Futuro incerto para microcéfalos

Um ano após a descoberta do mal provocado pelo zika, famílias reclamam da rede de saúde

Programa AtitudePrograma Atitude - Foto: Paulo Almeida/Divulgação

Um ano depois do decreto nacional de emergência em saúde devido ao aumento dos casos de microcefalia provocado pelo zika, um longo caminho já foi percorrido. No entanto, ainda há muito a ser feito na avaliação das famílias atingidas, da sociedade civil, de entidades médicas e do poder público.

As famílias dos bebês microcéfalos são unânimes em dizer que a rede de saúde ainda é insuficiente para dar apoio aos tratamentos. Embora o crescimento dos casos da anomalia tenha desacelerado, o que indica um controle, o futuro dessas crianças continua incerto. O Brasil completou agora dez mil notificações. Pernambuco, 2.175.

Moradora do bairro de Peixinhos, em Olinda, Gabriela Alves, 20 anos, mãe de Ana Sophia, que completou um ano no fim de outubro, reclama do poder público. Por falta de recursos, Gabriela e o pai da menina, Leandro, que estão desempregados, precisam improvisar utensílios domésticos para a estimulação visual da menina.

“Usamos a lanterna do celular e pratos coloridos. Tentamos fazer o possível”, disse a mãe, acrescentando que só tem uma consulta mensal de terapia ocupacional na AACD e uma semanal de oftalmologia na Fundação Altino Ventura. “Nunca conseguimos uma vaga para a fisioterapia dela, então agora vamos ter de pagar R$400 numa clínica particular.” A renda da família é de um salário mínimo vindo do benefício de prestação continuada da filha.
Já os pais de Alice Vitória, que também completou um ano em outubro, sofrem com a desnutrição da menina. A família sobrevive com uma renda de menos de R$ 2 mil e gasta quase tudo com o bebê. “Gastamos R$ 650 todo mês só com medicamentos e o governo não dá nem a dipirona que custa R$2”, ressaltou Nádia Bezerra, 43, mãe da bebê.

Agora, a menina precisa tomar um leite especial. A lata custa R$104 e só dura três dias. Para isto, a família está recebendo ajuda de amigos. “Os amigos, às vezes, fazem cotinha. Pedimos a lata à Secretaria de Saúde, mas até agora não nos ajudaram.” Procurada, a Secretaria de Saúde do Recife disse que precisaria checar o protocolo da solicitação feita por Nádia.
Conhecendo os desafios diários, a Associação de Mães de Anjos (UMA) tenta articular uma rede de solidariedade, mas também de cobrança de políticas públicas. A UMA vem percorrendo várias cidades para ouvir as demandas e articular melhorias com o Governo. O Cremepe também entrou na discussão e promoveu reuniões entre INSS, MPPE, grupos de mães e gestores na tentativa de agrupar esforços.
A Secretaria Estadual de Saúde (SES) destacou que, desde o fim do ano passado, ampliou para 26 as unidades de atendimento às crianças com microcefalia. Já o Ministério da Saúde informou que, entre dezembro de 2015 e outubro deste ano, 19 CER foram habilitados. Além disso, dos 11 Centros Especializados em Reabilitação, oito já estão com mais de 90% de execução.

Número de mortes chega a 103 em PE
Chegou a 103 o número de mortes notificadas de bebês pernambucanos que nasceram com microcefalia. O número representa 4,7% do total de suspeitas da malformação. Até agora são 53 natimortos (óbitos fetais), 40 neomortos (quando óbito ocorre até 27 dias após o nascimento) e dez ocorreram no período pós-neonatal (óbito após os 27 dias do nascimento). As vítimas estão espalhadas por 55 cidades.

Entre os notificados, 92 (89,3%) permaneceram em investigação. A pediatra e integrante do grupo de trabalho estadual de mortalidade em menores de 1 ano, Daniele Cruz explicou que a confirmação da infecção viral tem sido complicada, principalmente nos casos dos natimortos. “Para confirmação pelo Ministério da Saúde precisamos dos exames e está um pouco difícil à coleta deles porque o feto nasce muito macerado, muito destruído. Então, quando encaminhamos para o Instituto Evandro Chagas (no Pará), eles já chegam em estado que não dá para fazer os exames.”
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Ela esclareceu que os óbitos fetais acontecem intrautero depois da 22ª semana. O que tem se observado nos 53 casos natimortos é que a gravidez estava num curso normal, quando perto dos sete ou oito meses se verificou que a criança estava sem vida.

“O que temos visto é que nesses casos os bebês têm mais alterações. Não só microcefalia, mas também artrogripose e outras gravidades. Em algum momento, simplesmente, o coração dele para de bater na barriga”, contou a especialista. Os neomortos são vítimas de infecções diversas e os pós-neonatal tem morrido devido à pneumonia causada por problema de deglutição.

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