, a procura por vacina de FA fez o estoque mensal acabar em menos de 15 dias e doses extras chegaram - Foto: Rafael Furtado/ Folha de Pernambuco

Uma população preocupada do Recife ao Interior de Pernambuco. A informação de dois casos suspeitos de febre amarela (FA) sendo investigados no Estado, até essa quarta-feira (17), e o temor de que mais um vírus possa chegar ao território pernambucano têm levado dezenas de pessoas aos postos públicos de vacinação. Filas se formaram nos principais serviços de referência no Recife.

Em Caruaru, cidade polo do Agreste, a procura também aumentou. O município inclusive iniciou ações de pulverização na Feira da Sulanca temendo que a doença chegue com os milhares de visitantes que vêm de várias partes do Brasil, incluindo áreas endêmicas.

Apesar de as autoridades da saúde pública estadual considerarem improvável a chegada da febre amarela, estudos nacionais recentes apontam que o Aedes aegypti tem capacidade de participação no ciclo da transmissão da doença.

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O resultado parcial do primeiro Levantamento de Índice Rápido do Aedes aegypti (LIRAa) de 2018 reforça a possível ameaça do Aedes. Entre os municípios pernambucanos analisados, 128 (69,6%) têm situação de risco para transmissão elevada de enfermidades carreadas pelo mosquito.

“Vou viajar dia 28 de janeiro para o interior São Paulo (SP), onde tem área de risco, e a empresa recomendou que tomasse a vacina. Estou aqui para me prevenir. Vim há dois dias e não tinha essa quantidade de gente, mas naquele dia estava sem a passagem”, contou o representante comercial Edson Carvalho Junior, 48 anos, que esperou por mais de uma hora na Policlínica Lessa de Andrade, no Recife, para conseguir a vacina.

“Fiquei surpresa com a quantidade de gente se vacinando. Está fora do normal”, disse a consultora Ana Lúcia Coelho, 52, que também viaja para o estado paulista no dia 26. Havia até pessoas naturais de São Paulo buscando dose na policlínica com medo de não conseguirem o imunizante na cidade natal.

 “Estou em viagem. Vim de SP para cá e vou ficar duas semanas. Então, vim tomar logo a vacina porque vou demorar para voltar para lá. Tenho amigos que ficaram doentes já”, afirmou o contador Claudio Munhoz, 37.

Febre Amarela


Segundo a Secretaria de Saúde do Recife, as duas mil doses que a Cidade recebe mensalmente acabaram em menos de 15 dias e já foram aportadas mais 700 doses extras. O secretário Jailson Correia tentou tranquilizar a população. “Fazemos parte de uma região do Nordeste que não tem tido nenhuma evidência de transmissão do vírus. Por tanto, aqui só tem indicação de vacina àquelas pessoas que vão viajar para áreas de risco”, reforçou. 


Foi visível na fila o impacto que a inclusão de São Paulo como área de risco trouxe para a demanda de vacinas em Pernambuco, o que pode gerar novas solicitações de estoque ao Governo Federal. O Ministério da Saúde confirmou o envio, neste ano, de 10 mil doses contra a febre amarela, o que corresponde a 100% do solicitado no mês. Em 2017, foram enviadas 107,9 mil doses. A Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou estar em contato com os municípios para analisar a demanda por vacinas, mas que, atualmente, as remessas encaminhadas pelo Ministério suprem a necessidade.

Casos notificados
Depois de uma mulher vinda de Mairiporã (SP) apresentar alguns dos sintomas da doença e ser notificada no começo do mês, ontem foi incluída a investigação de caso de um homem que mora em Brasília e está de férias no Estado. Ambos apresentaram quadros brandos e não estão hospitalizados. Os exames de confirmação ou não da FA serão feitos pelo Instituto Evandro Chagas, no Pará, mas não há previsão dos resultados.

Barreira para evitar contaminação
Em Caruaru, a vacinação é concentrada no Centro de Saúde Ana Rodrigues onde 550 pessoas já foram vacinadas. Entre a população em busca de doses, pessoas de cidades vizinhas como Santa Cruz, Toritama, Belo Jardim, Pesqueira, no Agreste e Arcoverde, no Sertão, onde relataram já haver dificuldade em encontrar a imunização. O serviço também recebeu quatro pessoas de São Paulo. O gerente geral de Vigilância em Saúde, Paulo Florêncio, destacou que trabalhos de barreira começaram na cidade. “Já estamos trabalhando na Feira da Sulanca fazendo bloqueio da área para evitar que uma pessoa doente que vier de fora contamine Aedes em Caruaru possibilitando a disseminação da doença”, afirmou. Caruaru compõe a lista das cidades com grande densidade vetorial segundo o 1ª LIRAa.

Sobre a competência do Aedes para piorar o cenário de adoecimento no Brasil, a pesquisadora da Fiocruz/PE, Constância Ayres, confirmou a viabilidade desse mosquito como vetor nas áreas urbanas. “Tem um artigo muito recente do grupo do Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro que mostra que os Aedes aegypti atuais têm uma altíssima competência vetorial para a transmissão do vírus. As cepas que estão circulando junto com a população de mosquitos presentes é uma combinação possível”, apontou.

Segundo a especialista, para que o Aedes entre no ciclo de transmissão basta que alguém se contamine no ciclo silvestre vira foco da infecção, venha para um centro urbano e seja picado pelo Aedes. Essa viabilidade foi comprovada em mosquitos do Rio de Janeiro e Manaus. Ainda não há estudos desse tipo com os mosquitos de Pernambuco. Apesar do cenário de atenção, a pesquisadora acredita que os sistemas de vigilância estão eficientes em detectar e bloquear qualquer escalada de casos.

 

 

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