Irle Firmo, a defensora do pau-brasil

Por meio do projeto Criando Raízes ela perpetua esse amor que o seu professor tinha ao meio ambiente

Pau-BrasilPau-Brasil - Foto: Leo Motta/Folha de Pernambuco

Foi na juventude que a ambientalista Irle Firmo, hoje com 75 anos, teve o seu primeiro contato com o pau-brasil (Caesalpinia echinata). Quem a apresentou à espécie, nativa da Mata Atlântica, foi um padre que a ensinou as ciências da natureza. Ele possuía um pau-brasil em sua residência e gostava de distribuir sementes por onde circulava. Mas nem fazia ideia que estaria dando um presente para Irle: hoje, por meio do projeto Criando Raízes, ela perpetua esse amor que o seu professor tinha ao meio ambiente. As mudas e sementes que a ambientalista distribui vêm a partir de um pé de pau-brasil que tem em seu quintal. Como prova do amor que sente pela árvore, ela carrega um delicado relicário no pescoço, que em seu interior há uma semente de pau-brasil em formato de coração. No momento, Irle cuida de 30 mudas de para serem plantadas em um bosque, ao lado da capela Nossa Senhora das Graças, dentro do Instituto Ricardo Brennand, no bairro da Várzea.

Dona Irle, de onde surgiu a ideia de fundar o projeto Criando Raízes?

Na verdade, nada foi idealizado. O projeto nasceu antes mesmo de eu dar nome a ele. Comecei a distribuir as primeiras mudas muito antes de 2009. Fui gostando de "plantar", as pessoas começaram a se interessar e a pedir a mim. Foi aí que eu comecei a fazer eventos de distribuição e quando começou a ganhar força, dei nome ao projeto. Num mundo em que só se fala em violência, por quê não fazer algo para o bem? Cuidar do meio ambiente faz bem. E até quando Papai do Céu me der saúde, vou levantar essa bandeira. Gosto de distribuir sementes, plantar, distribuir mudas, divulgar o meu conhecimento para qualquer pessoa.

É notório o amor que a senhora sente. Poderia contar como foi esse fato inusitado de encontrar uma semente em formato de coração?

Era fim de tarde. Estava varrendo o quintal e, de repente, vi um pontinho escuro em formato de coração. Quando peguei, era uma semente. Na hora, fiquei surpresa e liguei para a Fundação pau-brasil. Eles disseram que nunca ouviram falar de nada igual. Não pode ser outra coisa além de um gesto de gratidão pelo cuidado que tenho com a minha árvore. Ele me deu o recado e eu, prontamente, envernizei e o carrego pendurado no pescoço. Só o tiro quando vou tomar banho.

Com quem aprendeu a ser guardiã da natureza?

Esta árvore (de pau-brasil) que está em meu quintal e me dá essa sombra maravilhosa, ganhei de um padre que foi meu professor na juventude. Ele possuía um pau-brasil em sua casa e gostava de distribuir sementes e mudas por onde circulava. Foi com ele que aprendi a amar e cuidar da natureza. E perpetuo todo o bem que ele me passou adiante. Inclusive, ele nem sabia que estava me dando um grande presente, pois é a partir desse pau-brasil que recolho as sementes e distribuo em saquinhos para as pessoas.

Além disso, a senhora leva alguma outra lembrança desse pau-brasil?

Vou contar algo que até parece piada. Um dia, aguando as plantas, eu pensei: "quando eu morrer e, porventura, for direto para o inferno, as minhas plantas vão dizer 'pode tirar ela daí, que ela dava água para a gente todos os dias'". Eu achava que era só uma fantasia da minha cabeça, mas Deus escutou e me deu uma missão. Acredite você que levei dez dias para apanhar do quintal exatas 1.110 mudas. Até o taxista que veio me trazer em casa, saiu daqui com as duas mãos cheias de sementes. Foi muito engraçado.

A senhora tem ideia de quantas mudas e sementes já distribuiu?

Ah, incontáveis. Coloca nessa conta mais de 400 mudas e mais de mil sementes. Só para a Colônia Penal Feminina dei de presente 100 sementes, isso há quatro anos. Dessas, 75 brotaram. As presidiárias até fizeram uma feira de ciências e falaram sobre a história do pau-brasil. Fiquei muito orgulhosa e feliz, na época. Até a minha sobrinha-neta, Giovana, entrou na pegada. A árvore que tenho na minha calçada, ela plantou quando tinha 2 anos. Lembro até que quando Giovana completou 7 anos, eu perguntei: "Ô, Gio, por que em vez de distribuir lembrancinhas, a gente não dá pau-brasil aos seus coleguinhas?". Ela amou. E até hoje é uma defensora do pau-brasil.

Qual a importância de as pessoas comprarem essa ideia?

Apesar de muitos não se darem conta, o replantio é importante. Plante uma árvore e você economiza no ar condicionado. E pau-brasil é facil de manejar, plantar, além de se adaptar facilmente por ser nativa da nossa região. Só é preciso ter boa vontade, coisa que ainda falta muito entre as pessoas. Muitas acham que replantar é obrigação do poder público, mas essa é uma responsabilidade de cada um. Nós que temos que cuidar do meio ambiente. É a nossa casa.

Ao distribuir as sementes, a senhora repassa essa conscientização?

Claro. Reforço com um bilhetinho em cada saco de semente que distribuo, além de falar com as pessoas. Mas não é só a natureza que as pessoas devem cuidar. No papel, deixo a mensagem em letras garrafais "Plante a semente de pau-brasil na terra e a da fraternidade no seu coração". O que quero dizer com isso é que o seu coração é a terra em que você pode mandar. Que nele você deve plantar os melhores sentimentos. E são esses sentimentos as sementes que você deve levar.

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