Mais de dois mil prédios em alto risco no Grande Recife

Diagnóstico é antigo, mas nunca foi levado adiante. Recente repercussão do problema traz de volta a questão: por quê?

Sobrado pegou fogo na rua da Glória, Boa VistaSobrado pegou fogo na rua da Glória, Boa Vista - Foto: Brenda Alcântara/ Folha de Pernambuco

As construções em alvenaria autoportante ou resistente, popularmente conhecida como prédios-caixão, que se tornaram muito comuns no Brasil a partir dos anos 1970, principalmente no Nordeste e, mais ainda, em Pernambuco, tornou-se um “problema social”, como define o professor de estruturas Carnot Leal Nogueira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Um estudo do Ministério Público estadual e federal, finalizado há oito anos, identificou a a existência de cerca de 5.300 prédios-caixão na Região Metropolitana do Recife (RMR), sendo 4.426 em cinco municípios (Recife, Paulista, Jaboatão dos Guararapes, Camaragibe e Olinda), mais de dois mil deles apresentando grau de risco alto ou muito alto.

O tema será debatido nesta quinta-feira (17), às 15h, na mesa redonda Rua da Glória 366, em alusão ao sinistro causado por incêndio, no mês passado, que vitimou duas pessoas, no número 366 da rua da Glória, no bairro da Boa Vista. O encontro é da Associação dos Engenheiros de Segurança do Trabalho de Pernambuco (Aespe), a Associação Brasileira de Engenheiros Civis - Secção Pernambuco (Abenc) e o Sindicatos dos Engenheiros do Estado de Pernambuco (Senge-PE), em conjunto com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE).

Evento será na sede do Conselho, na avenida Rui Barbosa, 1363, Graças. Segundo os presidentes das entidades, o objetivo discutir as causas e a frequência com que vem ocorrendo recentes sinistros, em sua maioria, desabamentos de edificações em todo o Estado, totalizando 11 óbitos e três feridos, além de danos materiais.

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O levantamento sobre construções, apesar de antigo, nunca foi levado adiante. Os dois passos seguintes, que seriam a elaboração de laudos sobre as construções e a execução de obras de reforço e recuperação, como lembra o engenheiro civil e professor Carlos Wellington de Azevedo Pires Sobrinho, coordenador do Laboratório de Tecnologia do Itep, nunca foram realizados.

Apesar de concordarem quanto à gravidade do problema e ao descaso gerado por esse quadro caótico, os especialistas divergem sobre a solução. Para Carnot, o ideal seria a demolição e reconstrução dos edifícios. Já Carlos Wellington não acredita nessa possibilidade, tendo em vista que, para isso acontecer, os proprietários de cada apartamento deveriam ter a titularidade do imóvel, uma realidade muito distante da atual.

O fato é que esse tipo de alvenaria não estrutural - sem o uso de concreto armado - foi uma opção empírica (não testada), barata, não durável e que nunca deveria haver sido utilizada. Após o estudo do Itep, inédito no País, os municípios proibiram, por força de lei, novas construções semelhantes. Restava - e resta - saber o que fazer com as ainda existentes. Apenas alguns edifícios tiveram laudos solicitados pelas gestões de suas cidades.

Ao chamar a atenção para a problemática social, além das deficiências estruturais, Carnot salienta que as instituições responsáveis - construtoras, financiadoras e seguradoras - tendem a fugir da responsabilidade e os processos demoram tanto tempo em trâmite na Justiça que tornam a questão quase insolúvel. “A melhor solução seria demolir. Se torna inviável e muito difícil a recuperação. Se você tentar construir um reforço na estrutura, pode ser que fique tão caro, inclusive tão feio, tão estranho, que seja melhor derubar.”

“A não realização de laudos mostra um descaso em prédios que foram avaliados com grau de risco muito alto”, analisa Carlos Wellington. “A gente fica preocupado. Agora, que estamos saindo de um inverno rigorosíssimo, e começa a ter uma elevação da temperatura natural, os prédios que apresentam caixão vazio - que são muitos - estão em um risco muito elevado. Eles absorveram muita água e agora o sol vai aumentar a energia de degradação dessas alvenarias que estão debaixo da terra”, alerta.

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