Marielle: afeto, luta e resistência

Estamos todas em choque com a notícia do assassinato de Marielle Franco,

Vereadora Marielle Franco do PSOL-RJVereadora Marielle Franco do PSOL-RJ - Foto: Reprodução / Facebook

A minha participação no Fórum Social Mundial, do qual tratarei na próxima semana, impediu que esta coluna fosse publicada na quarta-feira, como prometido.

Estamos todas em choque com a notícia do assassinato de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro. Eu a conheci o ano passado. Mulher negra, da Maré, impossível não lembrar da sua beleza e força, “afeto, luta e resistência”. Sem palavras para expressar a violência dessa perda. Solidariedade a familiares e pessoas próximas a ela e a Anderson Pedro Gomes, seu motorista. MARIELLE FRANCO PRESENTE!

Esta quinta-feira no FSM o dia foi de consternação e revolta. Houve passeata, e, à noite, acontece um ato no Pelourinho.

8M
Quando pensamos em greve, costumamos visualizar homens de braços cruzados. As greves de trabalhadores, no entanto, sempre contaram com um grande contingente de mulheres. Organizando, participando, criando comitês de apoio etc. A primeira greve geral do Brasil, que aconteceu em 1917, iniciou-se a partir da greve de trabalhadoras da indústria têxtil do Cotonifício Crespi em São Paulo. Na sequencia, várias outras categorias aderiram à greve, que atingiu outros estados.
 
Desde o 8 de março de 2017, há uma construção para que a data 8M seja marcada por uma paralisação de mulheres. A iniciativa surgiu de países e convocatórias distintas, entre elas norte americanas que mobilizaram em janeiro de 2017 a marcha contra Trump em Washington, que reuniu mais de meio milhão de pessoas. Passou pelas polonesas que, em outubro de 2016, protestaram massivamente contra o risco de proibição total do aborto naquele país, e das argentinas do NI UNA A MENOS (NEM UMA A MENOS). As argentinas, se você não sabe, realizam anualmente um encontro de mulheres, que costuma reunir de 50 a 70 mil participantes.

A ideia de paralisação não se refere apenas ao trabalho remunerado, mas também às atividades domésticas e/ou do cuidado, que historicamente estão relegadas às mulheres. O IBGE divulgou, na semana passada, que mulheres que trabalham no Brasil dedicam 73% horas a mais que os homens aos cuidados e/ou afazeres domésticos.

Mas não são só as horas dedicadas. Esse tipo de trabalho para elas é permanente: dormem, vão para o trabalho, pensando ou preocupadas com ele!

Aliadas à pauta relacionada ao trabalho e desigualdade salarial, na América Latina o repúdio à violência e a defesa da ampliação do direito ao aborto foram bandeiras que também apareceram com força nas passeatas. No Brasil, as reformas trabalhista e da
Previdência foram também rechaçadas pelas manifestantes.

Greve das argentinas em 2018

Greve das argentinas em 2018 - Crédito: Maria Torrellos/Resumen Latinoamericano.

No Uruguai, por exemplo, havia cerca de 300 mil pessoas. Na Espanha, a mobilização foi fabulosa! Milhares de mulheres e apoiadores em cerca de 180 cidades. Foi o país onde a ideia de greve ganhou maior peso e adesão. Foram incontáveis os países e número das que foram às ruas. Não só feministas, não só jovens cuja presença foi marcante, aderiram à convocatória.

No primeiro dia do Fórum Social Mundial que está acontecendo esta semana em Salvador, na Bahia, foi realizada uma plenária de avaliação do 8M da qual participaram mulheres de 14 países, continentes e contextos bastante diversos. Houve consenso quanto à importância da data para a constituição de um movimento internacionalista e de não se tratar o 8 de março como apenas um evento. Aliás, as atividades preparatórias são de extrema importância para a construção de movimento. No Brasil, organizar atos unificados entre movimentos autônomos, sindicalistas, militantes de partidos políticos, entre outras categorias, exigiu grande disposição para a conciliação. Mas, para quem tinha alguma dúvida, a data foi de somar forças e de luta!

Protesto no Recife em 2018

Protesto no Recife em 2018 - Crédito: Folha de Pernambuco/Arquivo

Não imaginaria Aristófanes (455 A.C. -375 A.C.) quando escreveu a comédia Lisístrata*, ou A Greve do Sexo, que seriam as mulheres reais mobilizadoras de grandes greves. Mas vamos pensar um pouco! Afinal de contas, nos últimos anos, são elas as que, de forma mais significativa, têm saído às ruas contra a ausência de direitos e os limites da democracia.

O 8 de março foi também de ocupação, por cinco dias, da Casa da Mulher Brasileira do Ceará. O Fórum de Mulheres Cearenses reivindicou politicas de enfrentamento à violência contra as mulheres do eEstado. O governador se comprometeu com as reivindicações. As bravas mulheres do MST, em 24 estados, também realizaram ocupações de terras e prédios públicos, escrachos e mobilizações.

Mobilização das mulheres sem-terra este ano

Mobilização das mulheres sem-terra este ano - Crédito: Teixeira de Freitas/MST.

*Cansadas das ausências de seus companheiros que viviam guerreando, fazem a greve de sexo com o intuito de obrigá-los a voltarem para casa. Com isso, elas alcançam promover a paz.

**Carla Gisele Batista é historiadora, pesquisadora, educadora e feminista desde a década de 1990. Graduou-se em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Pernambuco (1992) e fez mestrado em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (2012). Atuou profissionalmente na organização SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia (1993 a 2009), como assessora da Secretaria Estadual de Política para Mulheres do estado da Bahia (2013) e como instrutora do Conselho dos Direitos das Mulheres de Cachoeira do Sul/RS (2015). Como militante, integrou as coordenações do Fórum de Mulheres de Pernambuco, da Articulação de Mulheres Brasileiras e da Articulación Feminista Marcosur. Integrou também o Comitê Latino Americano e do Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem/Brasil). Já publicou textos em veículos como Justificando, Correio da Bahia, O Povo (de Cachoeira do Sul).

* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas. 

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