Violência

Motorista de app é estuprada e roubada durante corrida no Recife: 'Eu sabia que ia morrer'

Adélia Neta relata momentos de terror vividos na mão dos três suspeitos dos crimes, que foram presos

'Antes do meu rosto estar na televisão, meu rosto estava no grupo, todo mundo me procurando', disse a motorista'Antes do meu rosto estar na televisão, meu rosto estava no grupo, todo mundo me procurando', disse a motorista - Foto: Cortesia

Uma motorista de aplicativo foi vítima de assalto e estupro, na noite do domingo (20), na Zona Oeste do Recife. Adélia Neta, de 36 anos, ainda teve o carro levado por três suspeitos e foi feita refém por eles. Os três foram presos em flagrante.

Em entrevista por telefone à Folha de Pernambuco, Adélia relatou os momentos de tensão vividos enquanto esteve refém. “Disseram que não iriam fazer nada comigo, não iria acontecer nada de mal comigo, só queriam o carro para ‘fazer uma parada’", contou, chorando. 

Segundo Adélia, uma conta de uma passageira solicitou a corrida no bairro da Caxangá, na Zona Oeste do Recife, nas proximidades do Terminal de Integração. Ela, que também dirige para outros dois aplicativos, diz que a corrida foi pedida pelo app inDriver. “Vi a foto de uma mulher, placa e quantidade de corridas [no aplicativo]. Então disse que ia pegar, era pra Boa Viagem. Fui falando com meu esposo no meio do caminho”, explicou.


Adélia conta que, por questões de segurança, sempre compartilha a localização em tempo real com o esposo, também motorista de aplicativo, e outros colegas de profissão em grupos de apps de mensagens, prática comum da categoria. Ela diz que chegou a ligar para o passageiro e que, apesar da conta ser de mulher, a voz de um homem aceitou a corrida. Adélia é motorista de app há dois anos e meio e costuma rodar durante o dia, enquanto o marido, também motorista, roda à noite. No domingo, dia do crime, ela diz ter ido trabalhar à noite porque o marido estava cansado. 

“Desconfiei na hora. Ele disse que a moça que pediu tinha dito [para pegar a corrida], tinham trabalhado o dia todo e pediram pressa. No local, vi dois homens com bolsas nas costas, até na ligação não tinha voz de ‘maloqueiro’. Baixei o vidro e perguntei o nome da passageira”, detalhou Adélia sobre os primeiros momentos do crime.

Instantes após entrarem no carro, os dois criminosos anunciaram o assalto. “Quando engatei a primeira marcha, eles anunciaram o assalto. Não visualizei arma, mas senti algo gelado e redondo na minha nunca”, lembrou Adélia. No momento do anúncio, o marido dela estava na linha e seguindo a viagem pela localização em tempo real. Em seguida, os dois mandaram Adélia ir para o banco de trás do carro e ficar de cabeça baixa. Alguns metros depois, um terceiro assaltante entrou no veículo.

“Eu sou mãe de família, leve o carro, leve o dinheiro, leve tudo, mas deixe minha vida por favor. Eles disseram que não iriam fazer nada comigo”, apelou Adélia. Ela tem dois filhos, um homem de 21 anos e uma adolescente de 17 anos. Ao perceber a rota estranha e diferente do destino da viagem, o marido de Adélia acionou a polícia. “Ele [o marido] sabia que o destino era Boa Viagem, mas estava em uma área de mata próximo à UPA da Caxangá. Eles pararam o carro às margens da BR-101. Dava pra escutar os carros passando. Eles foram embora com o carro e eu fiquei com um no matagal, ele mandou entrar mais para dentro do mata. Eu acho que era um local de desova”, disse Adélia.

Sozinha com o terceiro suspeito, Adélia diz que foi estuprada por ele. “Não houve conjunção carnal, mas ele tocava o tempo todo em todas as partes do meu corpo. Pedi para ele não fazer isso”. Ela começou a questionar o estuprador se ele tinha mãe, filha, irmã e começou a falar de Deus. 

“Algo me dizia que eu iria sair dali, mas não sabia como. Eu pensei em fazer algo, mas não tive reação. O corpo não respondia. Teve uma hora que abracei ele, disse que Jesus o amava. O abraço foi para ver se ele tinha arma. Ele disse que ia me matar, mandou eu ficar deitada, queria ficar em cima de mim. Comecei a fingir que estava passando mal, dizer que eu estava grávida. Tentava sensibilizar para não fazer nada comigo”, relatou.
 

Filhos de proprietária estiveram na Delegacia de Boa ViagemCaso foi registrado e será investigado pela Delegacia de Boa Viagem (Foto: Arthur Mota/Arquivo/Folha de Pernambuco)

Prisões
Os três suspeitos do crime foram presos já na madrugada da segunda-feira (21), horas após abordarem Adélia na Caxangá. Segundo a Polícia Militar de Pernambuco, policiais visualizaram o veículo roubado da motorista na avenida Recife, no Ipsep, Zona Sul da capital pernambucana. A polícia deu início às buscas e conseguiu prender dois dos suspeitos que estavam dentro do veículo, já na rua Ernesto de Paula Santos, no bairro de Boa Viagem, também na Zona Sul.

