Liana Ventura fala sobre estratégias sonoro-musicais no tratamento dos transtornos funcionais

Estimular a percepção e localização do som significa trabalhar a principal função das partes primitivas do cérebro

Centro Especializado em Reabilitação "Menina dos Olhos"Centro Especializado em Reabilitação "Menina dos Olhos" - Foto: Izabele Brito

A oftalmologista Liana Ventura é a convidada desta quarta-feira (21) da coluna Sucesso, uma parceria do Portal FolhaPE com o Sucesso.site, de Felipe, Eduarda e Camila Haeckel.

Alguns sons, tais como os vibratórios e corporais, já estão presentes na vida do bebê desde o período da gestação. O som pode ser percebido por diversas áreas sensoriais humanas, incluindo os sistemas auditivo e tátil. Estimular a percepção e localização do som significa trabalhar a principal função das partes primitivas do cérebro.

O uso adequado de recursos sonoro-musicais como estratégia aliada à ciência favorece o processo de aprendizagem, o desempenho, a afetividade, as habilidades funcionais, a interação, a organização intra e interpessoal e a socialização, tanto de pessoas normais como das que apresentam atrasos no neurodesenvolvimento.

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O Centro Especializado em Reabilitação - CER IV “Menina dos Olhos”, da Fundação Altino Ventura (FAV), serviço de referência, realiza atendimento médico e terapêutico multidisciplinar para crianças e adultos com deficiências visuais, auditivas, físicas e intelectuais. Dentre as diversas terapias oferecidas neste serviço, destaca-se o Departamento de Musicoterapia, que promove o atendimento psicológico com enfoque sonoro-musical, tendo como coordenadora Eliane Teles (psicóloga, musicoterapeuta e neuropsicóloga).

Centro Especializado em Reabilitação

Crédito: Izabele Brito

No Departamento de Musicoterapia os pacientes são reabilitados/habilitados utilizando diversos recursos sonoro-musicais, com melodia, ritmo e harmonia, que contemplam as necessidades individuais de cada caso, considerando, inclusive, suas limitações física, mental, social e cognitiva. Em casos de pacientes com deficiência auditiva utilizam-se sons que produzem estímulos tátil (vibração) e corporal. Os pacientes com deficiência visual (baixa visão ou perda total da visão) necessitam que outros órgãos do sentido sejam mais desenvolvidos para compensar a perda visual, ajudando-os na localização do som, a se situarem no espaço (propriocepção), na melhoria do esquema corporal, o equilíbrio e a coordenação motora.

Em pacientes com doenças genéticas ou neurológicas, que apresentam deficiência motora com comprometimento de movimentos, da fala, da comunicação, da expressão, o uso terapêutico da música, seja ouvida, sentida ou executada pelo próprio paciente, ativa várias áreas do cérebro que atuam em todo o organismo, tais como o córtex pré-frontal, córtex pré-motor, córtex motor, córtex somatossensorial, lobos temporais, córtex parietal, córtex occipital, cerebelo, sistema límbico, amigdala e o tálamo. Quando um paciente se propõe a tocar um instrumento ou simplesmente ouvir uma música que gosta, são estimulados seus movimentos de braços e pernas, sua motricidade fina e ampla, e até mesmo sua comunicação não verbal.

As principais limitações apresentadas em pacientes com deficiências intelectuais são a incapacidade de realização de atividades funcionais, necessárias na vida diária, e a socialização. A música pode ser utilizada nesses casos para estimular várias áreas cerebrais, podendo desenvolver habilidades como atenção, concentração, memória de curta e longa duração, e até mesmo ajudar na realização de planejamento de atividades de vida diária.

Atividades musicais individuais e/ou em grupo, além de poderem ser feitas de forma terapêutica, favorecem a inclusão social e cultural de pessoas deficientes. As apresentações musicais para plateia estimulam o sentimento de pertencer, ser capaz, ser aceito, ser valorizado, ser aprovado.

Na opinião de Dra. Liana Ventura (presidente do Conselho Curador da FAV), pacientes de todas as idades e com múltiplas deficiências podem ser beneficiados pelos recursos da musicoterapia, que atua ampliando as potencialidades de cada paciente, através da plasticidade cerebral, estimulando a independência e autonomia funcional, facilitando a inclusão social, melhorando a qualidade de vida do individuo e de sua família. Ela cita como exemplos pacientes com síndromes ou casos médicos complexos que requerem múltiplos tratamentos, na pratica da FAV. Para o tratamento desses casos inclui-se também na proposta terapêutica a musicoterapia, e a resposta é fantástica.

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Crédito: Izabele Brito

Os pacientes apresentam uma melhora significativa do comportamento social, da adesão ao tratamento, e da autoestima. Já se sabe que a música mobiliza a emoção, o prazer, atenção, relaxamento, descontração, favorecendo a quebra ou diminuição de medos, ansiedades, estresse, hipersensibilidades aos sons, ruídos e toques, sendo altamente benéfica para os pacientes.

O plano terapêutico para musicoterapia é feito considerando-se a idade cronológica e os achados globais de cada paciente. No caso das crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika, com múltiplas deficiências e diversos desafios médicos, familiares e sociais, o Departamento de Musicoterapia realizou inicialmente a escuta psicológica dos pais e cuidadores visando a compreensão global de cada criança. As crianças apresentavam comprometimento em diversas áreas sensoriais (visão, audição, motricidade e cognição), tendo sido utilizado um tratamento multidisciplinar, com enfoque sonoro-musical, para facilitar processo de habilitação das crianças, bem como para facilitar a compreensão e empoderamento da sua família para enfrentar os desafios. Utiliza-se a musicoterapia como estratégia de estimulo e introdução de várias atividades de vida diária das crianças, tais como a hora de dormir, de acordar, de comer e tomar banho; essa forma de terapia também ajuda a trabalhar a interação, linguagem, vínculo e o estado emocional, tanto das crianças como da família/cuidador. Estimulam-se as áreas cognitivas, socioafetivas, sensório-motoras e viso-motoras, trabalhando cada fase do desenvolvimento da criança.

Eliane Teles salienta a importância da ativa participação familiar para maior eficiência do uso de estratégias sonoro-musicais em pessoas com transtornos funcionais, no processo de habilitação/reabilitação. A escuta e orientação com os genitores/responsáveis precisa ser desenvolvida para que sejam alcançados melhores resultados. As atividades desenvolvidas e a sua funcionalidade passam pela compreensão da família, que precisa ser acolhida e orientada.

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