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Harmonização facial

Harmonização facial: escolha precisa ser livre de pressões

Busca pelo procedimento estético está cada vez mais frequente. É preciso recorrer ao tratamento consciente de sua escolha e com segurança

Foto: Arthur de Souza/ Folha de Pernambuco

Definida como um conjunto de procedimentos injetáveis para tornar o rosto esteticamente de acordo com o que se deseja, a harmonização facial propõe embelezamento e rejuvenescimento. Em alta, o procedimento estético é cada vez mais procurado entre homens e mulheres. 

“Essa preocupação com a estética facial, orofacial ou harmonização facial é uma coisa antiga. Na Grécia já havia uma preocupação com essa estética que era muito próxima do que se fala hoje, a necessidade de uma harmonia, de um equilíbrio, de uma simetria no corpo humano, não na face apenas, mas no corpo humano como um todo”, pontuou o sociólogo Uaci Matias. 

Ainda de acordo com Uaci, é importante que o físico, o mental, o espiritual e as questões socio afetivas estejam alinhados. 

“Embora seja uma coisa bonita, como se fosse a busca permanente do ser humano por uma perfeição física, do ponto de vista psicológico, essa harmonia tem que ser do físico, do mental, do espiritual e das questões socio afetivas. O que se crítica é que o foco fica muito no físico. Mesmo que seja legal, bonito e exitoso, isso deixa a sociedade um pouco desequilibrada. Por outro lado, esse trabalho de harmonização orofacil pode melhorar a autoestima, as condições de vida e, consequentemente, deixar as pessoas mais felizes”, ressaltou. 

Mudança completa

O fisioterapeuta intensivista Filipe da Costa resolveu fazer o procedimento de harmonização facial há cerca de dois anos, porque não estava satisfeito com o formato do seu rosto e viu a necessidade de mudança.

“Eu não me sentia muito bem com o formato do meu rosto e existem vários modos que fazem com que a gente modifique ou diminuía certos pontos. No meu ponto de vista, meu nariz era um pouco grande. E eu fiz uma cirurgia plástica, mas não ficou menor, só diminuiu certas pontas. Depois meu rosto era muito fino, meu corpo era muito grande, porque eu treinava bem e estava ficando desproporcional, então eu quis harmonizar com esse intuito”, explicou o fisioterapeuta.

Para Filipe, o resultado do procedimento foi positivo e ele se sente satisfeito em como o seu rosto está atualmente. 

“Eu fiz a primeira harmonização em uma clínica de confiança com uma biomédica, foi bem singela, nem deu para notar tanto, depois comecei a fazer com mais frequência com um cirurgião-dentista. A sensação que tive é muito boa, de ver realmente meu rosto harmonizar como eu queria. A gente quer sempre ter um ajuste, para pelo menos deixar ao modo da atualidade. Eu precisava muito dar uma mudada no meu rosto, deixar um pouco mais quadrado, um pouco mais masculino”, complementou Filipe.

Impacto das redes sociais

Com forte influência, as redes sociais podem ser os principais meios para o crescimento do mercado da estética e da procura por procedimentos como a harmonização.

“A internet tem exigido muito, com esses filtros do Instagram, com essas exigências dos digitais influencers. O paciente chega no consultório querendo ficar um pouquinho mais novo e, na maioria das vezes, igual a algum influencer, com uma mandíbula bem marcada, uma sobrancelha arqueada. Então a harmonização tem sido uma busca para você melhorar a cada dia e retardar o seu envelhecimento. Cerca de 60% da procura do consultório é para algum procedimento de harmonização facial”, relatou a biomédica Natasha Montenegro.

Biomédica Natasha Montenegro atua na área de harmonização facial. Foto: reprodução 

Segundo a psicóloga clínica Suelane Anjos, de forma sutil, a sociedade faz cobranças ligadas à estética nos indivíduos. “Vemos muito nas pessoas essa insatisfação em relação a como elas se apresentam na sociedade e como a sociedade também faz uma exigência muito sutil pelas redes sociais, por exemplo, e pelas cobranças até no mercado de trabalho. Essa questão da estética, da aparência, acaba gerando um sofrimento, porque as pessoas acabam se cobrando por essa exigência. E algumas pessoas se adequam, procurando maneiras de estarem atendendo a esse contexto”, afirmou Suelane.

A psicóloga destaca ainda que, apesar de sermos seres coletivos, é necessário resguardar a individualidade.

“Muitas vezes, quando a gente está tão imersivo em uma massa, todo mundo acaba virando muito genérico e quando a gente mergulha nisso, a gente acaba se afastando um pouquinho de quem a gente é. Nós somos coletivos, claro, e também somos individuais, mas acabamos nos perdendo muito pela nossa contemporaneidade mesmo”, ressaltou.

Opiniões influenciam

De acordo com o psicólogo Arthur Amorim, procedimentos estéticos como a harmonização facial surgem a partir do desejo de mudança que a pessoa tem com relação a si ou da opinião do outro.

“O procedimento de harmonização facial está muito ligado à questão da autoestima e de como a pessoa se enxerga em relação aos outros. Às vezes, a gente ouve as pessoas dizerem que são criticadas por algo, ou tem algo que incomoda nelas. Por exemplo, um nariz maior, uma bochecha muito grande, disforme. Quando a gente fala muito dessa questão de mudança corporal, existe um fator chamado despersonalização, quando você não se vê como deveria. Isso acontece tanto antes do processo, como também pode acontecer após a mudança. Isso influencia, inclusive, no modo da pessoa agir em algumas situações”, destacou Arthur.

