Festa do Morro chega aos 115 anos celebrando a maternidade

Com o tema "Maria, mãe de um povo ferido", evento que celebra Nossa Senhora da Conceição evoca sentimento de infância, mobilizando quem precisa de ajuda. Reportagem conta histórias de fé e gratidão.

Fiéis pedem intercessão da santa para tratar as próprias doresFiéis pedem intercessão da santa para tratar as próprias dores - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Difícil pensar que exista, entre as múltiplas formas de ligação humana, uma entidade mais poderosa do que a maternidade. E, sem essa noção em mente, é impossível entender a simbologia que carrega o Dia de Nossa Senhora da Conceição e toda a sua popularidade em Pernambuco. Afirmar isso não é um romantismo, tentativa de idealizar a figura da mãe, humana e imperfeita como qualquer outra pessoa. É constatar o sentimento que há 115 anos leva multidões de católicos a subirem a pé - muitos de joelhos e no sol - um morro sagrado pelo povo.

Nem sempre é a mãe biológica, mas é vital para qualquer um que se tenha a quem recorrer quando os problemas do mundo atacam a parte do sistema nervoso responsável pelas emoções. Violência, doenças, injustiça social, compulsões, brigas de família, consumismo, pressão por sucesso e resultados, preconceitos, descasos, falta de infraestrutura e moradia nas cidades… Esses e muitos outros dilemas tão antigos quanto contemporâneos recriam o estresse, deteriorando a qualidade de vida. E em tudo isso, a figura materna está e mobiliza quem precisa de ajuda. Mais do que uma palavra derivada do latim (“mater”), “mãe” é a maneira como a língua portuguesa tenta reproduzir um dos primeiros sons que a criança aprende a falar.

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Na semana em que a Festa do Morro celebra o tema “Maria, mãe de um povo ferido”, a Folha encontrou devotos que buscaram o apoio da Imaculada Conceição para tratar as próprias feridas. Histórias de fé e gratidão que se cruzam o tempo todo no vaivém das pistas e escadarias que levam à imagem da padroeira afetiva do Recife.

“As pessoas têm uma afinidade muito grande com Maria, sobretudo nós, latino-americanos, que, como os italianos, temos uma proximidade forte com a figura feminina. Pensando na realidade dos nossos morros, vemos filhos abandonados que acabam sendo criados pela avó, geralmente um poço de bondade, afeto e segurança. Com isso, essa relação passa do afetivo para a devoção”, considera o reitor do Santuário de Nossa Senhora da Conceição, padre Mailson Régis Queirós.

Em meio a essa devoção que envolve tantas histórias, o ferroviário aposentado Manoel Andrade, de 65 anos, agradecia à Santa acompanhado de um amigo, o também aposentado Severino de Souza Freitas, 84, como todos os anos. “Eu não sei a motivação dele [Severino], ele vem e acende meia dúzia de velas”, diz Manoel sobre o vizinho, que não quis dar entrevista. “Ela [Nossa Senhora] me salvou de um risco de morte. Não prometi a ela vir ao Morro, mas tenho por obrigação com todo o prazer. Nunca falhei. Já vim gripado, meus amigos diziam: ‘Você está com febre. Devia ser internado’”, conta.

Manoel Andrade (à esquerda) vai ao Morro com o amigo Severino de Souza Freitas, 84

Manoel Andrade (à esquerda) vai ao Morro com o amigo Severino de Souza Freitas, 84 - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco 

O risco a que o aposentado se refere foi uma tentativa de assalto que sofreu em 1988. Ao largar do trabalho à noite, na saída do Terminal Integrado de Passageiros (TIP), o ferroviário foi à parada esperar o ônibus de volta para casa, em Camaragibe, onde mora até hoje. “Tinha uma faixa de 150 pessoas da Usina Açonorte, mas o pessoal era dali mesmo. Não deu cinco minutos, chegaram ônibus de todo tipo, um atrás do outro, e eu fiquei ali sozinho”, recorda.

No escuro, apareceu um menino, que, pelo que lembra, aparentava uma idade de 5 anos, pedindo dinheiro. Ao ouvir que não tinha, o garoto saiu e logo veio outro com o mesmo pedido, que recebeu a mesma resposta. “Ele voltou, não deu dois minutos, vieram dois caras a uns cinco metros de distância, e um deles perguntou: ‘Tem cigarro aí?’. Eu disse: ‘Tenho não’. Eu sou católico, mas disse que era evangélico porque evangélico não fuma. Daí o outro falou: ‘E dinheiro?’, e puxou uma lapa de faca de umas nove polegadas”, lembra. Confirmado o perigo, Manoel exclamou em pensamento o título de Nossa Senhora da Conceição. Pediu socorro. “Vi uma luz, era um ônibus. Não era o que eu pegava, mas levantei a mão. Fui logo pagando a passagem. E o cobrador perguntou: ‘Você conhece esse rapaz aí atrás? Ele ia lhe furar. Botou a faca assim, nas suas costas. O senhor não está furado?’”, conclui.

