Investida arrojada e criminosos que se integram interestadualmente

Especialistas acusam falta de verba para investir em inteligência e estrutura policial, o que faz com que o Estado permaneça em desvantagem em relação aos criminosos

Buraco em muro explodido abriu caminho para a BrinksBuraco em muro explodido abriu caminho para a Brinks - Foto: Arthur Mota

O Recife se quedou encurralado na Zona Oeste na madrugada da última terça-feira (21). Bloqueado, em algumas centenas de metros, onde mais de 20 homens dispararam centenas de projéteis de vultoso calibre, explodiram muros, roubaram centenas de milhares de reais de uma transportadora de valores e fugiram. Uma ação que, apesar de frequente em várias cidades do interior, surpreendeu os recifenses, que não estão acostumados a tamanha ousadia. O modus operandi foi semelhante aos usados em outras cidades, onde explodem os caixas eletrônicos.

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A Capital se apequenou tal qual essas cidades. Viu os bandidos que fugiram em vários carros deixarem para trás grampos com a função de furar o pneu dos veículos que tentaram seguir o bando. “Eles agem da mesma forma. São grupos que se integram interestadualmente. Têm tentáculos que chegam ao crime internacional e faz armas chegarem, principalmente pela fronteira do Paraguai”, explica o especialista em em segurança pública Wilson Damázio, que exerceu a função de secretário de Defesa Social de Pernambuco durante o Governo Eduardo Campos.
Damázio, que atualmente trabalha justamente no ramo de segurança privada para o transporte de valores, mostra que o alvo também foi previsível. “Eles focam principalmente com carros-forte e bancos. Isso mantém a identidade desses grupos.” Lembra ainda as diferentes naturalidades dos integrantes desses bandos. “Não existe mais um grupo de criminosos de Pernambuco ou da Paraíba. São vários sotaques. O problema é que, enquanto eles trabalham assim, cada estado trabalha por si só e tem suas próprias peculiaridades na forma de enfrentar o crime”, alertou.

A solução do problema, para Damázio, é a criação de um Plano Nacional de Segurança Pública. Plano que ele sugeriu com insistência quando secretário de Defesa Social. Com esse plano, as inteligências estaduais se integrariam, diminuindo a desvantagem do poder policial.

O problema é também um dos mais citados pelo sociólogo criador do Mapa da Violência, Julio Jacobo Waiselfisz. “O Plano vem sendo anunciado desde o ano 2000 e nunca foi aplicado de verdade. Isso e o fato de o crime estar se profissionalizando são questões primordiais. Não há recursos financeiros para investir em inteligência e estrutura e, por isso, podemos dizer que a situação só vai piorar até, pelo menos, o final do ano que vem”, especulou.

Estímulo
O valor roubado e a ineficiência da polícia em prender os bandidos estimula a criação de novos bandos e a permanência dos criminosos nas ações delituosas. Para o doutor em economia do crime pela Universidade de Berkeley, Luiz Marcelo Berger, ações como essa mostram aos bandidos que o crime compensa. “Além de o risco de ser pego ser pouco e as consequências serem poucas, o lucro é altíssimo e faz com que o grupo, que pode ser pensado como uma empresa, tenha chegado no seu objetivo. Por que não tentar? Por que parar?”, indaga.

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