O psicólogo Arthur Amorim alerta para a necessidade de manter um acompanhamento psicológico. Foto: reprodução

Para o psicólogo é essencial que o paciente, antes de realizar o procedimento, tenha um acompanhamento psicológico para entender melhor as próprias questões.

“O ideal é que haja um acompanhamento psicológico, mas nem sempre isso acontece, para que a pessoa entenda que não vai ter uma mudança só física, mas também mental. Essa mudança vai influenciar em todos os tipos de relação que ela terá, as pessoas começam a tratar diferente e a pessoa começa a perceber isso, seja partir de um procedimento que tenha dado certo ou não. Com o apoio do psicólogo, ela também vai aprender a lidar com as próprias questões, de como se vê no espelho, o que ela está sentindo, porque vai haver uma alteração, seja positiva ou negativa”, pontuou.

Cuidados necessários

Procurar um profissional capacitado é o principal ponto para quem deseja realizar procedimentos estéticos invasivos como a harmonização facial, afirma o cirurgião plástico Marcelo Rodrigues da Cunha, regente do Capítulo da Face da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

“É muito importante que você tenha um profissional muito capacitado, que tenha pleno conhecimento da anatomia do rosto da paciente, porque eu sempre digo que a área do rosto é muito nobre. E a gente tem que ter alguns cuidados em relação a vascularização e a inervação do rosto. Você deve procurar também utilizar produtos que sejam aprovados pela Anvisa e de preferência que sejam aprovados pelo órgão regulador americano. A terceira coisa é o local de tratamento, é necessário que tenha os cuidados mínimos para que não ofereça riscos sanitários”, afirmou o médico.

Cirurgião plástico Marcelo Rodrigues da Cunha. Foto: acervo

Segundo o proprietário da unidade Recife da Emporium da Beleza, Francisco Costa, as clientes que procuram o estabelecimento visam aumentar a autoestima.

“O objetivo das clientes é se enxergar de uma maneira que agrade mais e fazer com que o processo de envelhecimento seja o mais lento possível. Nós explicamos a cliente o que é possível realizar com base na estrutura facial e tenta identificar se a gente realmente vai conseguir ajudar. Às vezes, a cliente tem uma expectativa muito mais alta que a realidade”, pontuou o proprietário.

De acordo com a cirurgiã-dentista Ellis Lombardi, os pacientes do seu consultório passam por um processo avaliativo antes de realizar o procedimento. “Todos os meus pacientes quando chegam ao consultório, preenchem uma ficha com todas as questões de saúde clínica. No final, tem uma questão perguntando se ele se sente emocionalmente apto a passar por esse procedimento. Depois que ele preenche, a gente faz fotos do paciente, para termos um banco de dados de como ele chegou. A partir disso, é o momento da nossa entrevista e eu pergunto qual é a queixa específica dele. Quando ele me confessa as questões que o incomodam sugiro os procedimentos”, explicou.

No caso de intercorrências, é importante o acompanhamento por profissionais habilitados e que identifiquem o problema rapidamente. “A questão das intercorrências está muito relacionada à demora no atendimento e reconhecer que houve uma intercorrência com o paciente, porque todo procedimento tem riscos, mas a questão não é o risco em si, é como você lida quando ocorre. Quando acontecer, o profissional tem que estar habilitado para poder resolver qualquer situação”, complementou Ellis.  

Possíveis complicações 

A partir de experiências próprias, a dentista e estudante de direito Rafaela Cavalcanti e a jornalista Priscilla Aguiar resolveram criar a ONG Estética de Risco (esteticaderisco.com.br) para auxiliar pessoas que foram vítimas de procedimentos malsucedidos ligados a estética, como a harmonização orofacial, após ambas passarem por momentos difíceis e de risco à saúde ao realizarem o tratamento.

Após realizar um procedimento no nariz com ácido hialurônico em um curso voltado para profissionais da área odontológica em 2019, Rafaela Cavalcanti teve parte do nariz necrosado. Mesmo alertando aos profissionais que realizaram o procedimento que estava sentindo muita dor ao chegar em casa, não teve o suporte necessário e imediato.

“Entrei em contato com as pessoas que eu tinha feito o procedimento e disseram que era normal sentir dor por volta de três dias. De madrugada, estava doendo tanto que eu retirei o curativo e a região estava inteira roxa. Mandei fotos para a equipe, dizendo que eu estava preocupada, nervosa, mas ficaram amenizando a situação e me passaram medicações. Depois de alguns dias, a dentista disse para eu ir até o consultório dela para colocar uma enzima, mas estava tudo necrosado já”, destacou.

Rafaela conta que decidiu procurar médicos sozinha e ficou internada. Entre procedimentos de reconstrução, após a cicatrização que deformou a sua narina, a dentista precisou tirar a pele de outras partes do corpo como nariz, orelhas e bochechas para colocar na região.

Rafaela Cavalcanti precisou tirar a pele de outras partes do corpo para colocar no nariz após a necrose. Foto: reprodução

“Estou fazendo terapia e tomo antidepressivo. Estou bem controlada, porque tem toda uma equipe por trás, mas tive dificuldades nessa questão de me ver novamente, porque é como se você tivesse perdido a sua identidade. O rosto de Rafaela de antes não é o de agora. Eu sou outra pessoa, estou aprendendo a viver e a me reconhecer”, complementou Rafaela.

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