Maioria das denúncias contra João de Deus expirou prazo legal, diz delegada

Até setembro deste ano, segundo a responsável pela investigação dos supostos abusos sexuais cometidos por João de Deus, a lei previa um prazo decadencial - para a denúncia ser feita - de até seis meses após a data do fato

João de DeusJoão de Deus - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A delegada Karla Fernandes, responsável pela investigação de supostos abusos sexuais cometidos por João de Deus, disse nesta segunda (17) que o médium não vai responder pela maioria dos crimes dos quais é suspeito. Os 15 casos sob análise da Polícia Civil de Goiás, segundo ela, se referem a posse sexual mediante fraude (no caso específico, usar da fé das mulheres para cometer atos libidinosos com elas).

Até setembro deste ano, segundo a investigadora, a lei previa um prazo decadencial (para a denúncia ser feita) de até seis meses após a data do fato. Mas quase todos eles são antigos e a comunicação não se deu em tempo hábil. Houve mudança na legislação penal e, somente desde aquele mês, o prazo decadencial não existe mais para esse crime. A mudança não se aplica aos casos anteriores, pois a lei brasileira não permite que uma regra nova retroaja para prejudicar o réu.

Fernandes ponderou ser importante que as mulheres continuem levando informações às autoridades, mesmo tratando-se de ocorrências antigas, pois elas podem servir de testemunhas e reforçar o quadro probatório contra o médium. A delegada, que trabalhou por oito anos na Delegacia de Mulheres de Goiânia, explicou que o crime de estupro não se aplica aos casos sob análise, pois, segundo ela, não houve "conjunção carnal".

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O único caso posterior a setembro, que vem sendo considerado o principal, é o de uma mulher de 43 anos, moradora de Goiânia, que administra uma casa espírita. Ela contou ter procurado João de Deus para buscar a solução de problemas nesse centro espiritual. Foi a primeira a ser atendida e, segundo a versão apresentada, logo levada para uma sala reservada, cujas luzes estavam apagadas.

O médium teria então massageado a região sob o ventre da mulher, sob o argumento de dissipar uma energia ruim. Ela relatou que, em determinado momento, notou que João de Deus estava com o pênis de fora e reagiu, alegando que havia algo errado. Ele teria interrompido a sessão e solicitado que ela não contasse nada a ninguém.

A delegada afirmou que, em depoimento, João de Deus disse não conhecer ou não se lembrar de várias mulheres que o acusam e negou os abusos. Porém, quando questionado sobre esse caso mais recente, teria alterado o tom de voz e dito que a suposta vítima teria de apresentar alguma prova que comprovasse violação sexual.

Ele teria alegado que a acusadora é uma mulher problemática. "Além de negar o fato, ele tentou imputar em relação à vítima que ela teve problema na instituição [espírita à qual é ligada]. Tentou jogar para cima dela que estava tentando se aproveitar da situação", comentou a policial. A delegada afirmou que essa mulher foi a única encorajada pelo companheiro, seu namorado, a denunciar.

Contou que um dos casos é o de mãe e filha que relatam ter sido abusadas, mas que o marido e pai das supostas vítimas teria minimizado o problema e continuado frequentando a o centro de cirurgias espirituais do médium. "Se o pai não defende a própria filha, ela tem medo de se expor."

Fernandes disse que muitas das mulheres alegam que, no momento das supostas violações, não percebiam que se tratasse de um abuso, embora se sentissem mal. "São pessoas vulneráveis. Para todos que estavam ali, aquilo era um momento de apogeu, de benção."

A Justiça autorizou a Polícia Civil a fazer buscas em 20 endereços ligados a João de Deus. Os investigadores informaram que pretendem vasculhar ao menos quatro locais frequentados pelo médium, entre eles a estremecia dele e a casa dom Inácio de Loyola, em busca de mídias que possam conter mensagens e outras possíveis provas dos crimes.

Questionada se essas diligências não deveriam ser sigilosas, a delegada reagiu: "Sigilo de que, se esse trem já está tão estourado". Ela explicou que conteúdos eventualmente apagados das mídias podem ser recuperados. O objetivo das buscas é também o de conhecer os espaços em que, conforme o relato das vítimas, ocorriam abusos. E levantar eventuais funcionários e frequentadores que possam servir de testemunhas.

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