Imigrantes e refugiados: sonho de vida e desafio de sobrevivência

São várias histórias de superação e esperança de uma vida melhor seja para aqueles que decidiram largar tudo para poder sobreviver ou para quem encontrou em solo brasileiro uma forma de se redescobrir culturalmente

Antônio Paracare, venezuelano que sofreu um acidente de moto e por isso perdeu o emprego no seu país - Fazem 6 meses que a Ong Aldeias Infantis trouxe o primeiro grupo de Refugiados da Venezuela.Antônio Paracare, venezuelano que sofreu um acidente de moto e por isso perdeu o emprego no seu país - Fazem 6 meses que a Ong Aldeias Infantis trouxe o primeiro grupo de Refugiados da Venezuela. - Foto: Brenda Alcântara

Solo fértil, com novas oportunidades de vida e povo acolhedor. Essa foi à fama construída pelo Brasil desde o século 20, quando abrigou diversos alemães, italianos e japoneses, entre outras nacionalidades. Mas esse fluxo migratório tornou-se decrescente ao longo dos anos. O país só voltou a ser uma rota atrativa para estrangeiros em meados de 2010, em virtude da crise política e socioeconômica em países da Europa, África e da América Latina.

Nesta edição vamos falar sobre histórias de superação de quem teve que largar tudo para não ver seus filhos morrerem de fome, em virtude das dificuldades financeiras que assolam todo um país, e pessoas que viram no Brasil a chance de dar um sentido diferente em suas vidas por causa da riqueza cultural e do senso de humanidade.

“O Brasil é um país diferente. É o único país para viver livre de verdade”. Essa foi a definição encontrada pelo egípcio Mohamed Gouda Attia, 46 anos, que casou-se com uma brasileira e foi morar em Minas Gerais em 2016. O casamento não deu certo, e a permanência no estado era difícil, já que não há mesquita - templo sagrado para os muçulmanos. Ele partiu para São Paulo, mas a vida corrida e o alto custo o fizeram migrar para outra cidade.

Foi no Recife, há um ano, que ele encontrou espaço para ficar e respeito a sua religião. “Passei três meses na mesquita daqui, as pessoas gostam de ajudar. Gente de Recife é igual a minha família, são diferentes e não tem cabeça fechada”, afirma. Para Mohamed Gouda, o grande problema tem sido a forma como a televisão passa a imagem de quem é muçulmano e as pessoas acabam fazendo ligação aos ataques terroristas em diversas partes do mundo. “Não somos um povo fechado, cabeça dura. Na minha terra tem igreja com mais de 1.500 anos, o dobro da idade do Brasil. Respeitamos o cristianismo e os muçulmanos. Mas a gente aqui do Recife tem sido muito boa e há um respeito pela minha religião”, disse.

Formado em técnico de eletrônica, o egípcio Mohamed encontrou uma oportunidade fora da sua área de atuação, mas que tem lhe aberto portas no Estado. Ele e mais dois imigrantes fazem parte do programa “Cultura sem Fronteiras”, da Livraria Cultura. “O setor de RH da praça de São Paulo identificaram uma demanda muito grande de imigrantes lá, então eles lançaram esse projeto para todas as unidade dos país.

A princípio, tivemos muita dificuldade aqui por falta de informações e dados para termos acesso a estas pessoas”, explica o gerente de loja Erydson Alves. Após entrarem em contato com Cáritas Brasileira no Recife, a organização disponibilizou alguns currículos. “Notamos que eles entraram um gás completamente diferente dos demais colaboradores. Uma alegria contagiante. E com uma bagagem intelectual e cultural gigante e troca na equipe é muito proveitosa”, comenta.

O egípcio Mohamed Gouda Attia encontrou no Recife um lugar para praticar sua religiosidade com respeito

O egípcio Mohamed Gouda Attia encontrou no Recife um lugar para praticar sua religiosidade com respeito - Foto: Brenda Alcântara

 

Um dos primeiros a ser contratados pelo programa, no ano passado. Pierre Richard Gerisma, 38 anos, decidiu deixar o Haiti após se encantar com a riqueza cultural do Brasil. Em seu país de origem, Pierre trabalhava na embaixada: ele fala quatro idiomas. “Vim para o Recife no início de 2014, depois decidi que precisa voltar para aprender o idioma e desenvolver essa cultura tão encantadora”, comenta, retornado à capital pernambucana em 2016. Definindo-se como uma pessoa de natureza alegre e com um sorriso largo constante no rosto, Pierre afirma que receptividade brasileira é real. “Minha vida é uma aventura, e ela é feita por contatos com pessoas. Não importa o ambiente político. Sempre encontro pessoas do bem e sou grato desde que cheguei até agora”, finaliza. 

