Roraima

Líder ianomâmi acusa outra etnia de escoltar garimpeiros que teriam matado dois indígenas

Associação pede que PF, MPF, Exército e Funai investiguem o caso e tomem providências

Terra ianomâmiTerra ianomâmi - Foto: reprodução

Ianomâmis denunciaram, esta semana, à Polícia Federal, à Funai, ao Exército e ao Ministério Público Federal o assassinato a tiros de dois indígenas, que viviam isolados e teriam sido atacados a tiros, próximos a seu território, por garimpeiros ilegais conhecidos como "Faixa Preta", que exploram a região afastada, em Roraima, no alto Rio Apiaú. Ao Globo, o líder ianomâmi Junior Yanomami denunciou ainda que indígenas de outra etnia, Ninam, teriam escoltado os garimpeiros durante a ação, que acabou em confronto e mortes, e teria acontecido há cerca de dois meses.

A Hutukara Associação Yanomami, que pede a investigação pelas mortes dos indígenas, contou que, na última segunda-feira (1), um indígena da região do Apiaú entrou em contato com a instituição informando sobre o caso, e que, segundo ele, na ocasião, guerreiros do grupo Moxihatëtëm cercaram o local onde estavam os garimpeiros, quando houve confronto com tiros e flechas e dois deles acabaram mortos.

Procurados, PF, MPF e Funai ainda não informaram à reportagem se já investigam o caso. Segundo o relato do indígena, a intenção dos guerreiros Moxihatëtëma, que vivem em isolamento voluntário, era cercar os garimpeiros para afastá-los de seu território. No confronto, ele narrou que os indígenas ainda conseguiram acertar flechas em três dos invasores.

Chama atenção, ainda, a proximidade que estes garimpeiros estavam de áreas onde vivem tribos ianomâmis isoladas por vontade própria: cerca de 5 quilômetros apenas, e a 4 dias de barco da cidade mais próxima. Segundo a Hutukara, imagens de satélite indicam que ali, na região do Rio Apiaú, mais de 100 hectares de floresta já foram destruídos pela atividade ilegal.

A organização teme ainda que, caso não haja ação por parte do Estado, possam acabar acontecendo outros confrontos ainda mais sangrentos entre exploradores ilegais e tribos isoladas.

"A região do Apiaú é vizinha ao território dos isolados e, por esse motivo, deve ser uma das zonas prioritárias para as ações de combate ao garimpo. A HAY vem insistentemente informando os órgãos competentes sobre a elevada pressão em que se encontram os Moxihatëtëma com o avanço do garimpo nas regiões da Serra da Estrutura, Couto Magalhães, Apiaú e alto Catrimani, com elevado risco de confrontos violentos que podem resultar no extermínio do grupo. No entanto, não temos ciência de ações recentes de repressão ao garimpo na região", diz a Associação, que alerta ainda que, de acordo com o sistema utilizado pela cultura Ianomâmi, é capaz que o grupo isolado volte a fazer novas investidas para vingar as mortes.

"É importante ressaltar que, em razão do sistema tradicional de justiça da cultura Yanomami, é possível que os Moxihatëtëma organizem novas investidas contra os núcleos garimpeiros para compensar as mortes sofridas. Assim, a situação de conflito pode se estender, resultando em mais mortes e chacinas. Além disso, episódios de contato intermitente com os garimpeiros pode levar à introdução de novas moléstias infecciosas, impactando severamente a saúde coletiva do grupo."

No ofício, encaminhado aos órgãos federais, a Hutukara Associação Yanomami solicita que sejam tomadas medidas urgentes para que os indígenas sejam protegidos.

"Diante da gravidade do relato, a Hutukara Associação Yanomami vem por meio deste oficio solicitar aos órgãos responsáveis que investiguem o ocorrido, considerando a grande vulnerabilidade epidemiológica das famílias em isolamento voluntário, e tomem medidas urgentes para proteger o grupo de novos confrontos e contatos forçados. Em particular, solicita-se que sejam adotadas urgentemente ações de repressão do garimpo ilegal nas proximidades do território dos Moxihatëtëma, e sejam plenamente retomadas as atividades da BAPE Serra da Estrutura, com rotina de incursões para identificar e desmantelar núcleos garimpeiros instalados na região".

As últimas fotografias aéreas disponíveis da casa-coletiva dos Moxihatëtëma, conta a Associação, indicam a existência de 17 famílias. A partir desse número, a organização estima que a população total desse grupo seja da ordem de 80 pessoas.

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