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Irreverência das Virgens do Bairro Novo invade Olinda

Celebrando 67 anos de resistência que venceu período de censura, as Virgens de Bairro Novo reúnem cores e alegria neste domingo (16)

Virgens de OlindaVirgens de Olinda - Foto: Léo Malafaia/Folha de Pernambuco

Difícil pensar em um símbolo que traduza melhor a irreverência do Carnaval de Olinda do que as Virgens de Bairro Novo. Famoso pela multidão de homens fantasiados com roupas femininas, o bloco celebra 67 anos de folia em mais um desfile de parar o trânsito da avenida Getúlio Vargas neste domingo (16). Uma história que perpassou por período de censura e hoje reacende a diversidade, emocionando quem participa dela. “É uma família. A liberdade, a brincadeira que um tem com o outro. Todo mundo fica amigo. Por isso, prospera”, opina Luciano da Silva, um dos diretores da agremiação.

Embalado por 11 trios elétricos, com atrações como as bandas Amigas, Sedutora e Asas da América, o cortejo sairá às 12h da praça 12 de Março, por um percurso de 2,5 quilômetros até o prédio da Caixa Econômica de Casa Caiada. Mas a brincadeira mesmo começa mais cedo. Após um café da manhã, às 8h, no Hotel 5 Sóis, as Virgens seguem até o ponto de concentração do bloco, onde, a partir das 9h30, será realizado o concurso tradicional da agremiação, que julgará os desfilantes divididos em sete categorias: Mais Tímida, Mais Mal-Amanhada, Mais Sapeca, Luxo, Grupo, Originalidade e Destaque.

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Além disso, a edição de 2020 homenageia dez personalidades, incluindo o vice-prefeito de Olinda, Marcelo Botelho, a jornalista Bianka Carvalho, o cantor Ed Carlos e o Maestro Spok. Uma festa para esquentar o último fim de semana antes da Festa de Momo propriamente dita, que, desde o ano passado, conta com a presença das “Virgens na Ladeira”, no domingo de Carnaval, às 11h. “É uma forma de a gente se encontrar e se confraternizar depois do desfile”, considera Luciano da Silva.

Fundado no dia 8 de fevereiro de 1953, o bloco começou com um grupo de amigos que se reuniam no Carnaval para jogar bola na beira-mar de Olinda. A condição era que os peladeiros fossem vestidos de mulher. No início, o desfile era na orla, mas, à medida que foi crescendo, passou para a avenida Getúlio Vargas e hoje se concentra na praça onde fica a sorveteria Bacana, um ponto icônico na cidade.

Nesses 67 anos, a agremiação cresceu com a própria evolução do Carnaval. “As Virgens já saíram com o carro do alô-alô”, lembra Luciano. “Um carro de som e as Virgens desfilando. E hoje você vê o tamanho. Há anos fazemos o desfile com o trio do Asas da América”. Para ele, a grande inspiração dos primeiros foliões fantasiados eram as celebridades da televisão e da música, entre elas atrizes de novela e cantores como Lady Zu e Ney Matogrosso. Outra época “de ouro” foi entre as décadas de 80 e 90, marcada pelos shows de Almir Rouche. “Ele vinha no trio da Turma do Pinguim, de Igarassu. Não tinha como falar nas Virgens do Bairro Novo sem falar em Almir Rouche”, relembra.

O operador de informática aposentado Paulo Pessoa acompanhou parte dessa trajetória. Ele tem 65 anos e sai no bloco desde os 19. “É muito tempo de safadeza, mas é legal”, brinca. A primeira vez que desfilou foi depois de virar a noite no Baile Municipal. “Era um grupo imenso, uns 20. A gente chegou direto na orla para curtir uma última cerveja e aí viu o pessoal todo reunido. Resolvemos participar. Fomos à casa de um colega próximo, arrumamos umas roupas da doméstica que estavam disponíveis, saímos e gostei”, conta.

Outro folião histórico chama-se Antônio Corrêa, o Dando, 63. Dos 44 concursos de que participou, venceu 42, a maioria na categoria Luxo. “Eu faço roupa para as Virgens. Uma vez uma senhora pediu para tirar uma foto comigo. Ela vinha sempre, mas, no ano anterior, estava doente e chorou quando me viu com a fantasia na televisão. Eu nem ando. Todo mundo quer tirar foto”, comenta. Funcionário público aposentado, ele lembra o tempo em que havia mais controle sobre quem podia entrar no bloco, durante a ditadura militar. “Perguntavam onde [a gente] trabalhava, onde estudou, quando estudou. Não podia sair um ‘rapaz alegre’. Hoje sai todo mundo”, fala o brincante, pai de quatro filhos. “Eu vou até o corpo aguentar”.

Sobre o controle do público, o diretor Luciano da Silva ressalta que a visão sobre a sexualidade mudou ao longo do tempo. “Existia isso nos anos lá atrás, mas hoje, além de não poder aplicar esse tipo de situação, as coisas inovaram. Só continua a característica de um desfilante antigo indicar um colega para evitar confusão. Se alguém causar problema, não inscreve mais no ano seguinte”, afirma.

Como é comum no Carnaval, a irreverência das Virgens também abre espaço para a sátira política. O peixeiro Altairo Barbosa de Lima, 57, vai trazer referências ao derramamento de petróleo cru que poluiu as praias do Nordeste no fim do ano passado. “Eu mesmo elaboro minha fantasia. Já fiz o Sertão, Fome Zero, a cata-lixo. E neste ano vai ser ‘SOS Mar, o óleo mata’. Um vestido estampado, com uma lata na cabeça, um peixe morto, um avental de voluntária”, revela. “O importante é estar aqui, desfilando. É muito gratificante. Não tem moeda que pague”.

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