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Enquanto os dois colegas não possuem planos para sair de Pernambuco, o angolano Fernando Wilson Sabonete, 53 anos, alimenta o desejo de voltar para Angola com sua família. Há 17 anos no Brasil, ele e a esposa vieram para estudar, mas já passaram por muitas dificuldades para criar os três filhos biológicos e mais cinco adotivos. “Não gostava das histórias que a mídia passava sobre o Brasil, falando da pobreza. Se já moro num país pobre porque moraria em outro na mesma situação?”, se questionou antes de mudar para cá. Fernando é formado em Teologia e Letras com mestrado em Antropologia.

Ele tem esperança em fazer seu doutorado e voltar para a Angola como professor. “Meu primeiro contato aqui foi dentro da igreja, sou cristão. Fui muito bem acolhido. A situação depende muito do meio em que estava inserido, por isso ficamos. Os problemas que tivemos foram mínimos e não interferiu muito na nossa vida”, disse.

Pierre Richard Gerisma é do Haiti e foi um dos primeiros contratados do programa Cultura Sem Fronteiras

Pierre Richard Gerisma é do Haiti e foi um dos primeiros contratados do programa Cultura Sem Fronteiras - Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

 

Situação dos Refugiados
É importante ressaltar que, para ser considerado refugiado, a pessoa que deixa seu país de origem devido ao fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade ou pela grave e generalizada violação de direitos humanos. De acordo com o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), são reconhecidos no Brasil, 10.145 estrangeiros. Apesar de a maior nacionalidade ser da Síria (39%), o recente fluxo de refugiados venezuelanos tem causado uma mobilização nacional muito forte.

De acordo com o IBGE, entre 2015 e 2017, 20,5 mil venezuelanos migraram para Roraima, número que deverá aumentar em 185,4%, ao considerar a projeção de 58,5 mil entre 2018 e 2022. Em Pernambuco, a ONG Aldeias Infantis SOS Brasil, localizada no município de Igarassu, Litoral Norte do Estado, tem acolhido os refugiados desde julho - são 102 venezuelanos na instituição atualmente. "Eles são muito pró ativos, estamos buscando parcerias para oferta de empregos formais. Contamos também com a ajuda da população. Como muitas mães tem filhos pequenos e há uma carência de creche no município, por isso vamos lançar neste mês o projeto Educação, com profissionais capacitados para ficar com as 35 crianças da instituição", explica o coordenador do projeto Brasil Sem Fronteiras, Carlos Roberto dos Santos.

Sem conseguir o mínimo para suprir as necessidades básicas de uma vida com dignidade, a auxiliar de cozinha Erickner Morales, 24 anos, não queria ver seus filhos mortos por causa da desnutrição. Fator que se tornou cotidiano em diversas cidades na Venezuela. Mãe de duas meninas, uma de seis anos e outra de apenas dois, ela soube pela irmã sobre o processo de imigração para Roraima. "O que mais falta lá é o serviço de saúde, na minha cidade, não tínhamos médicos e era muito sofrimento. Mesmo trabalhando, não conseguíamos dinheiro suficiente para comprar comida. Só olhava para minhas filhas e chorava muito", comentou. O marido, Antonio Paracare, 33 anos, é mototaxista, mas depois de um acidente ficou impossibilitado de trabalhar e só no Brasil conseguiu algum tipo de tratamento. "Nós sentimos muito medo ao vir para cá, na rua não nos entendiam e ninguém queria nos aceitar", disse Erickner falando de sua estadia em Roraima. Eles estão há um mês em Igarassu e querem apenas uma chance para recomeçar suas vidas: um emprego.

