Histórias perdidas entre as palavras

Quando o passado e o presente se encontram gerando novas histórias. Gente que não se conhece, mas que nesses acasos da vida acaba por dividir sentimentos que andavam esquecidos

Vidas CruzadasVidas Cruzadas - Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

“O que vi ali foi uma família inteira e feliz. A lembrança que me veio foi a da minha de anos atrás, quando éramos mais jovens. Não tive coragem de destruir as fotos e coloquei na cabeça que iria encontrar aquelas pessoas”, conta a escritora Si Cabral, 68 anos, que tem um sebo itinerante. Movida pela nostalgia e o desejo inexplicável de conhecer aqueles rostos, Si começou uma busca que muitos acreditavam ser impossível. Passou pelo menos seis meses levando os retratos para as feiras da rua do Bom Jesus, no Bairro do Recife.

Se numa ponta da história estava uma vendedora curiosa, na outra havia uma família que nem sabia daquela lembrança perdida. As caixas, que vinham envoltas de um sentimento de luto pelo falecimento da dona da coleção, Inês Barbosa de Andrade, foram doadas pela família como forma de ajudar pessoas que tiram o sustento de casa da venda de livros usados. Assim como o acaso fez com que o material fosse direcionado para a casa da escritora, no bairro de Afogados, fez com que a bióloga Arianna Falcão, 44, avistasse as fotos no meio da rua.

“Até hoje eu fico arrepiada com essa história e ainda mais com a felicidade dela em finalmente nos achar depois de tanto tempo. Fiquei bem impressionada e feliz”, confidenciou Arianna. O retorno das imagens sossegou o coração de Si e aqueceu a memória feliz daqueles parentes que superada a dor recordava momentos imortalizados ali.

A Carta perdida
Entre tantos achados e perdidos do sebo de Si Cabral, um outro item ganhou status de mimo da vendedora. Uma carta sem remetente, sem destinatário, de uma densidade emocional tão grande que ela a trata como preciosidade. Virou dela. Uma carta que pode não ter sido entregue e que passou a ter na escritora o destino. “Sinceramente, nunca procurei o dono. Quis que ela fosse para mim e assim foi. Nunca tive coragem de rasgá-la porque ela é linda.”

Te dedico
Além dos itens esquecidos, há as mensagens adormecidas. Registros personalizados, as dedicatórias também se multiplicam como sinal da anterioridade dos livros. Recados tantas vezes íntimos que acabam apropriados e reapropriados a cada novo leitor daquele exemplar. “Aquele livro, além do que ele é, do que o autor representa, do que o texto, tem uma história a mais. É uma história daquele exemplar”, comenta o poeta e ex-sebista Pedro Américo de Farias.

O valor agregado da dedicatória e do autografo que traz um diferencial muitas vezes cobiçado tanto por pesquisadores e colecionadores livros. Pedro Américo conheceu vários assim. Entre eles um promotor que ao longo da vida conseguiu mais de 500 obras autografadas, muitas delas de grandes autores do século 19. “Foi uma vida inteira fuçando sebos do mundo. Para ele, aquilo era uma cachaça.”

O mestrando em Comunicação Renato Contente é um desses apaixonados pelas pistas de personalidade. “A história das coisas me fascina. Tudo é impregnado de história, mas algumas coisas deixam transbordar isso um pouco mais. Tudo que tem uma dedicatória, uma assinatura, um pouco da personalidade de quem o manuseou antes é importante para mim.”

Foi também com essa percepção que se apropriou da personalidade da avó com quem pouco conviveu, mas que deixou um livro de receitas para a família. “O livro de receitas foi o modo que tive de conhecer minha avó, porque eu não pude conviver com ela. Nosso caminho se cruzou ali, onde estava não só o que ela gostava de cozinhar, mas recortes de revistas femininas e jornais. Inclusive, tinha uma frase dela que eu era obcecado: ‘Emprestar é um prazer devolver é um dever’”, relembra.

O destino dos esquecidos
O sebista José Agostinho da Silva, 56, é um dos mais antigos do ramo no Recife e já viu de um tudo esquecido dentro de livros. “De uma rosa, a um bilhete ou um broche. Contas, jogos de loteria. Até cabelo já encontrei.” Segundo ele, é muito difícil folhear qualquer exemplar e não dar de cara com algum item abandonado ali. Não raro, dinheiro e cheques estão escondidos entre as páginas. “Há muitos anos dei de cara com 100 dólares perdidos em um livro de romance do estoque." Durante esses 25 anos garimpando livros, Agostinho virou um ponto de referência para vários personagens curiosos: colecionadores de dedicatórias, apaixonados por postais, loucos por marcadores. Há quem o procure apenas para saber que pequenos itens esquecidos ele tem por ali.

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