Aos policiais, os dois suspeitos informaram que o terceiro integrante estava em uma área de matagal próxima ao local onde cometeram o crime, onde Adélia estava. Os policiais seguiram e encontraram o suspeito ainda com a vítima, que, de acordo com a polícia, estava muito nervosa. Ela então contou aos policiais ter sido estuprada pelo agressor.

Adélia relembra que o terceiro suspeito ligou para os comparsas dizendo que ela estava passando mal. Foi então que ela escutou “mão na cabeça”. Era a voz de um policial do 19º Batalhão da Polícia Militar. “Os policiais prenderam ele. Foi um alívio muito grande. Eu sabia que ia morrer quando os outros voltassem”.

O trio foi encaminhado para a Delegacia de Polícia Civil de Boa Viagem. Segundo a Polícia Civil, os três foram autuados em flagrante delito por roubo com restrição de liberdade. “Ao terceiro suspeito será acrescentado o crime de estupro”, informou a polícia em nota oficial. O caso será conduzido pelo delegado Bruno Gabriel, do plantão de Delegacia de Boa Viagem. 

Adélia agora espera que, após as prisões, a justiça seja feita. “Antes do meu rosto estar na televisão, meu rosto estava na madrugada de domingo para segunda no grupo, todo mundo me procurando. Eu não acho justo me esconder, acho importante falar sobre isso. Do mesmo jeito que aconteceu comigo aconteceu com outros. Quantos motoristas já foram assaltados e não estão na mídia?”, acrescentou a motorista ao ser questionada sobre a divulgação de sua imagem.

Após ser resgatada, Adélia Neta foi atendida na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Caxangá. Na unidade de saúde, a médica recomendeu ela procurar atendimento psicológico. A motorista espera que o inDriver auxilie nessa questão.

Segurança
Por fim, Adélia cobra melhorias nos sistemas de segurança dos aplicativos. “O motorista para se cadastrar no app tem várias questões como foto de carro, da placa, antecedentes criminais, foto do documento do caro. O passageiro bota CPF, foto, nome e olhe lá. Só vieram me responder [o inDriver] porque a mídia repercutiu muito”, reclamou.

“Motorista de aplicativo é um ser humano, ele está ali para trabalhar, para sustentar sua família. Que venham se sensibilizar não só pelo meu caso, mas por todos que aconteceram, os que já tiveram suas vidas tiradas, que pensem neles, que tenham mais segurança, que tenha mais fiscalização. Graças a Deus estou viva”, finalizou Adélia.

Associação de motoristas
Em contato com a reportagem, o presidente licenciado da Associação dos Motoristas e Motofretistas por Aplicativos de Pernambuco (Amape), Thiago Silva, afirmou que a entidade deu todo suporte a Adélia. "Quando ficamos sabendo do ocorrido, fomos até a Delegacia de Boa Viagem para prestar todo o suporte necessário. Conversamos com pessoal, divulgamos nos grupos, prestamos toda a solidariedade a Adélia", relatou Thiago.

"A empresa ficou de dar um retorno, de informar o que estão fazendo", acrescentou o presidente licenciado. Segundo ele, que usa dados de um aplicativo especializado em contabilizar dados de violência, sete motoristas de aplicativo foram vítimas de assalto no Estado. "Desses, três morreram. Acreditamos que são muitos casos", criticou.

"As empresas são muito ruins em questão de segurança. Sempre cobramos cadastros mais robustos, reconhecimento facial para garantir mais segurança para o motorista", pontuou Thiago. "A Associação conseguiu viabilizar uma psicóloga para atender Adélia. O pessoal conseguiu cestas básicas, algumas doações. Ela está muito traumatizada com tudo o que aconteceu e não pretende voltar a rodar", finalizou o líder da Amape. 

Resposta do inDriver
A Folha entrou em contato com o inDriver para saber o posicionamento do aplicativo. Em nota oficial, a empresa, através de sua equipe de suporte, informou que tomou conhecimento do caso ocorrido no Recife.
 
"Sabendo do ocorrido, entramos em contato com a Adélia para mostrar nosso apoio neste caso. Neste momento, estão sendo tomadas todas as medidas internas cabíveis para que possamos dar um seguimento pertinente e específico a este incidente e tomar as medidas necessárias em prol da nossa comunidade", afirma o inDriver.

"Reiteramos nossa intolerância à violência e suas diversas manifestações. Neste momento, o inDriver já está em contato com as autoridades locais ajudando no que for necessário", completa a nota oficial da empresa.

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