Movidos pelo WhatsApp

Para entender a divulgação de notícias de caráter duvidoso, temos que considerar que as dificuldades econômicas num País com mais de 12 milhões de desempregados impõem limitações sobre o consumo de informação produzida por veículos tradicionais, como jorn

Patrícia de Raposo, editora chefe da Folha de PernambucoPatrícia de Raposo, editora chefe da Folha de Pernambuco - Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

O WhatsApp foi criado como um serviço de mensagens, mas hoje é uma das redes sociais mais usadas no Brasil, com 120 milhões de adeptos. Nestas eleições, ganhou um poder de influência avassalador e está sendo capaz de definir o rumo que o pleito irá tomar.

Na última quinta-feira (18), o serviço esteve no centro de uma denúncia envolvendo suposto esquema de doação eleitoral para Bolsonaro por empresas privadas, o que por lei é proibido. O fato, que precisa ser comprovado, se soma aos embates travados entre os eleitores adversários e reforça o papel de protagonista do WhatsApp nesta campanha, tornando-o o principal canal para veiculação de notícias, grande parte de caráter duvidoso.

Para entender este fenômeno, temos que considerar que as dificuldades econômicas num País com mais de 12 milhões de desempregados impõem limitações sobre o consumo de informação produzida por veículos tradicionais, como jornais, revistas, canais noticiosos fechados, entre outros. Esse conteúdo é essencial para a tomada de decisões, mas por aqui é considerado supérfluo por grande parte da população. Também precisamos ter em mente que o celular passou a ser um produto de primeira necessidade.

Na sua condição de primazia, o telefone móvel mudou hábitos. Para começar, tornou-se o principal mecanismo de acesso à web. Além disso, fez com que muitos telespectadores deixassem de se sentar à frente da TV, seja para assistir ao tradicional "jornal das 8h" da noite, seja para ver filmes. Agor, eles podem ir na internet escolher o que querem ver, na hora que bem entenderem. Esse seria o modelo atual e ideal. Mas não é bem assim.

Os pacotes de dados vendidos pelas operadoras, principalmente às classes C, D E, as que mais sofrem com o desemprego, têm restrições para navegar na web. No entanto são liberados para uso do WhatsApp graças a um acordo com as operadoras. Isso limita essas classes sociais a irem a sites informativos confiáveis. E, ainda que cheguem lá, há outra barreira: a assinatura.

Quer dizer que, mesmo podendo navegar na internet, para ter acesso à notícia, precisam pagar por ela. E, entre pagar pela notícia ou pagar por um filme, muitos ficam com a segunda opção, contentando-se com o “noticiário” que recebem pelo WhatsApp. Se estão lendo verdades ou não, só poderão saber indo às fontes confiáveis de informação. E aí, voltamos ao início do problema, percebem?

Pesquisa do Datafolha divulgada no começo de outubro revelou que, enquanto o Facebook detém 58% dos eleitores, o WhatsApp abraça 68% deste universo. Entre os eleitores de Bolsonaro, 81% usam o WhatsApp, contra 59% dos de Haddad. E 57% dos eleitores do candidato do PSL leem sobre política pelo serviço de mensagem, contra 38% dos eleitores do petista. Isso explica a explosão de fake news.

Os veículos tradicionais, pressionados pela disruptura digital, mudaram o modelo de negócio, fechando seu conteúdo e passando a cobrar por ele. Restringiram, assim, a informação a núcleos privilegiados. A massa tem dificuldade de acesso a notícias verdadeiras. A onda digital atingiu a todos. Mas acertou em cheio a democracia, afastando o povo do acesso livre à informação.

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