Grandes doses de vitamina fazem bem?

Especialista pondera sobre os excessos do consumo das vitaminas

Legumes e frutas são principais fontes da substânciaLegumes e frutas são principais fontes da substância - Foto: Leo Motta/Arquivo Folha

As vitaminas são substancias essenciais ao nosso organismo. Participam milhares de reações químicas, que ocorrem simultaneamente no nosso metabolismo. Quando em quantidades não adequadas, causam problemas sérios de saúde e grandes déficits podem até acarretar a morte.

A fonte principal das vitaminas é a dieta. A vitamina D, ao contrário das outras, tem como sua principal fonte de fornecimento a ação dos raios solares sobre a pele. O composto ali formado, ao passar pelo fígado, sofre uma modificação química, uma hidroxilação, transformando-se na 25(OH) Vit D.

Ao passar pelo rim, nova hidroxilação, formando-se, assim, a 1,25 (OH) Vitamina D, também chamada Vitamina D3. Está é a forma ativa da vitamina, que atua principalmente nos ossos e no metabolismo do cálcio e fósforo.

È por esta razão que os portadores de insuficiência renal grave são deficitários desta vitamina, pela incapacidade dos rins de produzi-la. E a sua falta, acarreta uma doença óssea: a osteodistrofia renal. Por conta disso, os doentes em hemodiálise devem fazer uso permanente da D3 por via oral.

A contribuição da dieta ao fornecimento da vitamina D é extremamente modesta. São poucos os alimentos que a possuem, entre eles salmão, bacalhau, sardinha, algumas vísceras e gema de ovo.

A ação da vitamina D, ao nível dos ossos, favorece a sua formação e no intestino e rins a absorção do cálcio. As duas doenças estabelecidas classicamente por sua deficiência são ósseas raquitismo na criança e osteomalacia no adulto. Patologias muito raras no nosso meio. 

No entanto, já há anos se descobriu que a vitamina D também age em vários outros órgãos. Mais recentemente, tem se aventado que o seu deficit pode ser a causa ou contribuição para o surgimento de varias outras doenças. Ressalte-se que as evidencias neste sentido ainda estão longe de serem conclusivas. Câncer, hipertensão arterial, doenças cardíacas, diabetes e demência, seriam algumas delas.

Apesar das conclusões não serem definitivas, alguns médicos acreditam que a sua administração em doses maiores que se acreditava anteriormente preveniriam varias doenças. A solicitação da determinação dos seus níveis sanguíneos é cada vez mais realizada. Consequentemente, cada vez mais prescrições para o seu uso, em grandes doses, são feitas. Até no nosso Brasil, “País tropical e bonito por natureza”, com grandes números de dias ensolarados, isto está ocorrendo.

Os argumentos são que cada vez mais as pessoas evitam se expor ao sol, o uso de filtro solares cada vez mais potentes, pele escura da nossa população etc. Apesar desses argumentos, este fato continua para mim ser estranho. Afinal, as nossas necessidades da vitamina D situam-se entre 400 e 800 unidades diárias, e 30 minutos de exposição a luz solar produzem dez mil unidades.

É fácil entender que isto possa ocorrer nas pessoas que nunca se exponham ao sol e nos idosos, quando a pele diminui a capacidade de sintetizar a vitamina. Por outro lado, um outro motivo de preocupação é o fato de que, ao contrario de que se acreditou durante muito tempo, uma ingesta aumentada de vitaminas pode ser maléfica a saúde.

Hoje, está estabelecido que o uso de medicamentos contendo vitamina E aumenta o risco de câncer de pulmão nos fumantes; suplementação vitamina A incrementa o risco de acidente vascular cerebral (AVC); a vitamina C não previne infecções e o uso de complexos vitamínicos aumenta a probabilidade de doença cardíaca nos idosos.

Grandes doses de vitamina D trarão benefícios ou malefícios em longo prazo? Quem viver, verá.

*É endocrinologista e escreve quinzenalmente neste espaço