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"Fome aguda" atingiu 295 mi de pessoas em 2024 devido a conflitos e crise climática, diz relatório

Pelo sexto ano consecutivo, o número de pessoas que enfrentam 'altos níveis de insegurança alimentar' aumentou

Um menino palestino come um pedaço de uma ração de comida quente de uma cozinha beneficente montada no campus da Universidade Islâmica na Cidade de GazaUm menino palestino come um pedaço de uma ração de comida quente de uma cozinha beneficente montada no campus da Universidade Islâmica na Cidade de Gaza - Foto: Omar Al-Qattaa / AFP

Pelo sexto ano consecutivo, o número de pessoas que enfrentam “altos níveis de insegurança alimentar” aumentou, segundo o Relatório Global sobre Crises Alimentares (GRFC, na silga em inglês) divulgado nesta sexta-feira. A fome aguda afetou 295 milhões de pessoas de 53 países em 2024, um recorde, principalmente devido aos conflitos armados e a crise climática — e as perspectivas para 2025 também são críticas, especialmente pela redução da ajuda internacional.

Das 295,3 milhões de pessoas (22,6% da população analisada), 1,9 milhão ficaram à beira da fome, recorde desde que o relatório começou a ser elaborado, em 2016.

A maior parte da população em situação extrema estava no Sudão e na Faixa de Gaza, e em menor medida no Mali e no Haiti. O número de pessoas que enfrentam a mais crônica falta de alimentos — conforme analisado pela Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC) — mais que dobrou no ano passado. Mais de 95% deles viviam em Gaza ou no Sudão, embora Haiti, Mali e Sudão do Sul tivessem populações significativas sofrendo escassez de alimentos semelhante.

“Após o fechamento de todas as passagens para a Faixa de Gaza no início de março e o colapso do cessar-fogo de dois meses, o acesso a alimentos foi severamente restringido”, diz o relatório.

No Sudão, o agravamento da guerra civil levou à declaração oficial de fome, com mais de 24 milhões de pessoas enfrentando insegurança alimentar aguda.

— Estamos falando de uma escassez extrema de alimentos, de um esgotamento completo dos mecanismos de resistência e de sobrevivência — disse Rein Paulsen, diretor do escritório de emergências e de resiliência na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Para 2025, o relatório adverte que a intensificação dos confrontos, as tensões geopolíticas, a incerteza que reina na economia mundial e os cortes de financiamento e ajuda já estão "aumentando a insegurança alimentar em alguns países", como a República Democrática do Congo ou o Haiti.

Conflitos, clima e economia
Os conflitos e a violência, que frequentemente provocam o deslocamento da população, foram os principais fatores da crise alimentar no ano passado para 140 milhões de pessoas, em 20 países. Em outros 18 países, os episódios climáticos extremos provocados pela mudança climática causaram desastres agrícolas: secas no sul da África, inundações em Bangladesh e na Nigéria, entre outros eventos.

O documento também alerta que "choques econômicos", como os aumentos de tarifas ou a desvalorização do dólar, podem provocar um aumento considerável dos preços dos alimentos e perturbar as cadeias de abastecimento. Ao mesmo tempo, o financiamento geral da ajuda está em declínio, em particular com a saída dos Estados Unidos no início do ano — país que era o maior doador mundial.

O relatório destaca que o financiamento relacionado à alimentação pode registrar queda de 45% e que a ajuda que beneficia pelo menos 14 milhões de crianças está "em perigo", o que deixa o grupo "exposto ao risco de desnutrição severa e morte".

Apesar do cenário difícil, em algumas regiões a situação registrou progresso. Rein Paulsen mencionou os avanços no Afeganistão, onde em 2024 havia três milhões de pessoas a menos em situação de insegurança alimentar do que três anos antes. Segundo o diretor da FAO, "uma das razões [para o avanço] é a ajuda concedida aos agricultores para que possam produzir".

Porém, o agravamento da situação em áreas como Sudão, Mianmar e Gaza ofuscaram os avanços registrados no Afeganistão e Quênia, de acordo com o relatório, apoiado pela União Europeia (UE), Banco Mundial e agências da ONU, entre outros.

"A fome e a desnutrição se propagam de maneira mais rápida que a nossa capacidade de resposta, enquanto um terço dos alimentos do mundo é perdido ou desperdiçado", denunciou o secretário-geral da ONU, António Guterres, no prefácio do relatório, no qual faz um alerta sobre "níveis recordes".

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