Dedicação e memória
As graças atribuídas à Santa do Morro impulsionam não apenas os fiéis que se amontoam na ladeira a pagar promessas. Entre os voluntários que se revezam para receber os fiéis aos pés da imagem, Antônio Carlos Renovato, 53, não se permite esmorecer no sol a pino ou quando precisa descer e subir a escadaria para resolver qualquer pendência da organização da festa. Este é o quinto ano em que o ex-morador de palafita, hoje estudante do 1º ano de Educação de Jovens e Adultos (EJA), se dedica à mãe de Deus. “Recebo a doação das flores, os pedidos de graças alcançadas, as fitinhas que a gente amarra. Tudo isso é bom para mim”, diz.

Morando à beira de um canal com a irmã e a mãe, hoje falecida, no bairro de Campo Grande, Zona Norte do Recife, Antônio Carlos lembra que não conseguia dormir por causa das cheias. “A gente pediu muito a Deus e à Nossa Senhora para encontrar um lugar bom. Consegui vender o terreno e ela [a santa] me deu minha casa própria, de alvenaria, no mesmo bairro”, ressalta. “Não estou indo para a escola, me dedico completamente a ela até o dia 8. Maria é a mãe do amor, é a mãe da paz. Sirvo com muito amor e carinho”.

A poucos metros do santuário da paróquia, a casa de Severina Paiva de Santana, 84,, é também um templo particular dedicado à Conceição Imaculada. Acostumada a receber e ajudar moradores e jovens da comunidade, dona Sevi hoje luta para preservar a memória do bairro onde mora há 69 anos. Autora do livro “Aos pés da santa: a história de um povo”, lançado em 2012, a devota nascida na cidade de Ferreiros, na época uma vila de Itambé, na Mata Norte, mantém, desde a infância, um vínculo forte com a padroeira do distrito onde nasceu. “Meus pais eram agricultores e nós, com 7 anos, íamos para a casa da minha tia para estudar. Fiquei até os 15 anos, zelando pela igreja do povoado. Ao chegar aqui, minha mãe já estava com as minhas irmãs, me deparei com a linda imagem numa periferia, no meio do povo pobre”, relata.

Dona Sevi, que se prepara para lançar a autobiografia, testemunhou a evolução da festa popular paralela às celebrações eucarísticas. As lembranças correm fácil na cabeça dela. “Quem dirigia era dona Porfíria, a segunda zeladora [da igreja] após 1904, quando colocaram a imagem. Trabalhávamos, cantávamos, éramos jovens. Naquela época, o Morro pertencia à jurisprudência da Harmonia Bom Jesus do Arraial e assim caminhamos. Na década de 60, Dom Hélder chega em plena ditadura militar e cria o movimento de evangelização Encontro de Irmãos, que foi a luz para que os pobres tomassem consciência dos seus direitos e deveres”, conta.
  
Tendo trabalhado como bordadeira, empregada doméstica e cuidadora de idosos, ela também é vista como uma líder que acompanha as atividades da igreja. “O Morro é muito conhecido pelas suas lutas, suas vitórias e seus sofrimentos. Eu nem digo as feridas que Maria tem me curado, mas as graças que ela intercedeu a Jesus, o centro. Eu só tenho que agradecer. [Quando] aqui cheguei, não tinha casa para morar, vendo meu povo morando em mucambinhos de barro, sem reboco. Estudei, tive uma filha formada, me casei com um homem honesto. Sinto as feridas dos meus irmãos e creio em Maria”, afirma.

Abraçar e agradecer
No Morro, a emoção é visível no semblante dos fiéis. Entre eles, o casal Marta Guedes, 63, e Gilmar Torres, 55, que não conseguiam conter o choro diante de um dos velários ao lado da imagem. Nesta semana, eles foram agradecer pela saúde do neto, que, há um mês e meio, precisou passar por uma cirurgia no coração com apenas oito dias de nascido. A operação foi um sucesso, mas o menino pegou uma infecção hospitalar. “Ele nasceu com um problema de inversão de válvula cardíaca, o que estava dando insuficiência respiratória. Graças a Deus, ele está evoluindo e saiu do hospital”, conta Gilmar.

Vendedores autônomos por muito tempo, os dois conseguiram se formar nos últimos anos. Ela, em direito e enfermagem; ele, em direito. Como enfermeira, Marta também celebra a melhora do marido, que tinha depressão e agora deixou de tomar antidepressivo. “Eu desmamei o medicamento dele. Eu ajudei ele com a fé em Nossa Senhora. Ela é a nossa mãe. Quem tiver fé pode entregar que ela dá o que há de bom”, declara a devota.

Reitor do Santuário do Morro, padre Mailson Régis Queirós explica que esse sentimento que vem da identificação com a representação feminina da mãe de Cristo pertence a uma tradição de diferentes países e culturas. “Isso acontece em vários lugares, na América Latina, em Fátima e Lourdes, na Europa. Se os discípulos, que passam o exemplo para nós, já colocamos nos altares, imagine aquela que trouxe Jesus ao mundo. Acredito que as pessoas recorrem a isso”, diz.

 

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