Chuvas Fortes

Mudanças climáticas e urbanismo descontrolado: causas das chuvas mortíferas no Brasil

Mais de 680 milímetros de chuva caíram em 24 horas no último fim de semana em São Sebastião, balneário no estado de São Paulo

Desmoronamento causado pelas chuvas no bairro Itatinga, conhecido como Topolândia, no litoral norte de São PauloDesmoronamento causado pelas chuvas no bairro Itatinga, conhecido como Topolândia, no litoral norte de São Paulo - Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

As chuvas recordes que deixaram quase cinquenta mortos no sudeste do Brasil representam o mais recente fenômeno extremo causado pelo aquecimento global, que exige políticas públicas de mitigação e reordenamento urbano, diz especialista em clima.

Mais de 680 milímetros de chuva caíram em 24 horas no último fim de semana em São Sebastião, balneário entre o mar e as montanhas no estado de São Paulo, onde a maioria das vítimas foram encontradas.

As chuvas causaram rios de lama que varreram casas precárias construídas nas encostas da região a 200 km da cidade de São Paulo.

Choveu mais que o dobro do que era esperado para todo o mês, marcando o maior volume acumulado na história do Brasil, segundo as autoridades.

O volume é maior que o da tempestade que atingiu a cidade de Petrópolis em 2022, na serra do estado do Rio de Janeiro, onde em 15 de fevereiro daquele ano foram registrados 260 mm de água que deixaram um balanço de 241 mortos.

Francis Lacerda, pesquisadora do Laboratório de Mudanças Climáticas do Instituto Agronômico de Pernambuco, explica as causas desse fenômeno.

 

Pergunta: Por que o Brasil experimenta temporais devastadores  cada vez mais frequentes?

"É uma consequência do aquecimento global, que tem gerado mais eventos extremos no Brasil como um todo, na América do Sul e no planeta inteiro. No sudeste, centro-oeste norte e nordeste, nos últimos 30, 40 anos vê-se uma alteração do padrão de chuvas, uma diminuição do total de chuvas, entretanto, um aumento desses episódios."

"Uma grande quantidade de gases de efeito estufa é armazenado nos oceanos, o que altera as correntes oceânicas. Isso provoca uma alteração da distribuição do calor dos polos para o Equador (...) causando mais eventos extremos."

 

P: Pode acontecer em qualquer lugar do país?

R: "Pode acontecer em qualquer lugar(...) no caso do litoral norte tem a Serra do Mar. Essas áreas têm um grau de vulnerabilidade maior. O padrão foi intensificado pela Serra do Mar e a passagem da frente fria com ventos marítimos mais intensos".

 

P O número de vítimas poderia ser evitado?

R: "É uma tragédia anunciada. A partir de 18 e 19 (fevereiro) os modelos (meteorológicos) já começam a perceber que tinha ali uma probabilidade grande de acontecer um fenômeno como esse, dão uma quantidade de informação suficiente para que a Defesa Civil pudesse evacuar essas áreas. Além disso, a gente tem outro problema: os municípios, governos estaduais e o próprio governo federal não têm se preparado para as mudanças climáticas."

 

P: No Brasil, 9,5 milhões de pessoas vivem em áreas de risco de deslizamentos ou inundações, segundo dados oficiais. Como esse problema pode ser combatido?

R: "Existem várias coisas que podem ser feitas. Uma delas é sanar o déficit habitacional. As pessoas pobres periféricas são praticamente empurradas para essas áreas de risco e não têm alternativa. Todo um esforço deve ser feito(...) com olhos em uma reformulação dessas políticas públicas urbanas".

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