Jornada de Bergoglio na periferia de Buenos Aires só teve visibilidade na Argentina após virar papa
Em seu país natal, o Pontífice confrontou dos Kirchner a Macri, denunciou 'pobreza extrema' e levou missas a favelas portenhas
Em março de 2013, o então cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, partiu da capital argentina dizendo a seus familiares, amigos e colaboradores que passaria alguns dias, talvez semanas, em Roma, para participar do conclave que escolheria o sucessor de Bento XVI. A todos os que sugeriam que ele pudesse ser o sucessor, Bergoglio respondia a mesma coisa: “Não, isso é impossível”.
Um desses colaboradores era Alejandro Russo, reitor da Catedral de Buenos Aires, que morava no mesmo prédio que Bergoglio, no centro portenho. Um edifício antigo, onde funciona o Arcebispado portenho e onde o ex-cardeal ocupava um pequeno quarto, fiel a seu estilo simples e austero.
Em entrevista ao canal de TV Orbe21, criado quando Bergoglio era Arcebispo e dedicado à comunidade católica argentina — que, segundo o Censo de 2022, representa cerca de 62% do total da população —, Russo contou que, “no dia em que recebeu o telefonema de Roma com a convocação, ele [Bergoglio] me chamou. Quando cheguei a sua sala estava ao telefone, falando italiano. Me disse que viajaria para o conclave, e eu disse que ele seria o próximo Papa”.
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Os preparativos foram rápidos. Um familiar o levou de carro até o aeroporto internacional de Ezeiza como, segundo Russo, sempre acontecia. E Bergoglio pegou o voo que mais gostava, da companhia Alitalia, que sai de Buenos Aires ao meio-dia.
— Ele viajou na classe turista, como costumava fazer. Lembro que uma pessoa lhe ofereceu pagar a diferença para ir de executiva ou até mesmo na primeira classe, mas ele não aceitou. Me perguntou se podíamos usar esse dinheiro para obras de caridade — comentou Russo na entrevista ao canal de TV no qual Bergoglio apresentou, durante muitos anos, o programa “Bíblia, diálogo e gente”.
O arcebispo portenho não era muito conhecido entre os argentinos, não costumava dar entrevistas e sua prioridade era estar em contato com setores humildes da população. O nome Bergoglio aparecia nos jornais quando o cardeal usava suas homilias em datas importantes do calendário argentino para fazer críticas aos políticos e governos locais. Sua filiação política nunca foi revelada, mas na Argentina muitos acreditam que Bergoglio sempre foi peronista.
Embates com governos
Mesmo tendo confrontado com governos peronistas como os dos ex-presidentes Néstor e Cristina Kirchner (2003-2015), o ex-cardeal argentino, segundo algumas pessoas que o conheceram, se identificava com o movimento fundado na década de 40 pelo general Juan Domingo Perón. Muitos dos padres argentinos que são considerados seus discípulos, os chamados “padres das favelas”, que atuam em comunidades carentes de Buenos Aires e da Grande Buenos Aires, têm a mesma tendência política.
Isso não impediu Bergoglio de protagonizar embates com os governos kirchneristas. Em 2010, quando o Congresso argentino se preparava para aprovar a histórica lei que permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o então cardeal assegurou, em carta enviada aos quatro principais monastérios da cidade, que o projeto promovido pelo governo kirchnerista representava “a pretensão de destruir o plano de Deus”. No documento, revelado pelo jornal “La Nación”, o cardeal argentino dizia, ainda, que na iniciativa “está também a inveja do demônio, pela que o pecado entrou no mundo, que pretende destruir a imagem de Deus: homem e mulher que recebem o mandato de crescer, multiplicar-se e dominar a terra”.
A lei foi aprovada, mas Bergoglio nunca deixou de receber Cristina Kirchner, que o visitou várias vezes no Vaticano. O ex-presidente Alberto Fernández (2019-2023) também esteve na Santa Sé e conversou com o Papa Francisco. Fernández foi, inclusive, um elo entre o Papa e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante seus anos na prisão, em Curitiba. Representantes do atual governo brasileiro asseguram que Francisco também tem uma boa relação e muito “apreço” pela ex-presidente Dilma Rousseff, que esteve no Vaticano em 2024.
