Faixa de Gaza

Militares de Israel pressionam governo por plano pós-guerra em meio a reagrupamento do Hamas

Funcionários israelenses afirmam que falta de um planejamento para o "day after" e de uma autoridade responsável pelo enclave facilitam retorno de combatentes a regiões anteriormente liberadas

Palestinos transportam seus pertences na traseira de uma van enquanto fogem de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, para um local mais seguro Palestinos transportam seus pertences na traseira de uma van enquanto fogem de Rafah, no sul da Faixa de Gaza, para um local mais seguro  - Foto: AFP

À medida que as tropas israelenses lutam contra células do Hamas no norte e no sul da Faixa de Gaza, um descontentamento crescente contra o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ganha corpo entre militares da ativa e da reserva. Os militares argumentam que as tropas estão sendo sobrecarregadas e expostas no front, após oito meses de guerra, devido a falta de um plano bem definido sobre o futuro do enclave palestino.

A crítica se amplia em um momento em que soldados israelenses voltaram a enfrentar o Hamas em territórios no norte de Gaza que já haviam sido conquistados anteriormente. Autoridades israelenses ouvidas pelo New York Times, em anonimato, afirmaram que a relutância de Netanyahu em ter uma conversa séria sobre o “dia seguinte” tornou mais fácil para o Hamas se reagrupar, como campo de refugiados de Jabalia, alvo de ataques nesta terça.

Duas autoridades israelenses, que falaram sob condição de anonimato, disseram que alguns generais e membros do gabinete de guerra estavam frustrados com Netanyahu por não ter desenvolvido e anunciado um processo para construir uma alternativa ao Hamas para governar Gaza.

Eran Lerman, vice-conselheiro de segurança nacional de Israel de 2006 a 2015, disse que a reação que Israel está enfrentando em grande parte do mundo por causa da guerra, e o aumento do número de mortes entre os palestinos em Gaza, vem em parte da “falta de uma visão coerente para o dia seguinte."

Netanyahu resistiu aos apelos para pôr fim aos combates, argumentando que não pode haver governo civil em Gaza até que o Hamas seja destruído. Em uma entrevista a um podcast, na segunda-feira, ele disse que o território precisava primeiro de uma “desmilitarização sustentada por parte de Israel”, porque “ninguém vai entrar até saber que ou você destruiu o Hamas ou está prestes a destruir o Hamas”.

Mas com um número crescente de analistas e funcionários questionando se Israel pode atingir um objetivo tão amplo quanto a eliminação do Hamas, as críticas mais veementes de partes das Forças Armadas refletem uma divisão com o governo de Netanyahu que gradualmente se aprofunda.

Estrategistas israelenses disseram que esperavam que as tropas retornassem a algumas áreas de Gaza em fases posteriores da guerra, contudo, as duas autoridades israelenses afirmaram que começar a estabelecer uma nova autoridade governamental em Gaza tornaria as coisas mais difíceis para o Hamas — e poderia aliviar a carga para os militares israelenses.

— [Os líderes militares] estão frustrados por terem recebido uma missão militar que acaba por se repetir, porque as questões estratégicas e políticas mais amplas não foram respondidas pelo governo — disse Michael Koplow, analista do Israel Policy Forum.

Para Netanyahu, as considerações políticas envolvem tentar manter unido um governo com partidos de extrema direita que exigem um ataque total a Gaza, apesar das objeções americanas, e não estão dispostos a apoiar o que os países árabes exigiram como pré-requisito para ajudar em Gaza: um caminho para um Estado palestino.

Se Netanyahu se afastar das exigências da ala mais radical do Gabinete, eles ameaçaram derrubar o governo, o que poderia deixar Netanyahu exposto a uma série de acusações de corrupção, sem os poderes que tem como primeiro-ministro.

Lerman, antigo conselheiro adjunto de segurança nacional, publicou recentemente uma proposta de plano com outros acadêmicos do Centro Wilson, que apela a uma autoridade multinacional para administrar e policiar Gaza, liderada pelos Estados Unidos, Egito e outras nações. O texto foi compartilhado com as autoridades israelenses.

