Moradores do Poço da Panela reféns da violência

Assaltos seguidos alteraram a rotina do bairro da Zona Norte. Associação quer vigilância armada. Na última quinta (9), no início da noite, polícia prendeu sete suspeitos

Cristiano Cavendish passou a manter o portão com cadeado. Neisse Barbosa abandonou o hábito de sentar na porta de casa no fim da tarde. Ontem, carro da polícia circulava no bairro. Dois dos sete presos foram reconhecidos por uma das vítimas Cristiano Cavendish passou a manter o portão com cadeado. Neisse Barbosa abandonou o hábito de sentar na porta de casa no fim da tarde. Ontem, carro da polícia circulava no bairro. Dois dos sete presos foram reconhecidos por uma das vítimas  - Foto: Alfeu Tavares

 

Conhecido por ser um dos bairros mais pacatos do Recife, o Poço da Panela, na Zona Norte, atravessa dias turbulentos ao longo das últimas semanas. Seus moradores tiveram que adaptar a rotina para viver uma nova realidade: o medo provocado por uma onda de assaltos. Boa parte deles registrados em vídeos que viralizaram nas redes sociais e intensificaram o clima de insegurança que já contaminou toda a Cidade.

A fartura de imagens facilitou a vida da Polícia, que capturou, no início da noite de ontem, sete jovens envolvidos com os crimes. Dois deles foram reconhecidos por uma das vítimas da investida da última quarta-feira. A situação levou a Associação dos Moradores e Amigos do Poço da Panela (Amapp) a convocar reunião para tratar da contratação de vigilância armada, entre outras providências.
Para o presidente da Amapp, Antônio Pinheiro, a notícia da prisão dos jovens é bem recebida, mas não acaba com o medo. “Dá um certo alívio, a impressão de que estão trabalhando. Mas ainda há insegurança até que as coisas, de fato, melhorem. Pode ser só eles (os jovens presos), mas pode ter outros grupos atuando”, afirmou.

Ele disse que a comunidade está se mobilizando para colaborar com a polícia. “Estamos acompanhando isso de perto, para levar testemunhas e identificar”. Sobre a vigilância particular, Pinheiro adiantou que a ideia será discutida, mas que não é correto pagar por um serviço que é responsabilidade do Estado. “Temos que tomar cuidado para não tirar o papel de obrigação do Poder Público e arcar com esse prejuízo.”

Antônio contou como seu dia a dia foi alterado nas últimas semanas. “Eu ando na rua, escuto uma moto e já olho para trás”, revelou. Dona Neisse Barbosa, de 73 anos, sempre cultivou o hábito de sentar-se à frente de casa nos fins de tarde. Nas últimas semanas, preferiu ficar dentro de casa. Relato parecido com o de Cristiano Cavendish, morador do Poço desde que nasceu, há 53 anos. “A sensação é diferente. Estamos ficando mais precavidos, com mais receio na hora de chegar e sair de casa”, contou.

Elvânio Jatobá, advogado, diz que redobrou os cuidados com suas duas filhas. “Quando elas estão chegando em casa, têm que me avisar para eu ir para frente esperar. Todo mundo está se precavendo.” Seu Vital de Barros, dono de uma mercearia em frente à Igreja do Poço há meio século, diz que nunca viu nada parecido no bairro. “É a primeira vez. Comigo, graças a Deus, ninguém buliu, mas está dando medo de trabalhar. A qualquer hora pode acontecer algo.”

Reforço policial
Segundo boa parte dos moradores entrevistados ontem pela reportagem da Folha de Pernambuco, os assaltos da quarta-feira passada já tinham provocado um considerável aumento do número de viaturas da Polícia Militar circulando pelo Poço da Panela.

Segundo o tenente-coronel Mamede, comandante do Grupo de Apoio Tático Itinerante (Gati) do 11º Batalhão da PM, as investigações para prender outros suspeitos continuam e contam com a colaboração das vítimas. “Eu peço para que as vítimas que tiveram pertences roubados por esses elementos venham até a delegacia para reconhecê-los e recuperar seus bens.”
Serviço de vigilância
Apesar do plano revelado pela Amapp, de contratar vigilância armada, o assessor jurídico do Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado de Pernambuco (Sindesp-PE), Emanuel Correia, negou que os membros da associação tenham percebido aumento da demanda pelos seus serviços, fazendo menção ao cenário de crise econômica atravessado pelo Brasil. “Não houve nenhum acréscimo. Pelo contrário, tivemos uma redução de vigilantes, pelo momento que o país atravessa”, afirmou.

 

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