Francisco brigava com os Kirchner, mas também com o ex-prefeito de Buenos Aires Mauricio Macri, que, posteriormente, elegeu-se presidente. A relação entre ambos era péssima, asseguram ex-colaboradores do Papa na Argentina, sobretudo por uma política sobre prostituição feminina que, segundo as mesmas fontes, “Bergoglio considerava permissiva demais na capital”. Macri, ao contrário de Kirchner, dissimulava as tensões com o então arcebispo. O ex-presidente e líder do kirchnerismo se irritava com as homilias de Bergoglio, sobretudo quando usava expressões como “explosão da pobreza”. A situação social da Argentina era um dos temas que mais o preocupava e continuou o preocupando como Papa.
Um de seus discursos anuais mais esperados era na Igreja de San Cayetano, padroeiro do pão e do trabalho. Bergoglio costumava frequentar a emissora de rádio Pão e Trabalho e, numa entrevista quando era Arcebispo portenho, afirmou que, “quando estou com pessoas humildes, depois choro muito. Não podemos cair no pecado de virar funcionários. A responsabilidade [da pobreza] é de todos”.
De metrô, ônibus e fazendo longos trajetos a pé, Bergoglio visitava as favelas portenhas com frequência. Uma das que mais recebeu sua atenção foi a 21-14, do bairro de Barracas.
— Para nós, Bergoglio era como de nossa família. Todo o bairro o adorava, porque ele chegava lá e tratava as pessoas como iguais — conta o padre Toto Vedia, que há vários anos comanda a paróquia do bairro.
As missas de Bergoglio nas favelas portenhas nunca tiveram grande repercussão na imprensa. Somente após sua escolha como Papa seu trabalho social passou a ser mais reconhecido, sobretudo fora do país. A escritora e jornalista italiana Francesca Ambrogetti, autora junto ao jornalista argentino Sergio Rubin do livro “O Jesuíta. Conversas com o cardeal Jorge Bergoglio”, lamenta que, em sua terra natal, a figura de Francisco sempre tenha estado contaminada por disputas políticas.
Para ela, “os argentinos que não entendem Francisco é porque não conheceram Bergoglio”.
— Existiu uma falta de valorização injustificada do Papa por parte dos argentinos — aponta Francesca.
A trajetória do ex-cardeal se tornou curiosidade nacional quando Bergoglio foi escolhido como sucessor de Bento XVI. Seus anos como jesuíta, sua vida durante os anos da ditadura (1976-1983) e seu trabalho como arcebispo portenho. O ex-cardeal nasceu numa família de classe média de Buenos Aires, seu pai era trabalhador ferroviário. Depois de estudar Química, decidiu seguir a carreira eclesiástica e, em 1958, entrou como seminarista na Companhia de Jesus. Bergoglio foi ordenado sacerdote em 1969, seis anos antes do golpe de Estado de 1976, que iniciou a ditadura mais brutal já vivida pela Argentina.
Controvérsias internas
Sua atuação durante os anos de chumbo desatou controvérsias no país, onde Bergoglio foi atacado por jornalistas como Horacio Verbitsky, que o acusou de ter abandonado sacerdotes jesuítas que foram sequestrados pelos militares. Os casos mais conhecidos são os de Orlando Yorio e Francisco Jalics, sequestrados e torturados em 1976. Yorio negou que Bergoglio os tivesse abandonado, e o ex-cardeal assegurou sempre que fez o possível para ajudá-los, inclusive se reunindo com autoridades militares para pedir sua libertação. Em 2015, Francisco decidiu abrir os arquivos do Vaticano relacionados à ditadura argentina, buscando esclarecer o papel da Igreja no período.
A justiça social e os jovens foram sempre temas centrais na agenda de Bergoglio na Argentina. O padre Pepe, outro dos “padres das favelas”, foi um importante aliado do então cardeal em batalhas contra o uso de drogas, entre outras. Em 2009, o padre Pepe recebeu ameaças e, anos depois, disse que Bergoglio foi uma das pessoas que mais o ajudou.
— Tínhamos escrito um documento no qual denunciávamos o crack como uma droga que destrói os jovens e contávamos como era distribuído nas favelas, sem que o Estado ou a sociedade fizessem nada para combater esse problema. Bergoglio participou da denúncia e veio várias vezes na favela para me dar seu apoio. Seu compromisso com o trabalho nas favelas e com os padres que o fazemos era muito grande — disse padre Pepe, ao Globo em 2013, quando Bergoglio já era Francisco.