Outras propostas incluíram esforços para fortalecer a Autoridade Palestina que agora governa a Cisjordânia ocupada por Israel, mas o governo israelense também rejeitou essa ideia, argumentando que a organização presidida por Mahmoud Abbas não é um parceiro competente e credível.

Antigos líderes israelenses emitiram alertas sobre o efeito de uma falta de planejamento do pós-guerra, mesmo antes do início do ataque terrestre em Gaza. Em 14 de Outubro, uma semana após o devastador ataque liderado pelo Hamas, Tzipi Livni, antiga ministra dos Negócios Estrangeiros, apelou ao governo para considerar o futuro de Gaza no pós-guerra.

"Caso contrário, ficaríamos presos lá desnecessariamente e com um preço alto [a pagar]" disse a ex-ministra.

Em entrevista na terça-feira, ela disse que foi exatamente isso que aconteceu.

"Imagine se tivéssemos decidido isso antes e começássemos a trabalhar mais cedo com os EUA, a Autoridade Palestina, o Egito, os Emirados Árabes Unidos e os sauditas" disse ela. "Seria muito mais fácil".

Sem o plano, o Exército israelense intensificou os bombardeios ao enclave nesta terça-feira. Mais de 100 ataques aéreos foram lançados contra alvos em Rafah, na Cidade de Gaza e no campo de refugiados de Jabalia. De acordo com os militares, as ações visavam inutilizar instalações como túneis, armazéns de armas e outras infraestruturas utilizadas para operações terroristas. O Ministério da Saúde do Hamas afirmou que 82 pessoas morreram no enclave nas últimas 24 horas.

Moradores de Rafah ouvidos pela agência de notícias britânica Reuters afirmaram que tanques israelenses entraram mais no território de Rafah na manhã desta terça-feira, incluindo os bairros de al-Jneina, al-Salam e al-Brazil.

Retrocessos
A atual operação militar israelense em Rafah provocou um "retrocesso" nas negociações de cessar-fogo e troca de reféns por prisioneiros, de acordo com o primeiro-ministro do Catar, Mohamed ben Abdelrahman al-Thani. Em uma declaração nesta terça-feira, durante o Fórum Econômico do Catar, o premier afirmou que o processo está praticamente "estagnado".

— Nas últimas semanas, em particular, houve um certo impulso, mas infelizmente as coisas não avançaram na direção correta e agora estamos em uma situação de quase estagnação — disse al-Thani. — Obviamente, o que aconteceu em Rafah provocou um retrocesso.

O Ministério das Relações Exteriores do Catar denunciou que nenhuma ajuda humanitária entra em Gaza desde 9 de maio. Na segunda-feira, um comboio com insumos enviado da Jordânia foi atacado por manifestantes israelenses em um posto de controle com a Cisjordânia, que exigem a volta dos reféns capturados pelo Hamas. Alemanha e Estados Unidos condenaram a ação contra o comboio humanitário.

No sul, a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) anunciou, nesta terça-feira, que cerca de 450 mil pessoas deixaram Rafah, desde que as Forças Armadas de Israel lançaram operações contra a região, no começo de maio.

A agência da ONU divulgou a estimativa em uma publicação nas redes sociais. A UNRWA apontou que "quase 450 mil pessoas foram deslocadas à força de Rafah", diante da ordem de evacuação israelense. O número de deslocados neste período, de menos de 15 dias, é superior à população da cidade antes da guerra, que era de 250 mil — ao longo do confronto, Rafah chegou a abrigar cerca de 1,5 milhão de pessoas, a maioria fugida de outras regiões do enclave. (NYT e AFP)

Veja também

Israel ordena retirada de embaixadores da Irlanda e Noruega, após países reconhecerem Palestina

Israel ordena retirada de embaixadores da Irlanda e Noruega, após países reconhecerem Palestina

Após falha de sistema anticheia, Porto Alegre usa bombas de SP emprestadas
rio

Após falha de sistema anticheia, Porto Alegre usa bombas de SP emprestadas

Newsletter