Militares levam Covid-19 à terra indígena remota da Amazônia, afirmam lideranças

Há ao menos 23 infectados, incluindo uma mulher grávida de cinco meses transferida em estado grave a Macapá

Indígenas da comunidade Parque das Tribos choram no funeral do chefe Messias, 53 anos, da tribo Kokama, vítima do novo coronavírus, em ManausIndígenas da comunidade Parque das Tribos choram no funeral do chefe Messias, 53 anos, da tribo Kokama, vítima do novo coronavírus, em Manaus - Foto: Michael Dantas / AFP

Lideranças indígenas responsabilizam os militares e um órgão do Ministério da Saúde por ter levado o novo coronavírus à Terra Indígena Parque de Tumucumaque (PA/AP), na remota fronteira com o Suriname, só acessível por via aérea. Há ao menos 23 infectados, incluindo uma mulher grávida de cinco meses transferida em estado grave a Macapá.

De acordo com essas lideranças, os dois primeiros casos foram de indígenas da aldeia Missão Tiriyó que trabalham em uma empresa de limpeza terceirizada a serviço da Aeronáutica.

No local, funciona o 1º Pelotão Especial de Fronteira (1º PEF), onde atuam cerca de 50 militares do Exército e da Força Aérea Brasileira (FAB). A base está a 10 km da fronteira com o Suriname e a 940 km em linha reta de Belém.

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"Com certeza, os militares levaram", afirma Angela Kaxuyana, da região de Missão Tiriyó e membro da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira).

Kaxuyana relata que um militar do Exército foi removido em estado grave para Belém, com diagnóstico da Covid-19. Procurado, o Comando Conjunto do Norte (CCN), sediado em Belém, confirmou a informação. Disse que ele está recuperado e que regressará a sua guarnição no Comando Militar da Amazônia (CMA), com sede em Manaus.

"O que nos preocupa é que os indígenas tiveram contato com as outras aldeias do entorno. Há uma possibilidade de ter um número muito maior", afirma Kaxuyana. "As aldeias mais distantes têm interligação, eles visitam a família, transitam."

Ela afirma que, apesar do avanço da Covid-19, a presença do Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena) Amapá e Norte do Pará, órgão vinculado ao Ministério da Saúde, é mínima, e os testes rápidos para o coronavírus acabaram. Além disso, o Exército não tem brindado apoio.

"A aldeia está com um técnico de enfermagem do Dsei, um profissional indígena e um padre que está correndo pra cima e pra baixo. Não tem uma equipe que está fazendo frente a essa situação", afirmou Kaxuyana.

A Coiab está preocupada também com a Terra Indígena Paru d'Este, localizada abaixo de Tumucumaque. Há relatos de vários indígenas com sintomas da Covid-19, mas ninguém havia sido testado até esta sexta-feira (5).

Juntas, as duas TIs têm 4,3 milhões de hectares nos estados do Pará e do Amapá e abrigam nove povos indígenas em 63 aldeias. A população é de cerca de 3.200 pessoas.

Dois focos Segundo Aventino Nakay, presidente da Associação dos Povos Indígenas Tiriyó Kaxuyana e Txikityana (Apiticatxi), além dos casos na base aérea, o novo coronavírus também foi detectado em indígenas que estavam em Macapá para tratamento médico e foram trazidos de volta pelo Dsei.

Esses casos foram registrados na aldeia Tuhaentu, a cerca de 2 km de Missão Tiriyó. A contaminação teria acontecido na Casai (Casa de Apoio à Saúde Indígena) de Macapá, a 600 km em linha reta. Mantida pelo Dsei, é o local de hospedagem para quem precisa de atenção médica na cidade. "O Dsei deveria fazer os testes no pessoal. Mas acho que eles não tiveram esse controle e mandaram esse pessoal de volta já com vírus", afirma Nakay.

Segundo ele, a mulher grávida, que mora próxima à aldeia Tuhaentu, chegou a ficar em estado gravíssimo e só não morreu por causa de um tubo de oxigênio cedido pelo Exército. Removida em uma UTI aérea, ela está melhor e se recupera na Casai, isolada dos outros indígenas.

Boletim diário da Coiab contabiliza 2.463 casos de Covid-19 entre 68 povos indígenas da Amazônia até esta sexta (6). Os óbitos já somam 207 casos, em 37 povos indígenas.

A reportagem entrou em contato com o secretário de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, o coronel do Exército Robson Silva. Via WhatsApp, ele solicitou que as perguntas fossem enviadas por e-mail. Até o fechamento desta edição, não houve resposta aos questionamentos.

O CCN afirma que adota "cuidados criteriosos em assistir aldeias indígenas": "O CCN planeja as ações e executa de acordo com as solicitações de órgãos competentes como a Funai e Sesai, que cuidam das reservas.

"O Comando reitera que tem atuado com a doação de máscaras, kits de higiene, cestas básicas e outros donativos. Também tem dado atenção principalmente na construção e apoio logístico e operacional de centros de saúde em aldeias, na região do Pará", afirmou, via assessoria de imprensa.

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