O mesmo desejo de conseguir um trabalho para reconstruir suas vidas é visto pelo casal Yean Carlos, 34 anos, e Yasmin Pulido, 33 anos. Eles tem dois filhos, um menino de seis anos e uma menina de oito anos que possui autismo. O otimismo de que vão conseguir viver melhor no Brasil, só perde um pouco de espaço quando precisam relembrar de todos os obstáculos que enfrentaram na Venezuela. Yean trabalhava no Ministério da Justiça, a esposa era auxiliar de enfermagem. A vida era estável até 2016. "Depois tudo começou a ficar difícil, não conseguíamos mais arcar com os custos do tratamento de nossa filha, era isso ou comprar comida. Decidimos vir para o Brasil, passei 25 dias dormindo na rua e só depois tive ajuda de militares da região", relembrou.

O salário mínimo na Venezuela equivale a R$ 125 reais. "Sabemos que a situação para os brasileiros também não está fácil, mas a vida está bem melhor aqui e ter esperança de tratamento para minha filha. Não sabemos como nosso país estará daqui a alguns anos, mas queremos que melhore, gostaríamos de poder voltar. A Venezuela é muito rica, mas é mal administrada", afirma Yasmin.

País acolhedor?
Apesar de o solo brasileiro não ser tão restritivo a chegada de estrangeiros, como ocorre nos Estados Unidos, por exemplo, não há no país grandes avanços no que tange as políticas públicas para imigrantes. Em 2017, foi sancionada pela presidência da República a Lei de Migração (Nº 13.445/2017), que entre suas diretrizes está o repúdio e prevenção à xenofobia, racismo e quaisquer formas de discriminação. Também garante a não criminalização da migração e a igualdade de tratamento e oportunidade. Ainda assim, de acordo com o coordenador de curso de Ciências Políticas da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), professor Thales Castro, mesmo que no “campo humano” sejamos de fato acolhedores a esta população.

“No campo institucional e de políticas públicas nós precisamos fazer muito dever de casa para obter um acolhimento fidedigno aos estrangeiros. Isso significa integrá-los na sociedade fornecendo ferramentas para que eles sejam inseridos nos mercado de trabalho, com capacitações, além da questão linguística para estas pessoas”, explicou.

Ele também não vê com clareza como será a vida dos imigrantes e refugiados a partir do novo governo. “Essa não foi uma questão muito trabalhada no período eleitoral de como será tratada a questão da política migratória. Ainda há muitas lacunas e incertezas, mesmo com a nova lei instituída em 2017, mas é preciso perceber naturalmente que o estrangeiro pode contribuir muito”, afirmou o professor.

Dados da Polícia Federal apontam que a população estrangeira no Brasil é formada por cerca de 750 mil pessoas, um contingente que chega a ser muito abaixo do fluxo recebido em países como Alemanha. Em Pernambuco existem 26.286 imigrantes residentes ativos no estado.

Mesmo com a fama de sermos receptivos a outras nações, é a partir do século 21 que as manifestações de xenofobia e preconceito começam a aumentar. Segundo o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, em São Paulo, Igor Fuser, a ideia de que o imigrante vem para tomar o lugar dos nativos, é um dos motivos para esse crescimento. “A competição desenfreada, se agrava nos períodos de crise e leva grande parte da população a ver nos recém chegados rivais na busca de vagas no mercado de trabalho. O segundo motivo tem a ver com o racismo e o mito da suposta superioridade dos povos europeus. É o desprezo por imigrantes não brancos, vindos da Bolívia, Peru, Paraguai, do Haiti e de países africanos”, criticou.

É preciso ver a questão da migração com mais positivimos, caso haja uma contrapartida de recursos para se ter essa estrutura em nosso território. "A integração de pessoas migrantes deve levar em conta que, para além de produzir economicamente e pagar impostos, migrantes são pessoas perfeitamente capazes de aportar socialmente, construindo cidades saudáveis, culturalmente diversas. Um país como o Brasil, que é enorme, se beneficiaria muito do contato com outras culturas, do conhecimento que essas pessoas trazem, dos diferentes pontos de vista para a resolução de problemas, por exemplo", explicou a professora de Relações Internacionais da Universidade da Integração da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB/Bahia), Juliana Vitorino.

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