Homem denuncia agressão e homofobia no Carnaval de Olinda: "Simples fato de existir incomoda"
De acordo com a vítima, o crime aconteceu na altura do Clube Atlântico Olindense, no bairro do Carmo
Um homem denunciou ter sido vítima de agressões e homofobia por um grupo durante o Carnaval de Olinda. Augusto Mendonça relatou o caso em publicação nas redes sociais, que logo viralizou.
No vídeo, o rapaz aparece com o olho inchado e com hematomas, que são sinais de agressão. "Isso no meu rosto não é maquiagem, infelizmente", disse.
Augusto explica que estava curtindo a programação de blocos nas ladeiras da cidade. Ele estava montado de drag - arte de performance que utiliza de maquiagem e adereços como peruca, dentre outros, para construir uma persona feminina - e pretendia surpreender os amigos na folia.
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De acordo com a vítima, quando avistou as pessoas que o agrediram pela primeira vez, elas estavam próximas a uma viatura policial, na altura do Clube Atlântico Olindense, no bairro do Carmo. Foi aí que começou a ser insultado e agredido.
"Como aquela rua estava movimentada, havia inclusive um carro de polícia ali atrás deles, claro que a gente pensa que pode ser uma ameaça, mas ao ver o carro da polícia, você não imagina que pode acontecer alguma coisa", disse.
Neste momento, segundo a vítima, a viatura passou pela rua, e os insultos homofóbicos começaram. "O primeiro grupo passou por mim e um dos caras falou 'Olha que bicha feia'. Eu respondi 'boa noite', passei e segui. Não ia reagir, né?", explicou.
Em seguida, ele foi abordado por outro grupo e agredido. Optou por não revidar, pois pensou que possivelmente geraria mais agressões.
"Um desses (membros do grupo) me deu um soco. Não sei se foi um soco ou um tapa, mas acertou meu olho. Eu me abaixei, e o sentimento que veio na hora logicamente foi de revolta, de ir para cima. Mas eu não podia fazer nada a não ser lutar pela minha vida porque se aqueles 10 ou 15 se juntassem, talvez eu não estivesse mais aqui", relatou, emocionado.
Processando a dor
Ainda tentando processar a agressão e mais um episódio de preconceito pelo qual passou, a vítima chegou a esconder dos amigos e familiares o que havia sofrido. "Não queria acabar com o Carnaval deles. Contei que havia caído da rede, e meio que acreditaram 'desacreditando'", disse.
Após ser agredido, ele seguiu andando e reparou que havia sangue no seu olho. Augusto chegou a esperar um pouco para ver se alguma nova viatura da polícia passava pelo local para que pudesse denunciar o caso, talvez até prender algum suspeito, mas isso não aconteceu.
Augusto contou, ainda, que chegou a se culpar por não ter se afastado mais do grupo ao avistá-lo. "Eu vacilei por ter continuado no mesmo nível de distância deles. Poderia ter me afastado mais, ido para o lado, mas eu também pensei que se me afastasse poderia ter sido pior, porque essa galera é muito desconfiada e tudo é motivo de agressão", disse.
"A gente nunca imagina que isso pode acontecer com a gente (...). Eu sozinho não podia fazer nada. Só podia lutar pela minha vida e foi o que fiz", relatou.
Homem denuncia agressão e homofobia no Carnaval de Olinda | Foto: Instagram/ReproduçãoRevolta
Para Augusto, o sentimento que fica é de revolta, ainda mais por se tratar de mais um crime de homofobia no estado.
"Esse vídeo é para mostrar o quanto a homofobia existe. O quanto o simples fato de você existir incomoda. Eu não sou travesti ou trans. Eu estava, digamos, com uma fantasia, e sofri a agressão. Talvez se eu estivesse de boy não tivesse sofrido. Talvez", começou.
"Essa doença é real no nosso estado, país e mundo. O quanto o fato da existência de uma pessoa incomoda a outra (...) Temos que combater esses criminosos, esses montros que estão por aí", completou.
A homofobia é equiparada ao crime de racismo, e é imprescritível e inafiançável. O delito pode render penas de reclusão e multa como uma forma de proteção da população LGBTQIA+ contra a discriminação.
"A gente incomoda por ser mais alegre, mais livre. O soco que esse cara deu em mim foi um soco em algo que tem dentro dele mal resolvido. O soco que ele deu foi para matar, aniquiliar e destruir um rosto que é livre, que se pinta e se analtece. Que coloca brilho, alegria e vive. Ele tentou apagar um rosto que é livre, mas não vai conseguir tirar meu sorriso nem o de ninguém", finalizou.
Próximos passos
No mesmo dia, Augusto recebeu atendimento médico e não precisou receber pontos. Ele vai tentar conseguir imagens de câmeras de segurança do local que mostrem as agressões.
À Folha de Pernambuco, ele ainda informou que passou por exame de corpo de delito nesta quinta-feira (19) e está formalizando um boletim de ocorrência.
Procurada, a Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) informou que não há registro da ocorrência. "Ratificamos a importância do registro através do 190 no momento do fato, assim como o registro de boletim de ocorrência na Delegacia de Polícia Civil", completou a corporação.
A Polícia Civil também informou que não localizou a queixa.

