Mãe e irmão de Thiago dizem que "agora a Justiça começou a ser feita"

Eles ainda esperam a condenação dos outros dois acusados de participação no assassinato do promotor

Cúpula do PMDB na filiação de Fernando Bezerra CoelhaCúpula do PMDB na filiação de Fernando Bezerra Coelha - Foto: Divulgação

As primeiras horas desta sexta-feira (28) foram provavelmente as mais longas da vida dos familiares do promotor de Justiça Thiago Faria Soares, que aguardavam ansiosos, durante a madrugada, o desfecho do julgamento de três dos cinco acusados do assassinato dele. Foram quase 20 horas de espera entre a chegada na sede da Justiça Federal e o início da leitura do veredito sobre José Maria Pedro Rosendo Barbosa, Adeildo Ferreira dos Santos e José Marisvaldo Vitor da Silva, acusados de cometer o crime.

José Maria Rosendo foi condenado a 50 anos e quatro meses, enquanto a pena para José Marisvaldo foi de 40 anos e 8 meses. Adeildo Ferreira dos Santos foi absolvido. Abraçados, Maria do Carmo Faria e Daniel Faria, mãe e irmão do promotor, eram emoção pura. Daniel tinha nas mãos o terço da avó. Maria do Carmo segurava outro símbolo do catolicismo no pulso. Eles se agarraram à fé e um ao outro.

Choraram, rezaram e vibraram com a condenação de dois dos três réus que eram julgados. Houve um suspiro de decepção com a absolvição de Adeildo, mas o resultado, em geral, foi considerado satisfatório. “Imagine eu aqui há quatro dias e agora, ao final, receber essa notícia, que foi muito justa. O meu filho merecia Justiça e agora ela começou a ser feita. Ainda temos dois julgamentos e eu espero êxito nos outros dois também”, declarou a aposentada de 71 anos, que acompanhou os quatro dias do júri ao lado do filho.

Antes de falar com a imprensa, no entanto, fez questão de abraçar e agradecer a cada pessoa que contribuiu de alguma forma com o resultado do júri. E prometeu voltar para ver o julgamento de José Maria Domingos Cavalcante, adiado para o dia 12 de dezembro porque o advogado faltou, e de Antônio Cavalcante Filho, que está foragido da Polícia Federal e também deverá responder pelo crime. “Uma mãe não abandona o filho não. Ele está aqui comigo e eu estou com ele”, respondeu, ao ser questionada se viria para o julgamento de Domingos.

A mãe de Thiago revelou ainda que há um longo caminho a percorrer. “Não estou totalmente em paz porque o meu coração ainda está despedaçado por não ter o meu filho em casa. Mas eu volto sim (para o Rio de Janeiro, onde mora) com um ciclo mais ou menos terminado”, disse, pedindo que todos lembrassem de Thiago com amor e mostrando, em uma tatuagem feita nas costas, a mensagem que queria deixar. "Que as nossas lembranças não sejam o que ficou por viver". Confira abaixo o vídeo da entrevista com Maria do Carmo.



Dias difíceis
Para a família de Thiago, os momentos mais duros foram os em que as fotos do promotor foram exibidas. Bastava uma imagem do filho para Maria do Carmo cair no choro. Mesmo as mais sorridentes. Nessas horas, ela preferia deixar a sala por um tempo. Em uma dessas saídas, a acusação, com o intuito de mostrar ao júri a brutalidade do crime, exibiu as chocantes imagens da perícia realizada logo após o assassinato.

Após ver uma imagem do irmão após o crime, durante a tréplica da acusação, Daniel Faria baixou a cabeça aos prantos, recebendo o amparo e carinho dos amigos mais próximos de Thiago, que, transmitindo o carinho que tinham por ele para os familiares, aproveitaram o primeiro intervalo para mostrar fotos de momentos felizes e contar as melhores lembranças do amigo que se foi, como o dia da posse no Ministério Público de Pernambuco.

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Uma dor constante
Daniel Faria também acha que foi feita Justiça. “Claro que em parte, porque ainda tem uma pessoa foragida, uma pessoa que será julgada, mas me sinto muito satisfeito com a decisão e muito feliz porque sei que o meu irmão vai descansar em paz agora”, observou.

O Dj carioca emocionou-se ao falar sobre a falta do irmão e que a dor é uma constante. “A dor não vai passar. O meu irmão com certeza é o meu maior orgulho. ‘Eu amo você Thiago Faria, onde quer que você estiver’. E eu me sinto vingado por um ato covarde que foi proferido contra ele. E eu vou seguir tudo que ele me ensinou”, acrescentou.

Além das lembranças e da dor, Maria do Carmo e Daniel tiveram, ainda, que lidar com os parentes dos réus, que aproveitavam algumas oportunidades para abordá-los. A esposa de José Maria Rosendo chegou a abraçar a mãe do promotor, que só entendeu depois de quem se tratava. Outras duas parentes dos acusados abordaram o irmão de Thiago que, ao entender o que acontecia, esquivou-se de um abraço que recebeu de uma delas. As afirmações eram sempre de que “Mysheva era uma cobra” e que Thiago “não conhecia a noiva de tinha”.

“Acho que foi feita justiça e que ficou bem claro, para todo mundo, que as provas são bastante fortes. Ainda precisa ser feita a Justiça em outras partes. Tem uma pessoa foragida e uma a ser julgada”, comentou Daniel Faria. O DJ não tem opinião, ainda, a respeito da inocência de Adeildo Ferreira e não quis emitir opinião sobre Mysheva. “Ainda é muito cedo para falar”, admitiu emocionado. Veja abaixo o vídeo da entrevista com o irmão do promotor.

 
Entenda o caso
O crime ocorreu no dia 14 de outubro de 2013 no interior de Pernambuco. Thiago Faria Soares estava com a noiva, a advogada Mysheva Martins, e o tio dela Adautivo Martins. Eles seguiam pela rodovia PE-300 a caminho de Itaíba, quando foram abordados por homens armados.

Os tiros atingiram Thiago, que morreu na hora. O veículo deles parou. O carro dos assassinos contornou a via e, segundo as investigações, retornou para tentar assassinar tio e sobrinha, que escaparam com vida após se jogarem para fora do veículo, na estrada. A arma do crime nunca foi encontrada.

A motivação do crime teria sido a compra de 25 hectares de uma fazenda em Águas Belas. O imóvel, que possuía uma extensão total de 1.800 hectares, foi adquirido por Mysheva em um leilão por R$ 100 mil - com isso, parentes de José Maria Pedro Rosendo Barbosa teriam sido obrigados a deixar o local.

Segundo as investigações, Thiago Faria, então namorado de Mysheva, além de acompanhar a visita de um oficial de Justiça numa ação de despejo, teria se envolvido numa discussão verbal com a esposa de Rosendo. Para o Ministério Público de Pernambuco, a intervenção dele no caso “acirrou os ânimos”. “O MPPE não concordou com a atitude de Thiago e, na época, decidiu removê-lo compulsoriamente para o município de Jupi, no Agreste, mas ele foi morto um dia antes de se mudar”, declarou o promotor André Rabelo, em entrevista à Folha de Pernambuco.

Thiago era promotor em Itaíba, município vizinho a Águas Belas, havia nove meses. Conforme Rabelo, o MPPE sabia que a cidade tinha um histórico de violência e temia pela vida de seu servidor. “Decidimos realizar a transferência para tirá-lo do cerne da questão”, afirmou. “Não podemos negar o comportamento inadequado, mas também não vamos permitir que denigram a imagem dele. Thiago pagou com a própria vida”, complementou.

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