Cuba sem Fidel Castro

Morto aos 90 anos, no sábado, o líder deixa enorme vazio na ilha. Abrindo-se ao capitalismo, mas fechado politicamente, o regime cubano é uma incógnita

Foto tirada em setembro de 2010 mostra o ex-presidente cubano Fidel Castro dando um discurso na Universidade de HavanaFoto tirada em setembro de 2010 mostra o ex-presidente cubano Fidel Castro dando um discurso na Universidade de Havana - Foto: Adalberti Roque/AFP

Quando Fidel Castro governava, o acesso à internet e o trabalho privado em Cuba eram limitados. Ver americanos passeando, muito difícil. O líder da Revolução Cubana, que morreu na madrugada do último sábado, aos 90 anos, dirigiu com mão de ferro a ilha que hoje se abre com cautela à internet, à atividade privada e a uma relação "de iguais" com os Estados Unidos, seu adversário da Guerra Fria.

A Cuba deixada por Fidel não é a mesma dirigida por ele por quase cinco décadas, até que uma crise intestinal o obrigou a delegar o poder a seu irmão Raúl em 2006. Uma Cuba congelada no tempo, estagnada. Fidel já não governava, mas para muitos cubanos nada acontecia sem seu consentimento. Apegado ao socialismo, seu irmão Rául flexibilizou o desgastado modelo de corte soviético e restabeleceu relações diplomáticas com Washington. Em 2005 não havia mais de 165 mil trabalhadores liberais.

Atualmente, esse número chega a meio milhão dentro de uma força de trabalho de cinco milhões de cubanos. Tudo isso simboliza as mudanças experimentadas por Cuba sem Fidel no comando, mas influenciando nos bastidores. Agora que o líder histórico morreu, e que Raúl, de 85 anos, está a pouco mais de um ano de sua anunciada aposentadoria do governo, a incerteza ganha forma, sobretudo enquanto os Estados Unidos aguardam a posse de Trump, uma guinada inesperada à direita.

Equilibrando-se entre a aproximação com os EUA e a manutenção dos valores socialistas, ainda cobrados por Fidel. Raúl não tem o carisma do irmão, mas mostrou senso de pragmatismo que, se ainda não é o suficiente para colapsar o regime comunista na Ilha, ainda vivendo sob uma ditadura, com controle estatal da economia e vigilância constante das ideias e passos da dissidência, já deu um alívio aos que pensam diferente, o que é surpreendente.

Foi Raúl quem implementou, na década de 1960, os campos de trabalho para homossexuais e outros malvistos pelo governo, que liderou o fechamento de uma revista de intelectuais em 1971 e que acusou um grupo de acadêmicos de "traidores" em 1966. Longe de um liberal.
Raúl agora dialoga com bispos católicos, diminuiu a repressão aos opositores, abre espaço para a iniciativa privada na economia, acabou com diversas proibições. As reformas econômicas irão criar "uma sociedade menos igualitária, porém mais justa", declarou em fevereiro de 2013. "Sem pressa, mas sem pausa", é seu lema.
Como o irmão, sabe-se mortal. O partido comunista aprovou em 2012 restringir para 10 anos o tempo em um cargo de direção, limite que para ele se cumpre em fevereiro de 2018. A pressão aumentará. A polícia impede manifestações dentro de Cuba, mas fora a morte de Fidel foi festejada. No último domingo (27), os cubanos de Miami saíram às ruas cantando pela segunda noite. O sucessor escolhido é o engenheiro Miguel Díaz-Canel, nascido em 1960. Cuba se prepara para mudanças.

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