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Luz sobre o abandono

O incêndio que dizimou acervos riquíssimos marca um período triste de nossa história. Ardendo em chamas o Museu Nacional nos chamava à consciência de que não estamos nem aí para nossas maiores riquezas

A consternação que o incêndio no Museu Nacional provocou em boa parte dos brasileiros não corresponde, necessariamente, ao apreço pela cultura. Muitos dos que se abalaram com a grande perda para o País nunca colocaram os pés naquele museu. Nem em muitos outros.

É possível que museus espetáculos chamem mais atenção. Ainda assim, nem sempre são bem tratados. Vejam aqui o nosso Museu Cais do Sertão. Vai e volta está fechado porque o ar condicionado não funciona, porque os salários atrasam, por isto e aquilo.

A verdade é que há pouco estímulo para irmos a esses locais de exposição. Não temos política cultural nesse sentido. Quantos de nós acordamos com vontade ir a um museu? Aos nossos museus? Porque aos dos outros, nós vamos. Louvre e Centro Georges Pompidou, em Paris; Metropolitan, em Nova York; os Museus do Vaticano, em Roma; British Museum e National Gallery, em Londres; State Hermitage, São Petersburgo, entre outros. Os nossos estão sempre por perto. “Vamos outro dia”. Não é assim?

O incêndio que dizimou acervos riquíssimos marca um período triste de nossa história. Ardendo em chamas o Museu Nacional nos chamava à consciência de que não estamos nem aí para nossas maiores riquezas, que são nossa cultura e nossos valores, aqueles que nos dizem quem somos e onde queremos ir.

Orçamentos baixos, pouco ou nenhum investimento em aquisições ou manutenções, profissionais desestimulados, pouca ou nenhuma pesquisa, fungos, mofos e roubos de obras de arte fazem parte da realidade de museus de muitas cidades brasileiras. Inclusive das pernambucanas.

Vocês devem lembrar de matérias que publicamos em edições da Folha Mais meses atrás. Uma mostrou toda a operação que o Governo da Alemanha desenvolveu para resgatar o avião que fez parte de um sequestro histórico: o Boeing da Lufthansa. Ao partir da Espanha para a Alemanha, no dia 13 de outubro de 1977, com 91 pessoas a bordo, foi sequestrado por quatro terroristas infiltrados da Frente Popular para a Libertação da Palestina. Ele apodrecia no Ceará e o governo, ao descobri-lo, foi buscá-lo. Já os noruegueses resgataram a embarcação Maud, que esteve submersa por 80 anos. Isso porque ela representava o último dos barcos históricos daquele país.

Tanto cuidado em localizar, resgatar, recuperar e preservar, e aqui, nem água nos hidrantes para apagar o incêndio do Museu Nacional havia. O descaso levou a Família Imperial Brasileira Orleans e Bragança a se manifestar por meio de uma carta intitulada "História reduzida a cinzas". Nela, pediam a investigação das causas e punição dos responsáveis, destacando, porém, que o mais importante é "jogar luz sobre o abandono e o desinteresse que põe claramente em iminente risco outros bens do povo brasileiro". O acervo doado por descendentes de D. Pedro II e da Princesa Isabel, que nasceram no Paço de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, foi perdido.

Nossa edição deste fim de semana traz um panorama da real situação de nossos museus e suas dificuldades. Num ano eleitoral, deveria ser leitura obrigatória de candidatos, mas também percebemos que esses, em seus programas de governo, não estão ligando muito para o assunto.

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