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Jovem com "pior dor do mundo" consegue liminar na Justiça para plantar Cannabis em casa

Carolina Arruda, de 28 anos, sofre com neuralgia do trigêmeo

Jovem com 'pior dor do mundo' consegue liminar na Justiça para plantar Cannabis em casaJovem com 'pior dor do mundo' consegue liminar na Justiça para plantar Cannabis em casa - Foto: Instagram / reprodução e Unsplash

A jovem Carolina Arruda, de 28 anos, conseguiu uma liminar na Justiça Federal de Minas Gerais, nesta semana, para cultivo da planta Cannabis sativa em casa para fins medicinais. O caso da mineira ganhou repercussão após ela falar abertamente sobre o diagnóstico de neuralgia do trigêmeo, doença rara que provoca a “pior dor do mundo”, e a possibilidade de realizar um procedimento de eutanásia na Suíça devido às queixas.

— Essa ideia (do cultivo da Cannabis) veio da minha médica e do advogado que me acompanha, que é especialista nessa área. Já faz alguns meses que entrei na Justiça com isso. Foram meses de trabalho, e agora saiu um resultado preliminar — contou Carolina no Instagram.

O advogado especialista em direito canábico e mestre em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) Murilo Nicolau, que acompanha o caso da jovem, explica que a decisão da Justiça, um habeas corpus preventivo, ainda não é final do processo, mas já permite o plantio enquanto isso:

— O juiz autorizou o cultivo para fim medicinal, com base nos limites da quantificação de plantas que nós fizemos do que ela necessitava. Essa autorização é vigente enquanto não sair a decisão final, a sentença do processo. É um processo que ainda devemos trabalhar bastante, talvez precisemos chegar inclusive ao STJ, mas é a primeira vitória de uma guerra duríssima.

No Brasil, plantar Cannabis é considerado crime pela Lei de Drogas, mesmo para fins medicinais. No entanto, algumas associações, assim como pacientes individuais, conseguem na Justiça um habeas corpus para cultivar a planta com a finalidade de utilizá-la como tratamento médico sem risco de sofrer repercussões penais.

— O principal argumento nesses casos é a falha dos tratamentos anteriores e o apoio que a Cannabis medicinal, quando devidamente prescrita, pode dar na vida da pessoa. É um tratamento adjuvante, adicional aos que ela já faz, para dar um pouco mais de conforto. Esse caso dela é muito específico porque é uma doença raríssima. Quando fazemos o pedido para câncer ou para uma pessoa com uma doença terminal, o juiz já sabe das implicações — conta o advogado.

Em novembro do ano passado, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) chegou a autorizar o cultivo de uma versão específica da Cannabis com baixo teor de tetrahidrocanabinol (THC) para fins medicinais e farmacêuticos no Brasil, no entanto somente por empresas para a fabricação de insumos farmacêuticos e veterinários.

A regulamentação da medida ainda está pendente na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas, por ser destinada somente à produção de medicamentos, não afetará casos como o de Carolina, que busca o cultivo em casa.

— O governo brasileiro está sendo inerte em relação à regulação da Cannabis medicinal. E essas regulações que vão sair não vão resolver esse tipo de problema. Ela não teria como acessar os tratamentos de que ela precisa se não cultivasse. E a proibição gera um temor na pessoa, um medo de uma repressão que leva a um estado de ansiedade permanente — defende Nicolau.

"Pior dor do mundo"
Carolina descobriu o diagnóstico de neuralgia do trigêmeo aos 16 anos após uma gravidez e desde então realizou uma série de procedimentos, até mesmo neurocirurgias, mas que não aliviaram a dor. Os médicos explicam que o tratamento do quadro realmente tem taxas variadas de sucesso.

A neuralgia do trigêmeo é rara, afeta cerca de 4,3 pessoas a cada 100 mil e é conhecida pelas dores crônicas e excruciantes, explicou ao GLOBO o médico especialista em dor Carlos Marcelo de Barros, presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED):

— A neuralgia do trigêmeo é uma doença no nervo trigêmeo, nós temos um de cada lado na face. Em 90% dos casos é causada por conflito vascular, uma artéria que, por má formação, encosta no nervo e o desmieliniza, levando-o a funcionar de maneira disfuncional. Geralmente ela acomete somente um dos ramos do nervo e apenas um dos dois nervos da face. Mas o caso da Carolina é ainda mais raro porque ela é jovem, tem um quadro bilateral, ou seja, acomete os dois nervos, e porque é nos três ramos de cada nervo. É muito difícil, muito sofrido.

Após compartilhar no ano passado que estava considerando realizar a eutanásia devido à doença, Carolina foi contatada por médicos e tentou novas intervenções terapêuticas, como implante de neuroestimuladores e de uma bomba de infusão de morfina, mas com pouca melhora.

Neste ano, a mineira contou ter recebido um novo diagnóstico de espondiloartrite axial, uma doença também crônica e incurável que afeta a coluna vertebral, a cabeça e a caixa torácica. Ela não é totalmente conhecida, mas acredita-se ter relação com uma ação autoimune.

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