Fiéis foliões mantém a tradição dos desfiles dos bailes carnavalescos

Mesmo com a perda de espaço nas prévias da Cidade, os desfiles de máscaras e fantasias ainda encontram interessados em manter o glamour da festa

Fantasias criadas por Robson ChagasFantasias criadas por Robson Chagas - Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

O Carnaval de Pernambuco é reconhecido pela sua diversidade. Entre tantos ritmos - frevo, maracatu, caboclinho - e descentralizações - indo além do Recife e de Olinda -, a festividade foi tomando outros ares ao longo do tempo. Os desfiles nos bailes tradicionais do Recife, que tiveram seus anos de glória junto à sociedade pernambucana, foram perdendo espaço.

Neste sábado, pela primeira vez, o Bal Masqué não terá o concurso de máscaras e fantasias de luxo. O argumento da organização foi o baixo número de inscritos, que tem diminuído a cada edição. E o Baile dos Artistas, que antes contava com várias categorias em seus desfiles, hoje só tem uma. Assim como o Baile Municipal, que optou por deslocar o momento da exibição das fantasias do evento, deixando-o isolado para ocorrer no dia anterior.

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Com os novos formatos dessas prévias carnavalescas, os artistas que, por décadas, se apresentaram nestes eventos, e obtiveram reconhecimento por suas fantasias luxuosas e bem elaboradas, hoje amargam um injusto ostracismo. Os shows - com grandes atrações nos mais diversos gêneros musicais - acabaram cativando o público, que foi se esvaindo no momento da passarela. Entretanto, há aqueles que ainda permanecem, ano após ano, buscando levar aos bailes o glamour e o dourado dos tempos de outrora. Também há novos artistas que decidem se somar aos antigos em uma tentativa de manter a tradição.

O agente de turismo Gilberto Coura desfila há 33 anos e talvez seja o nome mais forte quando se fala de artistas que ainda permanecem se apresentando nos bailes da Cidade. Vencedor em diversas edições do Baile dos Artistas e do Bal Masqué, ele jamais permitiu deixar cair a qualidade de seus adereços, que confecciona em sua própria residência.

Envaidecido do seu ofício, o artista acredita que a produção de suas fantasias terminaram por criar um padrão de excelência difícil de ser superado pelos concorrentes. "O problema talvez esteja nos outros competidores que permitiram uma queda no nível dos seus trabalhos. Todos os anos continuo mantendo o padrão porque acredito que, assim como alegria, o glamour e a perfeição são ingredientes da festa de Carnaval. Por muitas vezes pediram que eu diminuísse a qualidade dos meus trabalhos, porém jamais faria isso." comenta Gilberto, em entrevista concedida à Folha de Pernambuco, em sua casa, em meio às inúmeras peças do seu acervo.

O decorador Robson Chagas - importante figura do Carnaval da Cidade - acompanha bem a trajetória das prévias ao longo desse tempo. Responsável por planejar e executar a decoração do Baile dos Artistas, ele conhece bem os bastidores da festa. Embora nunca tenha desfilado, não acredita que a falta de espaço sofrida pelos artistas seja atribuída à ausência de interesse do público ou até mesmo dos participantes. "As pessoas jamais deixaram de comparecer aos bailes, e nem os artistas passaram a ser descuidados em suas performances. O problema reside no poder público, que não estimula a produção dos bailes. A tarefa recai exclusivamente nas coordenações, que acabam então decidem cortar os desfiles." critica.

Robson Chagas não acredita na queda de qualidade, nem de interesse, dos participantes

Robson Chagas não acredita na queda de qualidade, nem de interesse, dos participantes - Crédito: Marina Mahmood/Arquivo Folha de Pernambuco


Em um cenário onde o Bal Masqué pela primeira vez não terá seu desfile de fantasias e máscaras, Robson Chagas não imagina um futuro onde se resgate os tempos áureos das tradicionais prévias carnavalescas. "Perdeu-se o sentido. Infelizmente agora o foco está em shows e atrações alheias aos desfiles".

