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Guatemala inicia diálogo, mas protestos contra presidente continuam

Plano de gastos para 2021 não contemplou o combate à pobreza - que atinge 59,3% dos quase 17 milhões de habitantes - e não destinou recursos suficientes para educação e saúde

Manifestantes pedem renuncia do presidente da Guatemala, Alejandro GiammatteiManifestantes pedem renuncia do presidente da Guatemala, Alejandro Giammattei - Foto: Johan Ordonez/AFP

O governo guatemalteco iniciou nesta terça-feira(24) um encontro com diferentes setores para definir o orçamento de 2021, que desencadeou protestos exigindo a renúncia do presidente Alejandro Giammattei e cuja aprovação foi suspensa pelo Congresso. 

"O objetivo do encontro é ouvir propostas vindas de associações, centros de pesquisa e academia para um reajuste do orçamento", segundo a pauta apresentada antes da reunião. 

Lideranças empresariais, igrejas evangélicas e representantes da Universidade de San Carlos da Guatemala participaram do encontro no antigo palácio de governo. 

Giammattei abriu o diálogo e em seguida, se retirou do local, onde permaneceram altos funcionários, incluindo o ministro das Finanças, Álvaro González, responsável pelo fracassado projeto de lei orçamentária, aprovado pelo Congresso na semana passada e suspenso na segunda-feira. 

O projeto orçamentário originário desencadeou indignação e rejeição em diversos setores, que reclamaram que o plano de gastos não contemplou o combate à pobreza - que atinge 59,3% dos quase 17 milhões de habitantes - e não destinou recursos suficientes para educação e saúde.

Após a aprovação do texto, milhares de manifestantes lotaram as ruas da capital no sábado para exigir a renúncia de Giammattei, enquanto um grupo incendiava a sede do Parlamento. 

A polícia reprimiu as manifestações, incluindo algumas pacíficas e com a presença de menores, provocando rejeição dentro e fora da Guatemala. 

As Nações Unidas, a Anistia Internacional, a OEA e um grupo de países e organizações que cooperam com a Guatemala lamentaram a repressão e apelaram a um diálogo para encontrar uma saída para a crise. 

A Human Rights Watch criticou a repressão policial excessiva nesta terça-feira e pediu uma investigação.

O Congresso unicameral, dominado pelo partido no poder e partidos ligados a Giammattei, havia aprovado na semana passada o orçamento para 2021 proposto pelo Executivo de quase 12,8 bilhões de dólares, o maior da história do país. Mas ele reverteu sua decisão diante da onda de rejeição popular. 

Com a suspensão do processo, os deputados têm até 30 de novembro para aprovar um novo orçamento, de acordo com a lei. Caso contrário, o que rege em 2020 permanecerá em vigor, por cerca de 10.390 milhões dólares. 

Os protestos continuam

Embora as manifestações tenham diminuído de intensidade, lideranças indígenas se reuniram nesta terça-feira em frente à Casa Presidencial, antiga sede do governo e do Congresso, para exigir a renúncia do presidente e dos deputados. 

"Que o presidente renuncie, já recebemos tantos abusos dele, de todos os deputados (...) e o que eles têm feito, zombam de nós", lamentou uma liderança indígena ao fazer um discurso na manifestação. 

"Temos que lutar e se eles não vão nos ouvir, o povo vai tomar outras decisões, eles sempre nos marginalizam”, comentou outro líder.Os indígenas representam mais de 40% da população. 

Também exigiram o fechamento do chamado Centro de Governo, um "superministerial" criado por Giammattei e dirigido por um amigo seu, que tem sido um dos principais alvos da desavença dos manifestantes.

Outra convocação circula nas redes sociais nesta terça-feira para criticar o presidente que "só vai falar sobre o orçamento" e não sobre a pobreza, a pandemia e o flagelo dos ciclones Eta e Iota que deixaram um rastro de mortes e desaparecimentos por toda a América Central.

A indignação da população também inclui a gestão da crise de saúde por Giammattei, um médico de 64 anos, além de seu deficiente combate à corrupção. 

O chefe de Estado tem sido criticado por seu próprio vice-presidente, Guillermo Castillo, pela oposição e setores sociais, que denunciam precariedades nos hospitais e no atendimento aos setores mais afetados pelos confinamentos. 

O Congresso aprovou em março empréstimos de mais de 3,8 bilhões de dólares para atender à pandemia, mas apenas 15% desses recursos chegaram à população, segundo dados oficiais e de agências de auditoria. 

Dados do Ministério da Saúde indicam que o coronavírus já deixou 4.099 mortos e quase 120 mil infecções no país. 

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