Meros na mira dos arpões de quem pratica a caça submarina

Atividade tem oferecido perigo à espécie, que é ameaçada de extinção

Ferido, o espécime da foto foi encontrado imóvel em um dos barcos naufragadosFerido, o espécime da foto foi encontrado imóvel em um dos barcos naufragados - Foto: Max Glegiston/Divulgação

Espécie ameaçada de extinção e protegida em âmbito federal, o peixe mero está na mira dos arpões de quem pratica a caça submarina em naufrágios. Territorialistas, são nos rebocadores que esse tipo de espécie encontra abrigo e proteção para dar continuidade à sua reprodução. Pelo menos, até então. Recentemente, um grupo de mergulhadores de uma empresa pernambucana aquática esteve no rebocador Marte, situado a 32 metros de profundidade e a seis milhas náuticas de Serrambi, Litoral Sul do Estado, e encontraram um mero arpoado sob condições precárias.

O animal estava em um canto, no interior do naufrágio, totalmente imóvel, apesar de vivo. Os instrutores de mergulho denunciam que tem sido cada vez mais recorrente a movimentação de pessoas demarcando com GPS pontos que têm naufrágio entre o Recife, Porto de Galinhas e Serrambi. Segundo eles, diversas denúncias teriam sido feitas às autoridades competentes, mas nenhuma fiscalização foi feita até o momento.

Marcelo Gesteira foi um desses mergulhadores que, na tentativa de salvar a vida do mero, cortou o cabo de nylon e removeu o arpão. A reação do mero, que há oito meses estava no naufrágio Marte, foi apenas deitar-se no fundo e ficar quieto. Talvez, acredita ele, o trauma fez o peixe se afastar do local que tinha como habitat como uma forma de se proteger da má-fé dos caçadores.

Nesta terça-feira (14), por volta das 8h, ele e outros instrutores pretendem mergulhar na tentativa de achá-lo. "Foi drástico vê-lo daquele jeito. Ele estava agonizando. Consultamos um biólogo marinho e, ao mostrar as fotos, fomos informados que as feridas foram graves, mas que existia a possibilidade dele conseguir sobreviver", acredita.

Porém, desde o último dia 8, quando o arpão foi removido, ele não foi mais encontrado. Os mergulhadores temem que os ferimentos tenham o deixado frágil, ao ponto de ele se tornar uma presa fácil. "Prefiro acreditar que ele só se afastou", fala, esperançoso.

Por meio de portaria interministerial, de autoria dos Ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente, a proibição da captura foi ampliada por mais 8 anos, ficando a proibida pesca até 2023. A pena é multa de R$ 5 mil por indivíduo pescado e cancelamento de licenças ou registros de atividade pesqueira, além de detenção de um a três anos.

Apesar de toda legislação em vigor, Gesteira põe em xeque se o afundamento recentemente de quatro rebocadores na costa pernambucana vai atrair não só mergulhadores, como também praticantes da caça ilegal. "Se tivéssemos uma fiscalização eficaz e um maior comprometimento das autoridades, a legislação não seria tão frouxa", critica.

Ele também denuncia que um caso semelhante ocorreu no naufrágio Vapor de Baixo, no Recife, há duas semanas. Durante um mergulho, o mero que vivia por lá já não estava mais na embarcação. "Posteriormente tomamos conhecimento pelos pescadores de que ele teria sido caçado", lamenta, alertando que os meros capturados nos naufrágios estão sendo cortados em filés ainda na embarcação como um meio de obstruir a prova do crime.

Atração turística

Marcelo Gesteira conta que entre Serrambi e Porto de Galinhas há uma área de naufrágios artificiais e lá o mero é atração turística. Muitos curiosos pagam só pelo bel-prazer de tirar uma foto ao lado do animal durante os mergulhos.

"Tínhamos um mero no naufrágio Marte. Agora, só contamos com o (rebocador) Gonçalo Coelho, que abriga um casal de meros há cinco anos. Um com 1,77 metros de comprimento e outro com 2,20m. Eles são territorialistas quando encontram proteção num determinado lugar. Mas, eu não sei até quando esse casal vai estar por lá. Perde o meio ambiente e toda uma economia. Pois muitas empresas de mergulho subaquático se beneficiam com esse atrativo", preocupa-se. O mero que tinha Marte como habitat natural possuía, em média, 1,50 metros.

Fiscalização
Apesar de os mergulhadores afirmarem que incansáveis tentativas com o Ibama foram feitas, inclusive, com o envio de fotos, o órgão assegura que nenhuma denúncia foi registrada no sistema. Porém, o chefe de fiscalização do Ibama em Pernambuco, Amaro Fernandes, afirma que o caso será analisado.

"Provavelmente, entrará no nosso cronograma de fiscalizações. Ano passado mesmo, autuamos um homem que fez a captura de um mero em Barra de Sirinhaém. Ele foi multado em R$ 5 mil", contextualiza. O contato para denúncia do Ibama é o 0800.61.8080.

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