Mesmo com esse cenário, os resistentes ainda conseguem companhia. Este ano é a primeira vez que a bailarina recifense Duda Mel desfilará no Baile dos Artistas. Ela carrega consigo o conhecimento e a dor de ser impedida de fazer sua arte. Primeira professora de balé trans do Brasil, Duda traz em sua fantasia uma alusão ao feminicídio. "No País que mais persegue transsexuais e travestis, sei da responsabilidade que carrego ao desfilar apresentando este tema. O objetivo de levar a representatividade LGBT a lugares que não dão espaço a este público é muito caro a mim" diz a bailarina.

Resposta
O coordenador do concurso do Baile Municipal, Albemar Araújo, não acredita que há um declínio na qualidade dos bailes ou desinteresse do público. "Para que as fantasias sejam ainda melhores e para que tenham o seu devido espaço para brilharem como merecem, decidimos separar o desfile do baile. Este ano, os artistas poderão se apresentar no dia 3 de fevereiro, um dia antes do Baile Municipal. Eles não deixam de se apresentar e nem o folião deixa de brinca" afirma.

Andrea Mota, produtora do Baile dos Artistas, acredita que a execução do desfile em uma única categoria retoma a simplicidade que era presente nas primeiras edições. "Notamos que a festa vinha perdendo sua essência, então tivemos que nos adequar à nova realidade. Porém sem perder a qualidade que o público conhece. Pernambuco é um Estado que possui arte de todos os tipos, e essas manifestações são sem dúvida celebradas em nossa festa. Por exemplo, este ano teremos o Drag Beauty, concurso de drag queens que contará com diversos talentos locais", alega Andrea.

Mesmo sendo a primeira vez que o Bal Masqué não terá seu concurso de de fantasias e máscaras, o baile não deixará de homenagear os grandes nomes dos desfiles. "Cinco grandes artistas receberão um diploma pela sua enorme contribuição ao Carnaval pernambucano" comenta Joseli Lacerda, diretora de comunicação do Clube Internacional do Recife.

Dedicado ofício da fantasia

Em relação ao processo de confecção de vestimentas, o veterano Gilberto Coura alega que se encontra bem confortável para produzir. "As matérias-primas geralmente compro de São Paulo ou do Rio de Janeiro, daí em média gasto cinco mil reais por fantasia. Porém hoje em dia reutilizo muitos materiais". O veterano já chegou a desfilar nas escolas de samba do Rio de Janeiro. "As pessoas não acreditaram que alguém tão jovem - como eu era na época - pudesse ter tanto talento na composição", diz, sem exibir falsa modéstia.

Inspiradas em divindades mitológicas e até em grandes figuras conhecidas do público - como o comunicador Chacrinha -, a criação da fantasia não é um mero trabalho de aplicar penas ou lantejoulas. É preciso contar uma história por meio da vestimenta, e isso exige um amplo trabalho de pesquisa. "Este ano irei apresentar [o multiartista] Charles Chaplin no Baile dos Artistas, e sei que é uma grande responsabilidade. Como introduzir um ator de cinema e seu personagem clássico a uma festa de Carnaval? Passei muito tempo estudando os movimentos de 'Carlitos', seu jeito de fazer graça, e quero unir este humor com a alegria que o nosso Carnaval proporciona".

Trabalhando em um agência de turismo, Gilberto precisa conciliar o tempo entre sua vida à paisana e a dedicada às plumas e paetês. É preciso ir montando aos poucos os adereços. "Em uma semana faço a plumagem, em outra, a cabeça. Por exemplo, desde dezembro estou trabalhando em uma peça. Sem pressa." comenta. Por um tempo, ele não pôde se apresentar devido a problemas de saúde. "Fiquei mal com essa situação, mas hoje estou ótimo para continuar me apresentando. É uma força em mim, e não importa o que aconteça, permanecerei desfilando".

"Para mim, o Carnaval continua sendo aquele momento em que todo o colorido e toda a alegria se espalham. Busco refletir isso em toda fantasia que faço." diz o fiel folião dos tradicionais bailes, que não pôde conter um sorriso no rosto. "Alguns vão continuar dizendo que é uma coisa do passado e que o desfile tem que ser extinto mesmo. Porém, dependendo de mim, isso não acontecerá jamais."

 

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